Está aqui

“Partido Trabalhista está nas mãos de quem não apoia Corbyn”

Entrevista a Dan Sequerra sobre a situação no Reino Unido no pós Brexit e as tensões dentro do Partido Trabalhista britânico. Por Joana Louçã.
Dan Sequerra
Dan Sequerra "Corbyn e os seus apoiantes não contestaram suficientemente a burocracia dentro do partido e toda a organização ainda está nas mãos de pessoas que não o apoiam".

Esta entrevista faz parte do programa Mais Esquerda, que pode ser visto aqui e que incluiu ainda reportagens sobre asseio moral no trabalho (aqui) e sobre a precariedade vivida pelos bolseiros de investigação (aqui).

Dan Sequerra foi criado em Portugal e, quando era jovem, foi viver para o Reino Unido onde foi presidente do Partido Trabalhista em Sheffield. Afastou-se do partido nos anos de Tony Blair e regressou com a liderança de Jeremy Corbyn.

Que mudanças trouxe Corbyn em relação às lideranças anteriores no Labour?

Corbyn é uma pessoa extremamente digna, de princípios, era da parte “bennite” do partido, apoiantes do Tony Benn e mesmo quando o Partido Trabalhista estava no poder, votou sempre contra tudo o que fossem políticas liberais ou neo liberais, contra a invasão do Iraque, etc. A eleição dele para o Partido Trabalhista aconteceu num período em que a imprensa britânica está à direita. Eu comprei o Guardian ao longo de 50 anos e deixei de o fazer pela forma terrível como se atiraram ao Corbyn. O Independent, que era um bocadinho mais à esquerda, já é só publicado online e o Daily Mirror, que era o jornal trabalhista um pouco de esquerda também se virou contra o Corbyn. A BBC está completamente virada para os conservadores… 

Uma das coisas que o Corbyn tem feito bem é que tem feito comícios sempre ao ar livre. Em Sheffield, por exemplo, durante a segunda eleição, teve a maior assistência de sempre, 3 mil e 500 pessoas, muitas das quais eram jovens, numa sexta feira à tarde quando estava a chover. Além disso, Corbyn tem feito bastante bom trabalho nas redes sociais. No entanto, faz dois anos em junho que Corbyn foi eleito a primeira vez e o único problema é que ele e os seus apoiantes não contestaram suficientemente a burocracia dentro do partido e toda a organização ainda está nas mãos de pessoas que não o apoiam. Além disso no Parlamento a maior parte dos deputados trabalhistas não apoiam o Corbyn. Fizeram-lhe um voto de não confiança que foi uma coisa terrível. Acho que ele se devia impor.

Os apoiantes de Corbyn estão organizados dentro do partido?

Sim, dentro do partido houve uma campanha chamada Momentum, da qual eu sou membro e que é uma organização com 30 a 50 mil aderentes para apoiar o Corbyn. No entanto, por um lado, passaram muito tempo só a falar disso e não tanto como é que vamos democratizar o partido e dá-lo às bases. É preciso mudar o estilo de reuniões porque as pessoas que entraram no partido não acham isso muito interessante, especialmente quando a base não tem força política. As reunião são mais um briefing do que um debate político e eu acho que deveriam ter dado mais atenção a isso.

Por outro lado, há uma guerra dentro do Momentum entre os partidos à esquerda do Partido Trabalhista, alguns dos quais estão dentro do partido e outros que não estão. Estes grupos estão no meio de um grande debate sobre a democracia interna dentro do Momentum. Jon Lansman, apoiante do Corbyn há muito tempo e quem criou o Momentum, está a ser criticado pelos partidos da esquerda por isso e a esquerda está a demonstrar que não consegue ultrapassar as suas divisões. A situação é difícil e eu acho que não vai melhorar muito até que a democracia interna do partido mude e Corbyn se imponha mais.

No sistema eleitoral em vigor no Reino Unido é muito difícil os partidos fugirem ao bipartidarismo. Apesar disso, à direita têm surgido novos partidos que têm estado a crescer, porque é que não acontece o mesmo à esquerda?

A esquerda não tem experiência nenhuma em eleições nem na Câmara, nem no Parlamento por causa do sistema em que quem tem mais votos ganha, mesmo que tenha minoria da percentagem. No entanto, mesmo quando há eleições para o Parlamento Europeu, que nas últimas três ou quatro vezes foram sempre por proporcionalidade, podia haver uma presença desses partidos, mas há no Reino Unido essa ideia de que por concorrentes contra o Partido Trabalhista é divisionista. 

Mas, como disseste, na direita é exatamente ao contrário. O UKIP fez a sua grande jogada nas eleições para o Parlamento Europeu, usou o seu populismo e a sua xenofobia contra a Europa e ganhou uma boa proporcionalidade dos votos, 26.6%. De lá para cá, tem ganho forças e o Brexit foi um grande êxito para eles. A campanha foi xenófoba, racista e ganharam votos especialmente de parte da classe operária que não tem confiança nos políticos tradicionais. Mesmo no South Yorkshire, uma parte da Inglaterra em que a maioria dos deputados são trabalhistas, o Brexit ganhou.

Portanto, há mais uma tendência para o Labour representar a esquerda…

Exato, por isso é que há muita gente na esquerda que apoia um sistema de proporcionalidade de votos para dar oportunidade a partidos e ideias à esquerda.

O artigo 50 foi aprovado no Parlamento, o que achas que vai acontecer nos próximos tempos em relação ao Brexit?

Depois do referendo houve um grande debate sobre o voto no Parlamento, porque a Theresa May dizia que o governo tinha o direito de ativar o artigo 50 sem ir ao Parlamento. Foi um grupo de pessoas que não tinham uma organização política que levaram a questão a Tribunal e May perdeu e teve de ir ao Parlamento. 

E o que acontece é que se pode propor emendas no voto do Parlamento e pode-se prolongar o período de debate sobre o Brexit. O Corbyn e o Partido Trabalhista maioritário decidiram que não iam votar contra o artigo 50 no Parlamento porque foi aprovado no referendo, mas vão tentar fazer emendas. Os Social Democratas, que eram contra o Brexit, votaram contra e há um grupo dentro do grupo parlamentar do Corbyn em que a maior parte dos deputados são do centro direita trabalhista, que não aceitou a proposta do Corbyn e votou contra o artigo 50. Foi mais uma divisão dentro do Partido Trabalhista e o público britânico não gosta nada de divisões, então isto é um problema para o Partido Trabalhista, por um lado. 

Por outro lado, a Theresa May e o governo, cuja maioria não foi pró-Brexit, estão com grandes dificuldades em desenvolver, na prática, qual é a proposta que vão fazer à UE e a UE já percebeu isso e já lhes está a exigir mais. Eu acho interessante que May tenha adiado três vezes o prazo em que tinha dito que ia por o artigo 50 em marcha. Agora diz que é em março, mas originalmente dizia que seria em outubro. 

De que forma está May a tentar minimizar as consequências económicas do Brexit para o Reino Unido?

Theresa May está a tentar reduzir o impacto do Brexit, mas ela tem muitos problemas. A Índia foi o país onde Theresa May foi primeiro porque é um país em crescimento e o presidente, que é um neoliberal, respondeu-lhe diretamente que “sim, queremos fazer negócio consigo, mas tem de deixar os nossos cidadãos entrar”. Uma parte do Brexit foi porque “não queríamos tantos estrangeiros aqui” e ele exigiu o seu contrário. Ela fez umas concessões muito pequenas e o negócio ainda não está fechado.

Ao fim e o cabo, a Europa é o maior mercado dos britânicos e os capitalistas britânicos sabem muito bem isso. Os pequenos empresários são mais à direita e contra os estrangeiros, mas os grandes capitalistas sabem que o Brexit vai ser muito complicado. Theresa May está agora a tentar esta grande amizade com Trump, cujo objetivo é o Brexit, para abrir as portas aos britânicos na América, mas o Trump defende exatamente o contrário, ele quer mais protecionismo. O meu grande receio é que May esteja a oferecer a Trump e aos investidores americanos a possibilidade de investir na privatização do serviço nacional de saúde britânico, que é um dos grandes pontos de referência do povo que nem a Thatcher conseguiu destruir.

A visita oficial de Trump ao Reino Unido também está a ser muito contestada.

Sim. Quando foi eleito, Trump não deu grande prioridade a uma visita à Grã Bretanha, nem a uma visita de Theresa May aos Estados Unidos, e ela também não queria ser uma das primeiras líderes internacionais a visitá-lo. Mas o que aconteceu foi que o Trump criou uma relação com o ex-líder do UKIP, o Nigel Farage, que estava a causar muitos problemas a May e ao Partido Conservador, porque já se estava a dizer que ele deveria ser o embaixador de Inglaterra. Ele é um palhaço, politicamente é palhaço, mas May estava a sentir essa pressão nas camadas parlamentares que diziam “não podes deixar este gajo, ou então vamos perder…” porque o UKIP em princípio tem mais possibilidades de tirar votos aos conservadores do que aos trabalhistas. E, de repente, invertem a situação e o convite feito a Trump para uma visita oficial ao Reino Unido é o mais rápido convite de sempre feito pelo Estado britânico a um líder recém eleito, e não é por uns dias, é por meses. 

Além disso, Theresa May falhou a oportunidade de se posicionar contra a ordem executiva do Trump sobre os muçulmanos e foi muito criticada.Entretanto já disse que não é bem assim, mas mesmo assim, ela está a ver se Trump vai ser a sua salvação no período pós-Brexit. Mas é problemático porque não há só a petição contra a visita de Estado de Trump ao Reino Unido [disponível aqui e que conta com mais de um milhão e oitocentas mil assinaturas], mas no início do mês houve as maiores manifestações em Sheffield. De um dia para o outro, estavam nas ruas 3 mil e tal pessoas, há muito tempo não havia uma manifestação tão grande, só naquele comício do Corbyn. Quando Trump vier vai haver muitas manifestações, é uma oportunidade para a esquerda, este é um período em que há oportunidades para os dois lados e isso é interessante.

Para terminar, no final de fevereiro vai haver eleições intercalares para o lugar de dois deputados trabalhistas [esta entrevista teve lugar antes de se saberem os resultados da eleição intercalar, na qual foram eleitos Trudy Harrison, do Partido Conservador e Gareth Snell, do Partido Trabalhista].

Sim, isso pode ser um problema para o Partido Trabalhista. Dois deputados trabalhistas que não eram apoiantes do Corbyn decidiram ir para novos negócios e sair do Parlamento e vai haver duas eleições intercalares para esses dois lugares. Numa das posições, escolheram mais um Blairista em vez de um apoiante do Corbyn. No outro lugar, o novo líder o UKIP vai ser candidato. O UKIP ainda não ganhou uma eleição para o Parlamento. Tem lá um deputado que saiu do Partido  Conservador para o UKIP, mas, por causa do sistema eleitoral, o partido ainda não ganhou nenhum mandato. Mas este novo líder do UKIP é muito mais perigoso do que o Farage. O Farage é um palhaço, o Nuttall é muito mais populista, muito mais dirigido, mais do que o Trump. Ele vai ser um grande problema e tem anunciado que é ao Partido Trabalhista que vai tentar ganhar os votos. Esta eleição vai ser muito importante. 

Vivemos uma situação bastante complicada, por um lado temos manifestações contra o Trump, contra a Theresa May, do outro lado temos o UKIP a tentar desenvolver o seu apoio do Brexit no Parlamento. Se Nuttall for eleito para o Parlamento, vai ser uma grande mudança na direita inglesa. Eles têm mais deputados no Parlamento Europeu do que qualquer outro partido, mas isso não é a mesma coisa do que ter deputados no Parlamento Britânico.

Artigos relacionados: 

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
Termos relacionados Internacional
(...)