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Poluição no Tejo: análises confirmam origem na indústria da pasta de papel

A Agência Portuguesa do Ambiente detetou níveis de celulose 5 mil vezes acima do normal e indicou a Celtejo como responsável por 90% das descargas naquela zona do rio Tejo, em Abrantes. Porém, Celtejo e Navigator negam quaisquer responsabilidades.
Poluição no Tejo: análises confirmam origem na indústria da pasta de papel
Funcionários da empresa Ambipombal com a ajuda de 6 camiões fazem a sucção da espuma que cobre a água do Rio Tejo junto ao açude de Abrantes, 26 de janeiro de 2018. Foto de Paulo Cunha/ LUSA.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) concluiu que as descargas das empresas de pasta de papel a montante do açude de Abrantes, onde há uma semana foi detetada uma grande “mancha de espuma da morte”, tiveram um “impacto negativo e significativo” na qualidade da água do rio Tejo. As análises realizadas, em colaboração com o Instituto Superior de Agronomia, detetaram que, no passado dia 24 de janeiro, os valores de celulose, composto orgânico associado à indústria do papel, eram “cerca de cinco mil vezes” superiores aos registados em amostragens anteriores naquela zona.

“O que estamos aqui a referir é que, com base nestas análises efetuadas, e na monitorização e acompanhamento efetuados, se confirma que o acumular da carga orgânica nestas localizações do rio, com origem nas indústrias de pasta de papel localizadas a montante, tem um impacto negativo e significativo na qualidade da água no rio Tejo”, afirmou Nuno Lacasta, presidente da APA, citado pela Lusa.

Na conferência de imprensa, desta quarta-feira, Nuno Lacasta explicou que a elevada concentração de carga orgânica resultou de uma conjugação de fatores e que, na próxima semana, será avaliada a medida de redução de descargas, determinada pelo Ministério do Ambiente, da fábrica da Celtejo. Ainda que não responsabilize uma empresa específica, colocando a tónica em todas aquelas que se localizam a montante de Abrantes e das albufeiras de Fratel e Belver, Nuno Lacasta sublinhou que a Celtejo é responsável por 90% das descargas naquela zona.



Até ao dia 5 de fevereiro, altura em que termina esta “medida de precaução” de 10 dias, a APA vai a avaliar os impactos desta restrição na qualidade da água do rio e também sobre o prolongamento da medida, incluindo o seu alargamento a outras empresas.

Além disto, está ainda em cima da mesa a possibilidade de revisão das licenças de descarga no rio Tejo para que estas sejam adequadas à capacidade de absorção do meio, referiu Nuno Lacasta: "O rio alterou-se e fruto disso temos que nos adaptar nesse sentido, do ponto de vista regulamentar”, pois “não podemos descarregar afluentes no meio que não tem capacidade para os receber”.

O emissário dos efluentes no Tejo é partilhado por três empresas da mesma região de Vila Velha de Ródão, a Celtejo, a Navigator e a Paper Prime.



Confirmam-se, assim, as denúncias dos ambientalistas da Protejo e do ativista Arlindo Consolado Marques, a quem a Celtejo moveu um processo judicial intimidatório, com pedido de indemnização de 250 mil euros. "Confirma-se igualmente a justeza da propostas do Bloco (rejeitadas pelo PS, PSD, CDS e PCP) para que a produção daquela fábrica de pasta de papel, em Vila Velha de Ródão, fosse adaptada à capacidade de tratamento dos efluentes descarregados para o Tejo”, lê-se no comunicado enviado à imprensa, da Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda de Santarém.

Celtejo insiste em refutar responsabilidade sobre poluição no Tejo

A Celtejo, fábrica de pasta de papel da Altri, em Vila Velha de Ródão, mantém que é alheia aos recentes fenómenos de poluição no rio Tejo e adiantou que a redução dos efluentes em 50% é inviável. "A Celtejo é completamente alheia ao que tem surgido [no rio Tejo]. Não temos qualquer anomalia ou qualquer descarga e a produção ao longo das últimas semanas tem sido estável", afirmou o diretor de Qualidade e Ambiente da empresa, Soares Gonçalves, citado pela Lusa.

O responsável pela comunicação da empresa, António Pedrosa, disse mesmo que a Celtejo tem sido alvo de discriminação e um pouco o "bode expiatório" daquilo que se tem passado no rio Tejo.

Já a Navigator (antiga Portucel) assegurou, em comunicado, que a sua fábrica de papel em Vila Velha de Ródão “cumpre escrupulosamente os parâmetros ambientais definidos pelas autoridades, tendo especificamente durante todo o ano de 2017 e em 2018 registado valores, confirmados por laboratórios independentes, manifestamente inferiores aos definidos na licença ambiental”. A empresa que tem uma ETAR própria assegura ainda que “não foi registada durante o mês de Janeiro qualquer situação anómala”.

Ministério Público investiga avarias na Celtejo

Segundo o Público, esta terça-feira, a Procuradoria Geral da República confirmou ter iniciado uma investigação, em que o Ministério Público (MP) é coadjuvado pela Polícia Judiciária (PJ) de Coimbra e com a colaboração da Inspeção-geral do Ambiente, da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT).

Ainda na semana passada, o MP ordenou a realização de ações inspectivas extraordinárias, como a recolha de água para análises ao longo do rio, com especial incidência junto ao açude de Abrantes e junto a Vila Velha de Ródão, onde estão instaladas as três empresas de celulose, entre outras empresas que fazem descargas para o rio.

O MP encontra-se a investigar, em particular, alegadas avarias em diversos equipamentos na Celtejo, que podem estar na origem do recente e grave episódio de poluição no rio Tejo. A empresa desmente informações sobre as avarias e descargas ilegais para o rio, nomeadamente as que constam da denúncia considerada credível pelas autoridades.

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