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Portugal com metade da chuva normal, temperaturas altas e ondas de calor

Atual ano hidrológico é o segundo mais seco desde, pelo menos, 1931. A partir de janeiro todo o continente entrou em regime de seca. Além das temperaturas elevadas, o país registou já duas ondas de calor. A nível mundial, o último mês foi um dos três meses de julho mais quentes de que há registo.
Efeitos da seca na Barragem Alto Rabagão, em Montalegre, 6 de julho de 2022. No Norte do país, as barragens do Alto-Lindoso e do Alto Rabagão estão com níveis de água historicamente baixos, prejudicando a agricultura e o turismo. Foto de PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o atual ano hidrológico, compreendido entre 1 de outubro de 2021 e 30 de setembro de 2022 está a ser o segundo mais seco desde que há registos, ou seja, desde 1931. Os valores de precipitação só foram inferiores em 2004/2005. Até ao momento, a precipitação foi de 419 milímetros (mm), 51% do que seria um valor normal.

O passado inverno foi o quinto mais seco desde 1931, com o total de precipitação nos meses de dezembro a fevereiro, 117.6 mm, a representar somente 33% do valor médio. O mês de janeiro foi classificado como muito seco e fevereiro como extremamente seco. A par da escassez de chuva, temperaturas elevadas traduziram-se num agravamento da seca meteorológica, que se tornou mais intensa em todo o continente. No fim do inverno, 66% do continente estava nas classes de seca mais graves, severa e extrema.

Atualmente, o continente está todo em regime de seca, 55% em classe de seca severa e 45% em seca extrema.

Acresce que o país já registou duas ondas de calor e o mês de julho foi o mais quente dos últimos 92 anos, registando temperaturas praticamente sempre acima do normal. Em Pinhão os termómetros subiram aos 47º, um novo extremo para julho no continente. O IPMA classifica o mês passado em Portugal continental como extremamente quente em relação à temperatura do ar e muito seco em relação à precipitação.

Uma fonte do IPMA explicou à agência Lusa que “a seca hidrológica que o território continental enfrenta está diretamente relacionada com o défice de precipitação persistente registado e não tanto com a ocorrência de ondas de calor”.

“As ondas de calor são fenómenos que, de alguma forma, são integrantes de caracterização climática do território continental e com impacto na evaporação da quantidade de água armazenada nas albufeiras, barragens e represas”, acrescentou.

No que respeita aos próximos meses, o IPMA não identifica “um sinal consistente de défice de precipitação”.“Poderemos prever que a precipitação ocorrerá com valores normais para esses períodos”, referiu a fonte. Ainda assim, dificilmente será suficiente para colmatar o défice de água nas barragens e albufeiras.

Em resposta às questões da agência noticiosa, o IPMA esclareceu ainda que, “em 14 dos últimos 20 anos, registámos défice de precipitação em relação ao período 1970/2000, situação que propicia a ocorrência de períodos em que o território continental estará nas classes mais elevadas da seca meteorológica e consequentemente seca agrícola e hídrica”.

Acresce que, em algumas das secas meteorológicas mais recentes, os períodos secos duram mais tempo e “têm uma configuração espacial mais abrangente”, afetando agora também de forma mais severa a região norte transmontana e também o norte litoral.

No Alto Minho já se perspetiva corte de abastecimento de água para consumo

Citado pelo jornal Público, o presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Minho, Manoel Batista, assume que, face à previsão de um Verão seco com temperaturas elevadas e sem chuva em todo o país, “é possível que, nalgum momento, alguns sistemas não tenham capacidade de se abastecer de água”.

“Sabemos que há municípios na nossa vizinha Galiza onde o consumo de água já é controlado, e é cortado o abastecimento em períodos do dia. Isso ainda não aconteceu no Alto Minho porque temos procurado que cada um dos reservatórios consiga dar resposta aos respectivos sistemas de abastecimento, mas, em última análise, poderá haver alguma medida mais grave”, alertou Manoel Batista.

As aldeias das montanhas são “as mais vulneráveis”, com caudais de água registados em meados de julho que “só se registam, habitualmente, em finais de agosto”.

Mês passado foi um dos julhos mais quentes jamais registados no mundo

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que “o mundo acabou de conhecer um dos três meses de julho mais quentes de que há registo. E, claro, como todos sabemos, uma onda de calor muito prolongada e intensa afetou algumas partes da Europa".

Globalmente, a temperatura do mês passado foi 0,4°C mais elevada do que a temperatura registada em julho no período de referência 1991-2020.

No mês passado, a OMM apelou a uma "tomada de consciência" dos decisores políticos para ondas de calor como a que está atualmente a ocorrer na Europa, que se espera que se tornem mais frequentes devido às alterações climáticas, pelo menos até aos anos 2060.

A par do calor, algumas zonas do mundo estão a ser assoladas por uma seca severa.

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