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Pensamento e estratégia emancipatória

No texto de apresentação da sua intervenção na Conferência 200 anos de Karl Marx, a 24 e 25 de março em Lisboa, Pedro Filipe Soares lança a questão: Que revolução para um marxista nos dias de hoje?
Pedro Filipe Soares
Pedro Filipe Soares. Foto Paulete Matos

A luta entre contrários marca o legado de Marx. A inteligência desse processo é terrífica para os seus inimigos: mesmo ao propagandearem o fracasso do seu (suposto) determinismo, não conseguem fugir ao brilhantismo da sua capacidade analítica. A luta de contrários em Marx carrega o sentido da emancipação dos trabalhadores e a sua relação com o desenvolvimento histórico da sociedade. Emancipação de uma exploração concreta, construída com amarras sociais tentaculares. É certo que é uma estratégia emancipadora entre várias que a história nos apresentou e que o futuro ainda nos reserva. Contudo, é, sem sombra de dúvida, incontornável e um instrumento formidável de consistência racional e modernidade.

As 200 voltas que a Terra deu em torno do sol desde o nascimento de Marx foram tempo de grandes transformações. O desafio da emancipação sofreu mutações e ganhou novas condicionantes com a globalização. Nos dias que correm, exige a libertação de uma dupla opressão, a capitalista e a imperialista. Este é o objetivo maior: a emancipação da oligarquia financeira e seus braços armados, e a superação dessa máquina de desigualdades e exploração. Como o fazer? É neste momento que retiramos da lista dos termos proibidos a palavra revolução, que Marx trazia sempre no frontispício dos seus escritos.

As elites têm fintado o prognóstico de Marx da superação do capitalismo e mostrado uma resiliência inesperada, embora estrategicamente mais frágil. O capitalismo, em permanentes fugas para a frente, escapando a uma crise apenas para cair nos braços de outra, percorre uma corrida de obstáculos que tem deixado para trás cada vez mais pessoas. O exército dos derrotados da globalização é crescente e isso tem mudado a estrutura de dominação, nas táticas e estratégias da elite para manter a sua legitimação. A consequência parece um abalo sísmico no sistema político, como o demonstra o crescimento das forças ultraconservadoras à escala internacional.

Da América para o mundo, Trump abraça e empurra essa agenda reacionária, como o demonstrou até no coração da própria União Europeia. Ao descontentamento popular, o sistema responde com o populismo, ansiando por uma regeneração que não coloque em causa a ordem estabelecida e a manutenção da finança na condução dos destinos do mundo. Pelo caminho, vai sendo erodido o Estado de direito, a separação de poderes, as liberdades individuais, os direitos fundamentais e a própria democracia. Uns contra os outros, dividir para reinar, amedrontar para dominar: qualquer relação com a realidade não é mera coincidência. A democracia liberal está a passar a relíquia por este andar.

Que revolução para um marxista nos dias de hoje? A que junta forças nos direitos sociais e políticos que nos estão a ser negados; a que vai à raiz da democracia para a regenerar, mais inclusiva e mais livre; a que recupera a participação e o voto da caricatura do conformismo burguês. É esta a necessária revolução popular que poderemos construir. É uma luta que congrega todas as lutas emancipatórias. Só por aí, conseguiremos vencer a dominação que sofremos da oligarquia financeira internacional.

Que caminho para tão audaz objetivo? Começar cá dentro e nunca deixar de lutar fora de portas. Construir uma maioria social em cada país que seja capaz de lutar pela vida digna que nos tem sido negada. Resgatar para a decisão pública as escolhas estratégicas da economia, porque não há democracia sem capacidade de decidir sobre os setores estratégicos de cada país. Libertar a democracia da chantagem dos credores com um processo de reestruturação da dívida pública, defendendo os direitos sociais de todas as pessoas.

À escala europeia, temos de vencer a luta contra os tratados que atrofiam a vontade dos povos e esvaziam a soberania nacional. Conseguir o respeito dos vários povos europeus tratando todos como iguais, cidadãos e cidadãs, trabalhando verdadeiramente em solidariedade e não em concorrência. Emancipar os países do Banco Central Europeu e das suas ameaças de expulsão da zona monetária. Tirar o nosso país da mira da NATO e das suas escolhas militaristas, garantido um caminho de paz e cooperação internacional.

As tarefas indicadas são exigentes, mas essenciais. São o caminho de uma agenda da transformação social, para que através de revoluções populares democráticas se abram vias amplas para as  mudanças socialistas.

O 25 de abril já nos mostrou que é possível. O povo fez da liberdade o mosaico dos direitos sociais, económicos e políticos. Quando saiu à rua para acompanhar os capitães do MFA logo seguiu dando força a nacionalizações e ocupações de casas e terras. O reencontro com o socialismo será no solo de uma democracia radical.

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