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“Plano B é olhar para o futuro, construir soluções, rejeitar falsas dicotomias”

Na abertura do encontro “Um Plano B para a Europa”, Catarina Martins acusou o “modelo europeu neoliberal” de retirar capacidade de decisão aos povos e apontou que “só com solidariedade e capacidade de intervenção pública poderemos estar à altura de ultrapassar os problemas maiores que se colocam neste século”.
"A direita que hoje censura o Governo pela má condução no combate aos incêndios é a mesma que piorou as condições dos bombeiros, que acabou com a autoridade para as florestas", realçou Catarina Martins - Foto de Paulete Matos
"A direita que hoje censura o Governo pela má condução no combate aos incêndios é a mesma que piorou as condições dos bombeiros, que acabou com a autoridade para as florestas", realçou Catarina Martins - Foto de Paulete Matos

Decorre neste fim de semana em Lisboa, o encontro da esquerda europeia “Um Plano B para a Europa”. Na abertura do encontro intervieram Catarina Martins, Declan Kearney (presidente do Sinn Féin da Irlanda), Miguel Urbán (eurodeputado do Podemos de Espanha), Stefano Fassina (deputado italiano e membro da Sinistra Italiana), Zoe Konstantopoulou (dirigente da Via para a Liberdade da Grécia) e, através de mensagem em vídeo, Jean-Luc Mélenchon (Líder da França Insubmissa).

“Somos de esquerda, somos internacionalistas, acreditamos nos direitos humanos e sabemos que neste mundo não há fronteiras. Basta ver as alterações climáticas e a forma como a crise do futuro nos bate à porta do presente para ver que só com solidariedade e capacidade de intervenção pública poderemos estar à altura de ultrapassar os problemas maiores que se colocam neste século”, afirmou a coordenadora do Bloco de Esquerda na sua intervenção.

Catarina Martins lembrou que a sessão anterior do Plano B, realizada em Portugal na abertura da última Convenção do Bloco de Esquerda, decorreu no dia da votação do Brexit e apontou que “a esquerda não pode ficar fechada, entre a extrema direita que ataca os mais frágeis e a Europa neoliberal”.

Incêndios: Prioridade à reconstrução da capacidade produtiva

Sobre a tragédia dos incêndios, Catarina Martins defendeu a “emergência assistencial” e a reconstrução da capacidade produtiva e de todos os empregos – Foto Paulete Matos
Sobre a tragédia dos incêndios, Catarina Martins defendeu a “emergência assistencial” e a reconstrução da capacidade produtiva e de todos os empregos – Foto Paulete Matos

Salientando que em Portugal vivemos atualmente num momento diferente, a coordenadora bloquista falou da tragédia dos incêndios florestais, que já mataram mais de cem pessoas este ano, e acusou: "O estado mínimo falhou e é preciso acabar com este modelo".

"A prioridade, para lá da emergência assistencial que necessariamente estas populações precisam, tem que ser reconstruir a capacidade produtiva e todos os empregos que veem o seu futuro em perigo por causa dos incêndios", defendeu Catarina Martins, sublinhando que "há tanta gente que não pode esperar pelos caminhos infindáveis da burocracia" e que é "preciso chegar-lhes rapidamente".

Apontando que no combate aos fogos "houve erros e esses erros têm que ser avaliados", a coordenadora do Bloco criticou a política da floresta e da Proteção Civil que tem seguido "todos os preceitos neoliberais".

"Até com a autoridade nacional que nós tínhamos para as florestas se acabou nos tempos da ‘troika’. O Bloco até aprovou recomendações empenhadas sobre ser preciso sapadores florestais e vigilância e nunca nada foi posto em prática porque ‘ai o défice, ai a austeridade’", criticou Catarina Martins.

"A direita que hoje censura o Governo pela má condução no combate aos incêndios é a mesma que piorou as condições dos bombeiros, que acabou com a autoridade para as florestas", realçou Catarina Martins.

"O estado é tão mínimo na Proteção Civil em Portugal que também depende para tudo dos contratos com os privados. Seja dos meios aéreos para apagar fogos, seja das comunicações. É tudo PPP, é tudo privado", acusou.

“A esquerda não pode ficar fechada, entre a extrema direita que ataca os mais frágeis e a Europa neoliberal”, apontou Catarina Martins
“A esquerda não pode ficar fechada, entre a extrema direita que ataca os mais frágeis e a Europa neoliberal”, apontou Catarina Martins - Foto de Paulete Matos

A coordenadora do Bloco apelou ainda à solidariedade internacional, para que seja possível "fazer a reconstrução de um país que neste momento está a viver um dos seus momentos mais difíceis".

Catarina Martins criticou ainda os critérios da União Europeia para os fundos de solidariedade, em que Portugal nunca pode concorrer a alguns fundos devido aos elevados montantes mínimos de danos exigidos, para serem disponibilizados. “Não é normal que, até quando chega à solidariedade, os fundos europeus sejam desenhados para o norte da Europa e o sul tenha que ficar em lista de espera", criticou e defendeu: "O que temos de exigir é que seja possível que o apoio internacional não fique refém de critérios que empobrecem sempre os mesmos".

Na sua intervenção, a coordenadora do Bloco solidarizou-se ainda com a Catalunha, como pode ser lido na notícia do esquerda.net “Bloco reafirma solidariedade e defende direito à autodeterminação do povo catalão”.

Brexit "mudou tudo" para a Irlanda

Declan Kearney, presidente do Sinn Féin da Irlanda, na cimeira do Plano B em Lisboa – Foto de Paulete Matos
Declan Kearney, presidente do Sinn Féin da Irlanda, na cimeira do Plano B em Lisboa – Foto de Paulete Matos

Na sua intervenção, Declan Kearney manifestou solidariedade com o povo português, que “continua a sofrer como resultado da austeridade”, e acusou a troika de ser a “ponta de lança da política de austeridade”, que não tem a ver com a economia, mas é “autoritarismo político”.

O presidente do Sinn Féin afirmou que a divisão da Irlanda falhou e acusou o governo conservador do Reino Unido de ter imposto a redução do Estado Social na Irlanda do Norte. Kearney alertou que o Brexit “mudou tudo” para a Irlanda, com uma parte a ficar na União Europeia e outra a sair.

Declan Kearney analisou a evolução na Irlanda do Norte, sublinhando que o acordo de Paz “colapsou” e que o governo conservador apoia e impulsiona os unionistas na imposição da austeridade. “O Brexit bloqueou todas as questões de igualdade”, denunciou.

O líder do Sinn Féin defendeu a necessidade de um “Governo sustentável e credível na Irlanda do Norte e que todos os cidadãos tenham os seus direitos respeitados”.

Políticas de austeridade são sabotagem do projeto político europeu”

Miguel Urbán afirmou que a esquerda europeia tem de transportar duas pancartas - “Troika go home” e “Immigrants welcome” - Foto de Paulete Matos
Miguel Urbán afirmou que a esquerda europeia tem de transportar duas pancartas - “Troika go home” e “Immigrants welcome” - Foto de Paulete Matos

Miguel Urbán, solidarizando-se com o povo português, apontou que “o terrorismo incendiário” é o resultado das alterações climáticas. Defendeu também que a esquerda tem de “combater o terrorismo machista na Europa” e que o Plano B tem de ser feminista.

Analisando as eleições realizadas em diversos países europeus este ano, o eurodeputado denunciou o crescimento da direita e salientou que foram os “piores resultados para a social-democracia”, que apontava que as eleições em França ou na Alemanha mudariam a Europa.

Miguel Urbán afirmou então que esse é o resultado da austeridade e que “as políticas de austeridade são a sabotagem do projeto europeu”, não da União Europeia, considerando que a UE “não é reformável”. O eurodeputado alertou também que as políticas de austeridade impulsionam um “sentimento de escassez” que é importante para o aumento da xenofobia.

Sobre a Catalunha, o dirigente do Podemos defendeu o “direito à autodeterminação” e apontou que o rei de Espanha, que fala tanto de democracia, “não teve um voto para ser eleito”.

A concluir, Miguel Urbán afirmou que a esquerda europeia tem de transportar duas pancartas - “Troika go home” e “Immigrants welcome” - e defendeu a necessidade de o Plano B coordenar lutas concretas de desobediência e promover campanhas específicas, exemplificando com uma campanha contra a evasão fiscal.

Pôr fim a novas integrações europeias

Stefano Fassina defendeu a necessidade de “pôr fim a novas integrações” europeias – Foto de Paulete Matos
Stefano Fassina defendeu a necessidade de “pôr fim a novas integrações” europeias – Foto de Paulete Matos

Stefano Fassina, deputado europeu e ex-viceministro da Economia e das Finanças de Itália, alertou que o establishment europeu tirou como conclusão das recentes eleições na Alemanha e na França “estamos no caminho certo”. “A narrativa maioritária [da elite] é estamos no caminho certo, para que as coisas possam funcionar”, denunciou Fassina, exemplificando com uma recente entrevista de Wolfgang Schäuble ao Financial Times, onde se congratulava com a política seguida. “Estou muito feliz por uma Europa mais estável, com política adequada e de êxito”, afirmava Schäuble. Nessa base, o establishment europeu projeta acelerar com os países disponíveis mais integrações, alerta o deputado italiano.

“Poder adicional para controlar os planos orçamentais nacionais, restrições bancárias às dívidas incobráveis, mais dificuldades de crédito às pequenas empresas” são as medidas que o poder da UE quer impor aos países europeus.

“Temos de nos concentrar e resistir” a este ataque que está a acontecer, disse Fassina, defendendo a necessidade de “pôr fim a novas integrações” e que a esquerda deve ser contra “integrações adicionais”.

Stefano Fassina propôs que o Plano B se concentre em três campanhas:

- Recusa de ratificação do CETA; - combate à política fiscal; - contra a desvalorização do trabalho.

Dever de resistir”

Zoe Konstantopoulou, antiga presidente do parlamento grego e atual dirigente da Via para a Liberdade da Grécia,  anunciou a proposta que a próxima cimeira do Plano B se realize na Grécia, em Atenas na primavera de 2018 – Foto de Paulete Matos
Zoe Konstantopoulou anunciou proposta de a próxima cimeira do Plano B ser em Atenas – Foto de Paulete Matos

Na sua intervenção, Zoe Konstantopoulou, antiga presidente do parlamento grego e atual dirigente da Via para a Liberdade da Grécia, denunciou as muito difíceis condições que vive o povo grego e o “golpe de Estado da UE e do governo grego”.

Zoe Konstantopoulou afirmou que, “para nós, não há plano A, só há dever de resistir, defender a soberania democrática e a nossa dignidade”.

A expresidente do parlamento grego anunciou também a proposta que a próxima cimeira do Plano B se realize na Grécia, em Atenas na primavera de 2018.

Por uma Europa de Paz”

Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, não pôde estar presente na cimeira do Plano B em Lisboa, mas enviou uma mensagem em vídeo, na qual defende a harmonização social e fiscal.

Mélenchon defendeu ainda uma Europa de Paz e a necessidade de propostas para resolver pacificamente conflitos de fronteiras, “incluindo a Crimeia”.

Esquerda.net fez transmissão direta no facebook da abertura do encontro do Plano B:

 

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