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“Plano de paz” de Trump foi sentido como uma declaração de guerra à Palestina

O plano para a Palestina apresentado pelo presidente norte-americano é uma versão dos acordos de Oslo, redesenhados de acordo com os interesses israelitas e reconhecendo as ocupações de colonatos mais recentes. Um plano apresentado ao lado de Netanyahu, feito sem os palestinianos e contra eles.
Trump apresenta o seu plano para a Palestina ao lado de Netanyahu. Janeiro de 2020.
Trump apresenta o seu plano para a Palestina ao lado de Netanyahu. Janeiro de 2020. Foto LUSA/EPA/MICHAEL REYNOLDS

O primeiro-ministro israelita mostrava-se confiante. No mesmo dia em que se tornava oficial a sua acusação por corrupção nos tribunais, ladeava Trump na apresentação de um “plano de paz” feito à sua medida. Assim, a sua postura não era certamente uma manifestação de esperança de que este plano unilateral pudesse significar um roteiro para a paz na região. Mas toda a encenação certamente ajuda Netanyahu na campanha eleitoral que volta a ter pela frente.

O plano de 181 páginas de Trump, auto-elogiado como detalhado e inovador, é um afinal um corte, em benefício de Israel, do que ficara estabelecido nos planos de paz de Oslo em 1993. O vale do rio Jordão, fundamental para a atividade agrícola da Palestina, ficaria sob ocupação israelita e a Cisjordânia perderia 30% da sua área, criando-se uma “faixa de segurança” israelita na zona oeste do território ao longo de toda a fronteira com a Jordânia, em “compensação” por estas perdas atribuir-se-ia soberania palestiniana a uma zona desértica junto a Gaza e perto da fronteira com o Egito.

Os colonatos que entretanto foram estabelecidos em território palestiniano seriam reconhecidos como pertencendo a Israel. Desta forma, 97% dos israelitas residentes na Cisjordânia passariam a estar integrados no Estado de Israel e até aqueles que vivem em enclaves que passariam para o lado palestiniano teriam quer o direito a ficar nas terras ocupadas quer “proteção israelita”. Inversamente, recusa-se o direito ao regresso dos refugiados palestinianos às suas casas de que foram expulsos.

Propõe-se que Gaza continue cortada da Cisjordânia, não havendo continuidade territorial no futuro Estado Palestiniano, apenas uma estrada/túnel liga as duas regiões, uma ideia também ela requentada. Para além disso, as águas territoriais do “novo Estado” continuariam sob soberania israelita.

E até a solução de “dois Estados” está armadilhada: Trump diz que a criação do Estado da Palestina é “condicional”, ficando dependente de medidas como o “combate ao terrorismo”, o desarmamento do Hamas e o fim da “instigação” contra Israel, e obrigatoriamente este Estado tem de permanecer “desmilitarizado”.

O dossier Jerusalém também fica longe de ser resolvido. A proeza de, ao mesmo tempo, Jerusalém permanecer como capital indivisível de Israel e de Jerusalém Leste poder passar a ser a capital do novo Estado da Palestina é afinal uma manobra retórica. O que é apresentado no documento como “Jerusalém Leste” é, na verdade, Abu Dis, um bairro na periferia da cidade. Sugere-se assim que os palestinianos fizessem uma mudança de nome desta zona para Al Quds, o nome árabe de Jerusalém, o que “resolveria” a disputa.

O plano, da responsabilidade do genro de Trump, Jared Kushner, vem ainda acompanhado pela promessa de um apoio norte-americano ao novo Estado de 50 mil milhões de dólares em dez anos, criando um milhão de empregos. O que levou Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana, a responder que “Jerusalém não está à venda e os nossos direitos não estão à venda”, que não há nenhum acordo mas uma “conspiração” que “não passará”. Também o Hamas se posicionou contra o plano: Sami Abu Zuhr diz que o documento nada vale, que “a Palestina vencerá e que Trump e este acordo irão parar ao caixote do lixo da história”. As duas partes desavindas da política palestiniana, Hamas e Fatah, até concordaram encontrar-se para lidar com a proposta norte-americana.

E a altura em que este projeto foi lançado não passou igualmente despercebida aos palestinianos, o primeiro-Ministro da Autoridade Palestiniana, Mohammad Shtayyeh, diz que se trata de “Um plano para proteger Trump da destituição e para proteger Netanyahu dos infortúnios legais.”

Na Cisjordânia, a população reagiu ao plano e aos anúncios de Trump com manifestações.

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