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Pela reapropriação do conceito de defesa da família pela esquerda

A direita conseguiu a façanha de ser virtualmente a única força política associada à defesa desta entidade humana, quando tudo o que faz consiste em atacá-la. Por Alexandre Frias Pinto.
famílias junto ao rio
Foto de Pedro Gomes de Almeida

O conceito de família não é único nem imutável, podendo ter vários significados diferentes que evoluem com o passar do tempo. Desde a família alargada, por vezes um clã, elemento de base de muitas sociedades humanas durante grande parte da nossa história, até à família nuclear, idealizada e determinada como o padrão num passado mais recente, passando por outras formas, como a família monoparental, famílias adoptivas ou casais independentemente do seu género, a sua definição não é clara e muito menos universal. Alguns elementos mantêm-se comuns, no entanto, como a proximidade emocional, a interajuda e, por vezes, as relações de parentesco.

O sistema económico capitalista, que visa extrair o máximo possível de lucro de todo e qualquer indivíduo, excepto do capitalista ele próprio, entra inevitavelmente em conflito com esta entidade social. Por vezes isto manifesta-se directamente na exploração de indíviduos, roubando-lhes a sua saúde mental e física, e apropriando-se do máximo possível de tempo das suas vidas, tirando-lhes a possibilidade de manter relações de qualidade com quem lhes é querido. Noutros momentos, provocando cisões de distancia, forçando elementos de uma família a afastarem-se durante longos períodos para terras longínquas para sobreviverem. Frequentemente, passa por tudo fazer para nos transformar em consumidores acéfalos, prontos e contentes por viver num limbo de trabalho / consumo que deve sobrepor-se a tudo o resto na vida.

As forças que defendem um tal sistema deveriam obviamente ser reconhecidas como inimigas da família. No entanto, como todos o conhecemos, a direita conseguiu a façanha de ser virtualmente a única força política associada à defesa desta entidade humana, quando tudo o que faz consiste em atacá-la. Fez isto graças à conjunção de dois factores :

  • Ter utilizado a propaganda com mestria para misturar o conceito de família com o de estruturas opressivas de controlo social, tal como o machismo clássico das nossas sociedades mediterrânicas e ocidentais.
  • Ter beneficiado do facto de, tradicionalmente, a esquerda ter sido tímida e incapaz de lançar campanhas agressivas de informação e propaganda, mostrando que os seus ideais são os que defendem verdadeiramente a manutenção de famílias justas que permitem aos seus membros sentirem-se realizados.

Quer seja com a defesa duma remuneração justa, de ambientes de vida sãos ou do respeito mútuo; passando pela luta pela aceitação e plenitude de direitos de diferentes tipos de família, independentemente do género dos seus constituintes, orientação sexual, composição, religião, etnia ou outras; indo até medidas concretas como a criação de estruturas universais e gratuítas como creches, escolas ou sistemas de saúde – o que é mais que claro é que os ideais de esquerda, assim como as medidas que propõe e pratica, são os que verdadeiramente defendem e protegem as nossas famílias.

Ao recusarem-se a adoptar a bandeira de defesa das famílias, os partidos de esquerda têm cedido o campo de batalha num conceito chave que tem uma importância primordial para grande parte dos indivíduos. Isto tem deixado à direita o caminho livre para manter as suas campanhas de propaganda e desinformação, impondo a sua própria definição redutora e deturpada, e apresentando-se como o arauto e defensor daquilo que na realidade corrompe e destrói.

São horas da esquerda deixar de ser tímida e de atacar a direita, tanto a liberal como a fascista, na batalha pela imagem de defensora da família, assim como pela sua definição. É algo que só não vencerá se não o desejar, pois todas as armas estão do seu lado. Só necessita de pegar nelas e marchar.

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