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Por uma outra Europa

Na sua primeira intervenção como cabeça de lista do Bloco de Esquerda às europeias, Marisa Matias afirma que o que está em causa é a continuidade da austeridade ou uma refundação da Europa. E sublinha: “somos europeístas, sim, europeístas de esquerda, não nos peçam é para ser eurotontos”.
“Aqueles que põem a mão no peito e se dizem europeístas convictos estão a destruir o estado social que foi a imagem de marca da Europa no pós guerra. Somos europeístas, sim, europeístas de esquerda, não nos peçam é para ser eurotontos”, disse Marisa Matias

Num discurso emocionado, em que recordou que as europeias de maio serão as primeiras que o Bloco vai disputar sem Miguel Portas, Marisa Matias afirmou que está em causa saber “se nos resignamos com a austeridade” ou se, pelo contrário, “defendemos uma refundação da União Europeia e das suas instituições”.

Resignar-se com a austeridade nos próximos 15 a 20 anos, sublinhou a eurodeputada, seria a continuação do sufoco da economia, da desqualificação dos cidadãos, do fim da esperança.

Já a refundação da União Europeia que o Bloco propõe é para fazer o “resgate da democracia contra o federalismo burocrático, assumindo o compromisso de defender o país e rejeitando mais sacrifícios em nome do Euro”.

Essa proposta, insistiu a cabeça de lista do Bloco, “implica uma solução urgente para a reestruturação das dívidas das economias periféricas” e também uma aposta “nos salários e na proteção do trabalho como fator de desenvolvimento e cumprindo a promessa de um novo modelo social europeu”.

Propaganda não garante almoço

Mas à medida que as eleições se aproximam, advertiu Marisa Matias, o governo encena cuidadosamente uma campanha para fazer passar a ideia do suposto sucesso da austeridade.

“Pouco importa que os números indiquem o contrário. Mentiras e disparates, mil vezes repetidos, preenchem o debate público”, sublinhou.

Fazendo o balanço dos anos da troika e do Memorando, do qual António José Seguro nunca se desligou, os números falam claro: “Onde nos garantiam um défice de 3% em 2013, o défice real ficou nos 5,6%. Onde asseveravam que a dívida pública atingiria o seu ponto máximo nos 114%, já passámos dos 130% e continua a subir. Onde teríamos crescimento económico já em 2013, o 'sucesso' de que fala o governo continua a brindar-nos com recessão e níveis de desemprego nunca vistos”.

Ora “como se pode falar, assim, em 'milagre económico' quando tudo, mas mesmo tudo, o que nos diziam que iria resultar com a austeridade falhou?”, questionou a candidata. Quando, “três anos passados, o país está mais desigual, mais pobre, viu sair centenas de milhares de pessoas a quem negou o presente e fechou o futuro?”

A verdade, ironizou Marisa Matias, é que “a propaganda do governo pode ser boa, mas propaganda nunca garantiu o pequeno almoço a ninguém”.

Rasgando as promessas

O panorama da Europa do diretório e dos bons alunos não podia ser mais sombrio. “É a Europa da divisão entre norte e sul, da desistência da dignidade humana. A Europa que se alimenta das Lampedusas e faz crescer a xenofobia é a mesma onde se criminaliza imigrantes e pobres”. É a Europa que vem “rasgando, uma por uma, todas as promessas que nos fizeram querer ser europeus”.

Nem tudo, porém, são más notícias, disse a candidata do Bloco, destacando a resposta da solidariedade dos povos, dos anos em que assistimos “à resistência popular nas ruas contra a austeridade, ao ensaio de uma primeira greve geral europeia, à realização uma contra-cimeira, ao reforço do internacionalismo de esquerda”.

Não somos eurotontos

E concluiu, rejeitando a acusação dos que dizem que criticar a Europa, criticar a austeridade é ser contra a Europa. “Aqueles que põem a mão no peito e se dizem europeístas convictos estão a destruir o estado social que foi a imagem de marca da Europa no pós guerra. Somos europeístas, sim, europeístas de esquerda, não nos peçam é para ser eurotontos”.

E concluiu: “Defender a Europa, hoje, é também defender Portugal. Defender Portugal, hoje, é também defender outra Europa”.

Agradecimento a Miguel Portas

No início da intervenção, Marisa Matias prestou um tributo ao eurodeputado Miguel Portas, falecido a meio do mandato, sublinhando que “todos sabemos o quanto devemos ao Miguel. As posições europeias do Bloco confundem-se com o legado e a imagem do Miguel, e disso temos orgulho. Devemos muito ao seu empenho e alegria contagiante em prol de um espaço europeu de solidariedade”. E não esqueceu também um especial agradecimento à sua colega eurodeputada Alda Sousa, que “num contexto de substituição marcado por uma situação trágica, agarrou com toda a força, empenho, generosidade e solidariedade esta missão”.  

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