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“Plano da direita para os impostos alivia sempre os mais ricos e as maiores empresas”

No debate entre Catarina Martins e Francisco Rodrigues dos Santos foram marcantes as diferenças, com a coordenadora bloquista a criticar a defesa da privatização dos transportes pelo CDS e a acusar a direita de "retirar soberania e capacidade de investimento" ao país.
Debate entre Catarina Martins e Francisco Rodrigues dos Santos
Debate entre Catarina Martins e Francisco Rodrigues dos Santos

Catarina Martins salientou que “Portugal é um dos países que mais privatizou os seus setores estratégicos” e que, na generalidade dos países da Europa, as empresas públicas têm um peso maior no PIB, havendo um controlo maior dos setores estratégicos.

A coordenadora bloquista deu o exemplo da energia, considerando “absolutamente inaceitável” que seja o Estado chinês a mandar na EDP, e não o Estado português.  Catarina lembrou que a China comprou 21,5% da empresa, e em poucos anos, já recuperou metade do investimento que fez para comprar estes 21,5%. “Isto quer dizer que está ao alcance de Portugal recuperar em pouco tempo o controlo da EDP”, apontou.

Sobre o custo para o erário público da proposta do Bloco de desprivatização dos setores estratégicos para o país, Catarina referiu que, para o Estado voltar a ter o controlo público da EDP, seria necessário gastar metade do que foi gasto com o BES/Novo Banco, cerca de 4.000 milhões de euros.

E, num processo faseado a longo prazo em relação às outras empresas estratégicas, retomar o controlo chegaria, eventualmente, aos 20 mil milhões de euros. Seria “um processo ao longo de vários anos e permitiria ao Estado reaver boa parte do investimento, porque estamos a falar de empresas lucrativas”, realçou Catarina Martins. A dirigente bloquista referiu ainda que quem ganhou com estas privatizações “foi quem abriu garrafas de champanhe com o comité central do Partido Comunista Chinês, que comprou as empresas a Portugal”: Eduardo Catroga, ex-ministro do PSD, Luís Amado, ex-ministro do PS, e o presidente do CDS na altura, Paulo Portas.

Há uma certa direita que acredita um pouco no pai natal”

Ainda sobre privatizações, a coordenadora bloquista considerou “estranho” que o CDS proponha a privatização dos transportes. “Ouvi-os para a Câmara de Lisboa dizerem que queriam gratuitidade dos transportes coletivos para mais camadas da população”, lembrou, apontando que “esse anúncio só foi possível ser feito porque nós parámos as privatizações da Carris e do Metropolitano de Lisboa e temos agora empresas públicas”, o que permitiu baixar os preços dos passes. Isso seria impossível se as empresas tivessem sido privatizadas.

“Há uma certa direita que acredita um pouco no pai natal – o CDS também”, assinalou a coordenadora do Bloco: “Acredita que vem capital de fora do país em empresas estratégicas para depois cumprir o interesse público português”.

“Isso não aconteceu, em todas as áreas das privatizações Portugal ficou mais frágil, dependente de interesses estrangeiros. Acontece isso quando se privatiza aeroportos e depois a ANA em vez de fazer o aeroporto a que estava obrigada quer uma solução low-cost no Montijo que não resolve o problema de ninguém”, frisou Catarina Martins, acrescentando ainda que “o que a direita faz ao nosso país é retirar soberania e capacidade de investimento”.

Quem é rico pode entrar, quem vem trabalhar deve ser perseguido”

“Hoje o Conselho Económico e Social veio pedir que os vistos gold acabem”, afirmou a coordenadora bloquista, lembrando que o Bloco tem denunciado que este regime “promove a corrupção” e se traduz no aumento do preços das casas.

Catarina Martins deu um exemplo do que, por outro lado, é bom investimento estrangeiro: “a Autoeuropa produz, cria emprego, é um bom investimento estrangeiro”, enquanto “os vistos gold fazem corrupção e são um regime de privilégio”.

“Quando o CDS defende os vistos gold, persegue os imigrantes, e condena a ideia de que os imigrantes que tenham filhos em Portugal tenham a nacionalidade", defende que "quem é rico pode entrar, e quem vem trabalhar deve ser perseguido”, criticou Catarina Martins.

O pior que podíamos fazer era colocar três mil milhões de euros na TAP para depois entregá-la a um país estrangeiro”

Sobre a TAP, a coordenadora do Bloco afirmou que “a direita tem vindo a rasgar as vestes por causa da TAP, mas, nos Açores, onde tem responsabilidades de governação, aprovou injeções na SATA”. “Acharam que era melhor pôr dinheiro na SATA e não fazer falência. Fizeram bem”, salientou Catarina Martins.

“O que foi feito segura a TAP”, disse Catarina Martins, defendendo que “o pior que podíamos fazer era colocar três mil milhões de euros na TAP para depois entregá-la a um país estrangeiro, a um interesse económico estrangeiro e perdermos toda a capacidade que a TAP pode ter tanto na ligação às nossas comunidades, como na dinamização da economia”.

O plano da direita alivia sempre os mais ricos e as empresas maiores”

Sobre as propostas do CDS relativamente aos impostos, a coordenadora do Bloco aconselhou calma no que concerne a dar como exemplo a Irlanda, pois “é um dos países que tem mais pobreza” da OCDE e “em que o PIB está inflacionado pelas empresas que têm lá sede e não trabalham lá”. A propósito, lembrou o caso da Madeira, que “há uns anos tinha uma empresa que faturava tanto como a Autoeuropa, mas era apenas um escritório na praça financeira e não produzia nada”.

Sobre os impostos, Catarina Martins afirmou que a direita e o CDS têm querido convencer quem tem menos que vai melhorar a sua vida, cortando os impostos seja às pessoas, seja às empresas. “Esse plano alivia sempre os mais ricos e as empresas maiores”, frisou.

“O que defendemos é que é preciso aliviar a carga fiscal sobre quem trabalha, aliviar peso fiscal nomeadamente nos bens essenciais, e isso pode ser feito obrigando setores que não têm pago impostos a passar a pagar, nomeadamente atividades especulativas”, afirmou Catarina Martins.

E, lembrou ainda que “a EDP não pagou 110 milhões de euros de imposto de selo sobre a venda de barragens pela EDP”, que “os cidadãos não residentes têm uma borla fiscal ao ano de mais de 800 milhões de euros” e que “temos mil milhões de euros da praça financeira da Madeira que a UE já mandou cobrar e não se cobrou um cêntimo”.

Salvar o SNS

Por fim, e a propósito do SNS, a coordenadora bloquista apontou que “um médico de família com oito anos de serviço, já com especialidade completa, ganha 1780 euros líquidos”. Criticando o representante do CDS, disse: “ao mandar as pessoas para consultas privadas, em dois ou três dias já gastou mais dinheiro do que com os médicos de família”.

“O que é preciso é carreiras dignas no SNS, fixar os profissionais, garantir que temos os 600 médicos de família que faltam em Portugal e que as pessoas têm direito aos cuidados de saúde que precisam, porque a saúde não é um negócio”, afirmou. E concluiu: “É no SNS, e bem, que os portugueses confiam, e é pelo SNS que o Bloco de Esquerda luta”.

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