As legislativas polacas tiveram uma participação recorde de 74,3%, mais treze pontos percentuais do que há quatro anos. A mobilização do eleitorado, mais expressiva em Varsóvia com 84,9%, beneficiou os partidos da oposição, que optaram por estratégias diferentes nas eleições para o Parlamento e o Senado. Enquanto na primeira é usado o sistema proporcional para eleger deputados, as três coligações apresentaram-se em separado para maximizar a escolha dos eleitores. A Coligação Cívica dirigida por Donald Tusk obteve 35,4% dos votos, a Terceira Via, de centro-direita, obteve 14,4% e a coligação Esquerda obteve 8,6%. Assim a soma dos eleitos foi mais do que suficiente para tirar a maioria ao Partido da Lei e Justiça (PiS), apesar deste ter ficado em primeiro lugar com 35,4% e 194 dos 460 assentos parlamentares. A soma dos deputados das três coligações da oposição foi de 248 eleitos.
Na eleição para os 100 lugares no Senado, onde só é eleito o vencedor em cada círculo, a estratégia da oposição foi a de chegar a um acordo para não concorrer entre si, distribuindo os candidatos das três coligações pelos 100 círculos e concentrando neles o seu voto. Isso permitiu uma vitória arrasadora, com a oposição a conseguir eleger 66 senadores contra os 34 do PiS.
Depois de ter anunciado a vitória da oposição na noite eleitoral de domingo, esta terça-feira o líder da Coligação Cívica e antigo presidente do Conselho Europeu pediu ao Presidente polaco para não perder tempo na transição de poder.
"Faço um apelo veemente ao Presidente, as pessoas estão à espera das primeiras decisões, por isso pedimos ao Presidente que tome decisões vigorosas e rápidas", disse Donald Tusk, acrescentando que "os partidos democráticos vencedores estão em contacto permanente e estão prontos para assumir a responsabilidade pelo governo do país a qualquer momento."
Antes da eleição, o chefe de Estado polaco, Andrzej Duda, apoiado pelo PiS, tinha indicado que chamaria o líder do partido mais votado para formar governo. Mas é já evidente que o PiS não tem aliados suficientes para garantir uma maioria parlamentar e um dos seus dirigentes, Marek Suski, já admitiu a inevitável "mudança para uma oposição realmente democrática", após deixar o lamento que "o mal prevaleceu na Polónia, por agora".
Do gabinete de Duda, não há sinais de que a transição possa ser rápida. Citada pelo Guardian, a porta-voz Malgorzata Paprocka diz que "a situação é complicada e requer ponderação e análise por parte do Presidente", que por agora "não exclui nenhuma escolha". Essa ponderação poderá levar o processo de transição a arrastar-se durante muitas semanas ou mesmo alguns meses.
Enquanto isso, os partidos vencedores vão começar a preparar o seu programa de Governo, depois de uma campanha em que concentraram os ataques ao PiS, acusando a extrema-direita de querer tirar o país da União Europeia caso conseguisse um terceiro mandato. Por seu lado, o partido no poder centrou a campanha no combate à imigração e às interferências dos burocratas europeus nos assuntos internos da Polónia. Tudo indica que será Tusk a liderar o próximo governo, com um programa alinhado com a UE. Fora desse programa deverá ficar a despenalização do aborto até às 12 semanas, defendidas pela coligação de Tusk e da Esquerda, pois o líder da Terceira Via já avisou que só admite reverter a lei de 2021 que significou a proibição quase total do aborto no país, reintroduzindo a possibilidade de aborto legal por malformação do feto. Quanto ao resto, o seu partido defende que deve ser assunto de referendo.