A resposta é não. Eu não poderia ser amiga de um ser humano que enfia uma bala na cabeça de outro ser humano desarmado e indefeso ou que comete outra atrocidade do mesmo tipo. Pouco importa o quanto ele tenha sofrido no passado, pouco importa a justiça do seu combate, eu não seria capaz de ser amiga, sair para beber um copo, ou ter um acesso de riso com alguém capaz de cometer um assassinato a sangue frio. É uma reação epidérmica, que vai além do intelecto e das convicções políticas.
Não poderia tornar-me amiga dele, mas tentaria compreender. Tentaria imaginar como é nascer num enclave onde a vida parece ter menos valor do que em qualquer outro lugar; onde é tão fácil perder um amigo de escola, pai, irmã, tio ou professor/a, morto ou morta num dos muitos bombardeamentos realizados regularmente pelo exército israelita. Ouvindo constantemente o zumbido dos drones sobre a nossa cabeça e sabendo que, a qualquer momento, o inferno vindo dos céus pode recomeçar. Estudar, mas não ter qualquer perspetiva de futuro. Porque quando se vive sob bloqueio, não se tem o direito de sonhar, apenas de sobreviver. Servir como mão de obra mal paga a uma potência ocupante que, ainda por cima, fecha, quando lhe dá na gana, os pontos de passagem que permitem a essa mesma mão de obra chegar ao trabalho, privando-a do seu único meio de subsistência.
Posso entender a raiva, o desespero, a perda de referências de um indivíduo que cresceu num ambiente como esse e que, se tiver menos de 20 anos, nunca terá conhecido nada diferente. Mas, como ser humano, não posso aceitar, apoiar ou tolerar um militante que comete atrocidades.
Porém, não conte comigo para, através dele, condenar a resistência palestiniana como um todo. Como toda a gente, vi nos telejornais imagens de violência insuportável praticada por combatentes palestinianos. Através de outros canais, também vi imagens de reféns israelitas sendo levados ao hospital para tratar dos seus ferimentos, ou de civis testemunhando na televisão israelita que ficaram cara a cara com combatentes que não lhes tocaram. Em qualquer episódio de guerra, alguns perdem a sua bússola moral e outros mantêm-na, aconteça o que acontecer. Esta é uma realidade que também se aplica aos combatentes da resistência palestiniana e que não pode ser ocultada, a menos que se queira ser correia de transmissão da propaganda de Israel, retratando-os como bestas humanas.
Acima de tudo, não contem comigo, bem confortável e segura na Europa, para dar lições de ética e decretar como um movimento de resistência, que tem recursos ridículos em comparação com o poder de fogo de Israel, deveria ou não agir. Não contem comigo para me juntar àquelas e àqueles que, aqui, dizem que “o Hamas está a desmantelar a resistência palestiniana”. Isso, são os palestinianos que têm de julgar. Ora nem em Gaza, nem na Cisjordânia e nem em Jerusalém vimos qualquer expressão de cólera contra as ações dos grupos armados. Não peça a esse mesmo povo que, nas palavras do historiador israelita Ilan Pappé, é alvo de um genocídio lento, para condenar ações que apenas iriam acelerar a sua destruição programada. Não peça a esse mesmo povo que chore pelos jovens israelitas mortos numa rave-party quando, quase todas as semanas, uma mãe palestiniana enterra o seu filho vítima dos colonos ou do exército, diante do silêncio total dos nossos no Ocidente.
E não peça também às palestinianas e aos palestinianos que finjam que a história não existe. Eles conhecem-na muito bem e sabem que a libertação dos povos colonizados sempre se baseou tanto na resistência pacífica quanto na luta armada. Não é à toa que os redatores da Carta da ONU conferiram às populações que vivem sob ocupação o direito à resistência armada, mesmo quando esta sempre foi acompanhada por um quantidade maior ou menor de atos violentos injustos ou moralmente condenáveis. Embora o Ocidente tenha perdido isso de vista, o Sul nunca esqueceu que, sem a resistência armada dos movimentos decoloniais do século passado – na época também tratados como “terroristas” – as terras e as populações da África e da Ásia ainda estariam a ser exploradas pelos colonizadores europeus. O caso dos palestinianos é pior, pois o projeto sionista não consiste em explorá-los, mas, pouco a pouco, substituí-los.
E tu, defensor de Israel, para quem vai a tua amizade?
O que há de espantoso na pergunta que me foi colocada é que ela nunca é feita àqueles que martelam sem cessar o apoio inabalável a Israel. No entanto, em Israel, há assassinos e criminosos, e os seus serviços são frequentemente pagos pelo Estado.
Portanto, a esses defensores irredutíveis de Israel, eu gostaria de fazer uma pergunta semelhante: poderiam ser amigos de um piloto da IDF que acerta com a sua bomba um prédio de 14 andares em Gaza, sabendo muito bem que vai matar dezenas de pessoas, inclusive velhos, mulheres, crianças e bebés?
Poderiam ser amigos deste soldado enviado à fronteira de Gaza com a tarefa de usar balas capazes de fazer buracos do tamanho de um punho nas pernas das crianças que se aproximarem demais da barreira de separação?
Poderiam ser amigos do soldado que reage com balas reais a crianças que lhe atiram pedras nos territórios ocupados?
Poderiam ser amigos deste juiz que, seguindo uma regra não escrita, porém escrupulosamente respeitada, nunca condena um soldado ou colono culpado de assassinar um palestiniano, mesmo que ele seja um bebé de dois anos e meio como o pequeno Mohammed Tamimi na Primavera passada?
Ou do magistrado que ordena a destruição de uma casa, ou de uma escola, porque foi construída sem uma licença que, de qualquer forma, nunca é concedida?
Ou desse membro da autoridade militar que, há anos, renova a cada seis meses a chamada detenção “administrativa” de civis palestinianos – incluindo menores de idade – que nem sequer têm o direito de saber de que são acusados?
Ou daquele outro representante do sistema penitenciário que diz à família de um prisioneiro morto na prisão que só recuperará o seu corpo no termo da sentença que ele recebeu em vida?
Poderiam ser amigos do funcionário que nega a uma mulher palestiniana com cancro de mama a autorização de sair de Gaza para receber um tratamento vital, ou que adia a sua data de saída indefinidamente?
Trata-se de crimes regulares, até mesmo diários. Crimes reconhecidos e comprovados, ligados a um sistema de apartheid, alguns dos quais merecem a caracterização legal de crimes de guerra. Crimes cometidos por cidadãos israelitas durante o serviço militar ou no quadro do seu serviço na função pública. Crimes que estes já nem entendem como tais, visto terem sido cometidos em nome e por conta desse Estado.
As nações ocidentais são indiretamente culpadas desses crimes. Historicamente, pois o projeto sionista nada mais é do que o último empreendimento colonial europeu a manter-se no Médio Oriente. Politicamente, porque, independentemente do que Israel faça, o Ocidente permanece em silêncio (ou murmura a sua desaprovação) e, de qualquer forma, mantém, custe o que custar, a sua colaboração com Israel.
Continuem, portanto, a passar ao lado da História, atacando a violência dos fracos e dos martirizados. Os fascistas no poder em Israel nunca lhes agradecerão o suficiente.
Candice Vanhecke é jornalista do Investig'Action. Artigo publicado em Investig’Action. Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net