Pode Marx explicar a crise de saúde mental?

04 de novembro 2023 - 21:35

O trabalho moderno criou uma epidemia de sofrimento mental. Contudo, tratamos isso como um problema individual. Nesta entrevista, Micha Frazer-Carroll explica por que resolver uma crise criada pelo capitalismo exige mudanças políticas transformadoras.

PARTILHAR
Imagem de Jacob Lawrence publicada no Outras Palavras.
Imagem de Jacob Lawrence publicada no Outras Palavras.

Um novo estudo publicado neste mês pelo Chartered Institute for Personnel and Development (CIPD) da Grã-Bretanha mostra que o absentismo laboral atingiu o seu nível mais elevado em dez anos e que o stresse é uma das principais causas de doenças de longa duração. Uma análise de dados em mais de 900 empresas – que empregam 6,5 milhões de trabalhadores – revelou que, no último ano, 76% dos entrevistados tiraram licença médica devido ao stresse, com razões que incluem pressões relacionadas com o trabalho e com o custo de vida.

Embora seja cada vez mais evidente que o trabalho moderno está a causar uma epidemia de problemas de saúde mental, na maioria dos casos esta continua a ser entendida e tratada como um problema médico individual. No seu novo livro Mad World: The Politics of Mental Health a jornalista e escritora Micha Frazer-Carroll questiona esta ortodoxia e sustenta que a crise da saúde mental é um fenómeno político moldado pelo capitalismo e pelas forças sociais que o sustentam. Micha conversou com o Tribune sobre o porquê dela acreditar que o declínio da saúde mental é um problema económico e político – e que, portanto, requer soluções económicas e políticas.


No teu livro, citas Marx em diversas ocasiões, especificamente a teoria da alienação. Por que achas a análise marxista relevante para a compreensão da saúde mental no século XXI?

Muitas vezes pensamos que a obra de Marx é muito económica e estrutural. Mas quando comecei a ler mais sobre a sua teoria da alienação percebi que Marx também é um pensador bastante psicológico. Especificamente, a alienação é uma teoria muito focada no impacto psíquico, mental e emocional do trabalho no capitalismo. A discussão sobre como o trabalho sob o capitalismo nos separa de outros trabalhos e dos nossos desejos internos – e as repercussões mentais de não possuirmos as coisas que produzimos e de não trabalharmos para o bem maior da humanidade, mas para gerar lucros. Para mim, isto é uma teoria psicológica.

A teoria da alienação de Marx é fundamental para a compreensão da saúde mental no capitalismo. Um ponto que afirmo no livro é que se pode chamar isto de diferentes coisas, seja saúde mental ou apenas angústia ou sofrimento. Quando Marx estava a escrever, o conceito de saúde mental, tal como o entendemos hoje, não existia. Mas quando ele fala sobre sofrimento e alienação está a referir-se a uma teoria de saúde mental que pode ser relacionada a teóricos posteriores. Refiro-me a Arlie Hochschild, que fala sobre o trabalho emocional e como temos que nos desdobrar (por exemplo, sorrir para os clientes quando não temos vontade de sorrir): isto tudo está relacionado com a alienação.

No livro, também tento estabelecer uma ligação entre o conceito de alienação e experiências de dissociação, que é mais um termo psiquiátrico. Falo muito sobre a dissociação porque foi algo que experimentei quando tive a minha própria crise de saúde mental. De certa forma, a dissociação descreve a associação do baixo desempenho no capitalismo: a forma como temos constantemente que efetuar a performance do estudante ou do trabalhador ideal, de alguém que tem as experiências emocionais ideais para funcionar no nosso sistema económico. Considero que isso é muito relevante para a forma como pensamos sobre saúde mental.

Ler o teu livro fez-me pensar noutro que li recentemente, chamado Worn Out, que analisa como a indústria da moda, da fast fashion, nos Estados Unidos vigia e explora os trabalhadores na era digital. Uma análise do teu livro é que o trabalho no retalho mudou para se assemelhar a uma linha de montagem. E depois, claro, falta pessoal para atender nas caixas, onde lidar com clientes irritados e frustrados exige um elevado grau de trabalho emocional.

Uma das pessoas que cito nesse capítulo fala sobre isso em relação à Amazon. Executar a mesma tarefa mundana, de alta velocidade e alta pressão repetidamente durante todo o dia é incrivelmente desgastante do ponto de vista emocional. Nem sempre o nomeamos mas o desempenho emocional é uma grande parte do trabalho.

Isto também se aplica ao profissionalismo no trabalho de escritório. Existem maneiras específicas de falar e de se relacionar com as pessoas ao seu redor e há tópicos apropriados ou inadequados para conversar no local de trabalho. Por exemplo, falar sobre a sua vida pessoal ou sobre o seu salário pode ser um tabu. São formas muito rígidas de se relacionar e expressar opiniões. É quase como se para ser trabalhador tivesses que te separar de ti próprio.

Na Grã-Bretanha pré-industrial, as estações e as horas do dia determinavam o trabalho. Não havia uma fábrica para picar o ponto e nem se era monitorizado. Sem pretender idealizar a vida pré-industrial, em alguns aspetos, esses trabalhadores tinham, sem dúvida, mais controle sobre as suas vidas do que temos hoje. Quando visito a minha família na zona rural da Caxemira, uma comunidade agrícola, é verdade que eles têm problemas, mas parece que as pessoas estão visivelmente mais felizes. Por outro lado, na Grã-Bretanha parece que tudo é mais complicado e as pessoas estão menos felizes.

Isso é algo encaro com certa complexidade porque no livro concentro-me muito no contexto da Grã-Bretanha. Não ousaria afirmar que a sociedade feudal era melhor do que a sociedade que temos agora. Por outro lado, o trabalho nas sociedades feudais parecia ter um grau de autonomia que não temos necessariamente no capitalismo. Por exemplo, como dizes, ser governado pelas estações, em oposição às condições rígidas e mais padronizadas das fábricas.

Se olharmos para a invalidez, antes do surgimento da fábrica e da Revolução Industrial, havia muitas pessoas que podiam participar no processo de produção e que, após o surgimento do capitalismo, já não podiam participar. O teórico da invalidez Mike Oliver fala sobre como as pessoas surdas e cegas podiam participar no trabalho de uma forma ou de outra (embora talvez o fizessem mais lentamente e as suas tarefas fossem mais orientadas para as suas famílias). Para os surdos, isto poderia ser a observação visual, adquirindo habilidades desta forma e não através da linguagem falada. No caso dos cegos, ele fala sobre como o ambiente familiar do lar permitiu que eles se orientassem com mais facilidade.

Quando a fábrica surgiu, as condições tornaram-se incrivelmente rígidas. Não poderias alterá-las ou adaptá-las a cada indivíduo. É este o funcionamento das grandes cadeias produtivas. E elas eram incrivelmente aceleradas. Não houve oportunidade de parar e perguntar como podemos fazer com que isso funcione para um trabalhador individual.

Como parte do sistema económico capitalista, Marx fala sobre este conceito de exército de reserva de mão de obra e como o capitalismo depende desse exército de pessoas desempregadas e dispostas a atuar e a ocupar o seu emprego a qualquer momento. A precariedade significa que os trabalhadores são incrivelmente descartáveis. Então, porque é que os patrões adaptariam o trabalho a cada indivíduo?

Durante este período, o da expansão da Revolução Industrial, de repente vemos que muitas pessoas que antes não eram consideradas inválidas tornam-se assim devido a este novo sistema de organização económica e social. Isto aplica-se tanto às deficiências que mencionei como ao que chamaríamos de “insanidade” ou doença mental. Pessoas que antes podiam produzir ou ser cuidadas, pelo menos em casa, foram subitamente consideradas improdutivas e inexploráveis. O que une estas pessoas não é apenas a experiência do sofrimento, mas o facto de as suas condições interferirem na sua capacidade de manter um emprego das nove às cinco e de se envolverem no que consideramos um trabalho normal.

A tua obra relaciona o encarceramento por invalidez e o surgimento dos manicómios à ascensão do capitalismo. Podes contextualizar? Quando começou este processo e até que ponto está relacionado com o capitalismo?

O encarceramento daqueles considerados inválidos está completamente interligado ao capitalismo. Assim, por exemplo, Bedlam, o primeiro manicómio do mundo, remonta ao final do século XIII. No entanto, quando olhamos para os registos do século XIII, havia pessoas que atuavam em algo equivalente a uma Comissão de Caridade que iam ver instituições como esta. E disseram que havia apenas sete loucos lá. Então, em todo o país, havia sete pessoas encarceradas por causa do que é chamado de “loucura”. Não são muitas pessoas. A maioria das pessoas consideradas “loucas” estavam integradas na comunidade. Algumas pessoas ainda eram mantidas em casas locais, na rua, se a comunidade as considerasse um perigo mas a institucionalização, tal como a entendemos agora, não existia numa escala significativa.

Só com a emergência do sistema económico capitalista é que assistimos ao que Michel Foucault chama de “o grande confinamento”: uma enorme explosão no número de pessoas admitidas em manicómios. O número de pacientes internados em Bedlam disparou e o local ficou tão superlotado que mais manicómios, tanto privados quanto públicos, tiveram de ser construídos. Isto coincidiu quase perfeitamente com o surgimento do capitalismo e da Revolução Industrial.

No século XIX, o governo aprovou duas leis sobre asilos que exigiam a construção de manicómios em todos os condados do país. E assim, neste período, muitas pessoas foram encaminhadas para os manicómios. Há também algo que devemos ter em mente em relação às famílias; antes disso, as famílias recebiam uma pequena quantia para cuidar dos chamados “parentes malucos” em casa. Mas assim que surge o sistema fabril, as pessoas são empurradas para dentro das fábricas para trabalhar – e já não podem estar em casa para cuidar das suas famílias. Mas também existiam as leis contra a pobreza que privavam as famílias destes benefícios, e aí já não havia fundos para ficar em casa e cuidar das pessoas. Então, para onde os “malucos” tiveram que ir? Indiscutivelmente, não havia outro lugar para mandá-los senão os manicómios. É importante notar que muitas famílias sentiram que não tinham outra solução.

É por isso que penso que o capitalismo está interligado com o encarceramento das pessoas com deficiência e não apenas com a loucura ou as enfermidades mentais. As pessoas com deficiência física e os doentes mentais eram encaminhados para grandes manicómios, onde passariam a vida inteira. O que unia as pessoas encarceradas nestas instituições eram que não puderam ser assimiladas pelo novo sistema de produção. Esse ambiente não era adequado para eles.

[O Chanceler do Tesouro do Reino Unido] Jeremy Hunt deu, recentemente, a entender que visaria pessoas desempregadas devido a problemas de saúde mental de longa duração. Parece fazer parte de uma tendência mais ampla na conversa em torno do bem-estar que insiste que as ações dos indivíduos causam problemas de saúde mental. Os nossos principais partidos políticos usam, cada vez, mais o termo “pessoas que trabalham” em vez de “classe trabalhadora”. A nossa retórica política contribui para a estigmatização das pessoas consideradas inválidas, não é?

Cem por cento. Pode-se ver como essa narrativa penetra no Partido Trabalhista. Keir Starmer [líder do Partido Trabalhista] está sempre a falar sobre “pessoas muito trabalhadoras”, “famílias muito trabalhadoras” e que “o Partido Trabalhista é o partido das pessoas trabalhadoras”, o que exclui pessoas com deficiência que não podem trabalhar.

O livro de Beatrice Alder Burton e Artie Vierkant, Health Communism, fala muito bem deste conceito de classe excedente de pessoas não trabalhadoras. Isto poderia incluir pessoas deficientes, loucas, doentes mentais ou criminalizadas, que não são exploráveis sob o capitalismo. O capitalismo prejudica-os da mesma forma que prejudica os trabalhadores, mas a política de esquerda ignora frequentemente ou exclui grupos de pessoas que não podem trabalhar. Por trás deste pensamento está a ideia de que o nosso valor como seres humanos é medido pela nossa produtividade e capacidade de trabalho e não pela nossa condição como pessoas.

As estatísticas mostram que, no primeiro trimestre de 2023, 53% das pessoas que deixaram de trabalhar no Reino Unido devido a uma doença de longa duração relataram sofrer de depressão, nervosismo ou ansiedade. Jeremy Hunt está essencialmente a dizer que os médicos estão a dar baixa médica às pessoas muito rapidamente. A responsabilidade pela resolução destes problemas recai cada vez mais sobre o indivíduo.

Sob o neoliberalismo temos testemunhado esta mudança marcante em direção a este conceito de responsabilidade individual. Antes, a saúde mental era uma questão que o Estado tinha que resolver. E, obviamente, o Estado abordou isto de uma forma bastante violenta. Sob o neoliberalismo, trataram a saúde mental como um assunto pessoal e privado.

O teórico cultural Mark Fisher descreveu o conceito de que é nossa responsabilidade abordar a saúde mental como indivíduos como a “privatização do stresse”, que surgiu na década de 1980. É a ideia de que precisas fazer terapia, descarregar a aplicação de mindfulness, ir ao ioga, manter um diário e realizar uma lista cada vez maior de práticas para manter a saúde mental. Isto é em grande medida considerado uma responsabilidade individual.

Vemos esta mesma mentalidade quando falamos de saúde mental e direitos sociais. A ideia de que podes sair imediatamente desta situação e “recompores-te” é uma abordagem muito britânica para gerir os nossos estados emocionais mas também é usada para acusar as pessoas de se fingirem doentes para obterem prestações sociais. É uma forma de pensar que ignora que os problemas de saúde mental são, acima de tudo, questões estruturais, e justifica uma abordagem que diz que os problemas são da tua responsabilidade e que tu podes resolvê-los sozinho.

Parece-me que nas comunidades da classe trabalhadora esta narrativa de trabalho árduo, de nunca dar desculpas e de responsabilidade individual é bastante forte. Vemos indivíduos como Andrew Tate e Jordan Peterson expressarem alguns desses ideais, o que ressoa em homens jovens, muitos dos quais têm expressado a sua desilusão e infelicidade. Achas que esta é uma tendência crescente?

Acho que sim. Houve um enorme boom nos livros de auto-ajuda durante o início da era neoliberal nas décadas de 1980 e 1990. Entendo por que essas abordagens mudaram de forma e estão a ganhar popularidade. Muitos de nós estamos com dificuldades e a sofrer, e provavelmente não iremos necessariamente nomear ou descrever isso. A ideia de que podes assumir responsabilidades, mudar a tua vida e abordar a raiz do teu sofrimento é atraente.

Pode-se ver como pessoas como Jordan Peterson transformam esse apelo numa arma. É complicado, porque coisas como a atenção plena e a terapia podem ser úteis, mas nunca abordarão as causas profundas do sofrimento e da angústia em massa. Elas podem ser pensos ou ajudar alguns de nós a sentir que temos controle sobre as nossas vidas. O que não podem é abordar as causas profundas da masculinidade tóxica, do racismo, da pobreza e de tanto sofrimento.

O que dizes sobre individualismo é muito interessante. A desindustrialização levou à perda do sentido de comunidade em muitas partes do país e vemos a contínua atomização da sociedade e a perda da interação humana com coisas como as janelas fechadas e a expansão de caixas self-service. Para mim, todas estas coisas estão relacionadas à questão da saúde mental.

Levamos uma vida cada vez mais atomizada. A capacidade de estabelecer ligações autênticas e emocionalmente satisfatórias com outros seres humanos está a ser cada vez mais retirada da nossa vida quotidiana e podemos ver isso. O encerramento de bilheteiras é um exemplo de como as oportunidades de conexão são consideradas desnecessárias e eliminadas. A abordagem capitalista não considera valiosa a ligação comunitária e humana.

No teu livro, fazes uma observação interessante sobre como as práticas de bem-estar no local de trabalho não nasceram do desejo de melhorar a vida dos trabalhadores mas sim de aumentar a produtividade. Na era daquilo que poderíamos chamar de “capitalismo colorido”, onde as relações públicas, os recursos humanos e a gestão da reputação são muito importantes, como é que as práticas de bem-estar no local de trabalho se comparam às do século XX?

No livro falo sobre RH e como surgiram. Quando começaram, os recursos humanos concentraram-se em coisas como a disposição ideal das bancadas, intervalos de descanso e iluminação para ajudar os trabalhadores a produzir melhor. Mas, então, em meados do século XX, à medida que a psicologia emergia e ganhava credibilidade como disciplina, o foco mudou para as condições cognitivas e emocionais ideais para o trabalho.

Esta mudança de foco acompanhou a mudança da economia em direção ao setor dos serviços e afastando-se da indústria transformadora e de formas de trabalho que envolviam trabalho manual. De repente, surgem coisas como testes psicométricos, nos quais os empregadores tentam combinar a personalidade das pessoas com o tipo de trabalho em que serão mais produtivas. Ao mesmo tempo, são adotadas tendências surgidas nas décadas de 1970 e 1980, como a atenção plena e a terapia cognitivo-comportamental.

Agora, cada vez mais, na era neoliberal, há um interesse real em coisas como iniciativas de saúde mental no local de trabalho, formação em primeiros-socorros em saúde mental, pré-terapia, salas de sesta e listas crescentes de práticas que supostamente apoiam o bem-estar mental dos trabalhadores. Praticá-los individualmente pode fazer com que muitos de nós nos sintamos melhor e pode ser um caminho para a cura. No entanto, se olharmos para a história dos recursos humanos e por que razão surgiram, em primeiro lugar, a sua função fundamental não é fazer-nos sentir bem pelo simples facto de nos sentirmos bem mas tornar-nos mais exploráveis como trabalhadores. E isto significa que essas iniciativas não servem para nos fazer experienciar alegria, florescimento ou as nossas ideias de realização mas para nos tornar felizes e emocionalmente ajustados o suficiente para sermos explorados.

A exploração que vivenciamos no trabalho é, muitas vezes, o que prejudica a nossa saúde mental em primeiro lugar. Acabamos num ciclo em que o local da angústia se torna o local em que confiamos para abordá-la.

Costuma-se dizer que a saúde mental é o grande equalizador. Todos nós podemos ter problemas de saúde mental, independentemente da nossa origem. Mas sabemos que algumas comunidades têm menos investimento e maiores problemas sociais do que outras. Até que ponto a saúde mental é uma questão de classe?

A pobreza e a desigualdade estão diretamente relacionadas com a questão da saúde mental. Quando pensamos nisso no contexto do sofrimento, é senso comum. Se não tiveres acesso às necessidades materiais mais básicas ou se viveres em constante precariedade, isso causará ansiedade e depressão. Se estás preocupado com quando será o teu próximo turno de trabalho ou se conseguirás pagar as contas, isso causará angústia.

É claro que também vemos pessoas com poder, privilégios e riqueza com dificuldades de saúde mental. Acredito que o capitalismo corrói fundamentalmente o nosso bem-estar. Ninguém está imune a este sistema. Mas a diferença é que algumas pessoas têm acesso a cuidados de saúde privados e a terapia privada no primeiro momento de sofrimento.

No caso das comunidades da classe trabalhadora mais pobre, elas estão sujeitas a longas listas de espera para serviços de saúde pública e, no momento em que obtêm ajuda, podem encontrar-se numa situação de grave sofrimento ou crise. Quando chegam a este ponto, é mais provável que sejam submetidos aos efeitos punitivos e carcerários do sistema de saúde mental.

Provavelmente já vistes aqueles memes que gozam com coisas como festas de pizza no local de trabalho, onde aparecem trabalhadores a dizer que prefeririam um aumento. No livro citas algumas frases interessantes sobre o assunto. Uma é que “a atenção plena não substitui um local de trabalho sindicalizado”, e também citas Tim Adams que disse que era tentador pensar que as linhas de frente das disputas laborais tinham passado dos piquetes para as linhas da preocupação e que as queixas coletivas tornaram-se batalhas psicológicas individuais. Por que achas que os sindicatos e a ação sindical são importantes a este respeito?

Porque penso que são as estruturas que podem realmente dar aos trabalhadores acesso ao poder. Já ouvi muitas histórias de pessoas que receberam terapia de grupo para lidar com uma série de demissões no trabalho e coisas do género. Estas iniciativas não nos dão acesso ao poder. Servem apenas para nos fazerem sentir melhor em relação às condições estruturais em que vivemos, ao mesmo tempo que as enquadramos como inevitáveis.

Os sindicatos dão-nos a capacidade de chegar à raiz do nosso sofrimento que, no contexto do local de trabalho, é estrutural. Penso que os sindicatos têm políticas internas inerentes do lado do trabalhador, ao passo que, com atenção plena e terapia, embora bons em si, são práticas que não têm políticas internas. Estas podem ser usadas para o bem ou transformadas em armas para o mal. Foi Steve Jobs quem trouxe a atenção plena para os Estados Unidos e começou a defendê-la. Ele gostou muito do mindfulness para si mesmo como patrão mas também para os seus trabalhadores porque os ajudou a adaptar-se às condições de trabalho desfavoráveis. Esta falta de política interna significa que nunca se pode realmente controlar a forma como estas coisas são utilizadas.

Há uma razão pela qual os patrões odeiam os sindicatos e é porque eles alteram o equilíbrio do poder em favor do trabalhador.


Micha Frazer-Caroll é jornalista e autora de Mad World: The Politics of Mental Health.

Taj Ali é um escritor freelancer. Publica no Huffington Post, Metro e no Independent.

Entrevista publicada no JacobinLat, traduzida Rôney Rodrigues para o Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.