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Paquistão refém dos religiosos, a esquerda radical resiste

O Supremo Tribunal paquistanês declarou Asia Bibi inocente do crime de blasfémia, pelo qual havia sido condenada à morte. Os movimentos religiosos responderam com apelos à paralisação do país. Artigo de Pierre Rousset, em Lahore.
Campanha de solidariedade pela liberdade para Asia Bibi, condenada à morte por blasfémia no Paquistão.

A esquerda radical do Paquistão comemorou, entre 9 e 11 de novembro, o 50º aniversário do levantamento de 1968-1969, uma crise ainda mais profunda do que a que conhecemos em França [1]. Fui convidado para falar do nosso Maio de 1968. Um grupo de mullahs, regressados de uma visita a Meca, está no avião que nos leva a Lahore. São simpáticos para mim, mas não para as suas irmãs. Por duas vezes fui obrigado a mudar de lugar, porque eles não queriam sentar-se ao pé de uma mulher. A minha vizinha paquistanesa, cabelos soltos, está tensa. A hospedeira de bordo acaba por não conseguir esconder a sua exasperação.

O Tribunal Supremo declarou Asia Bibi inocente a 31 de outubro – mesmo do dia da minha chegada. Um novo partido religioso radical, o Tehreek-e-Labaik Pakistan (TLP) [2], tinha convocado bloqueios de estradas para mostrar a sua alegria caso se confirmasse a condenação à morte de Asia Bibi, ou caso contrário para passar à contra-ofensiva. Outros movimentos fundamentalistas juntaram-se à mobilização. O meu amigo Farooq veio buscar-me de carro ao aeroporto, depois de acordar bem cedo. Os acessos ao aeroporto estão fechados. Andamos muito tempo até encontrar uma brecha, e em seguida muitos desvios até conseguirmos chegar a casa.

Asia Bibi é cristã, trabalhadora agrícola, pobre, mãe de cinco crianças. Há quase dez anos presa, condenada à pena capital [3]. O Tribunal Supremo reconheceu que a acusação era inconsistente e que tudo levava a parecer que ela foi vítima de uma vingança. A lei sobre a blasfémia foi inicialmente uma herança da colonização britânica, depois endurecida em 1986, pelo general Zia-ul-Haq. Em seguida, foi usada por diversas vezes em situações de conflitos confessionais, de ajustes de contas pessoais ou de posse de bens cobiçados. A maioria das vítimas são muçulmanas, mas as minorias religiosas (3% da população) estão sob ameaça constante de purga religiosa, e aldeias inteiras podem ser atacadas por suposta blasfémia.

Na sua origem, o Paquistão não era um Estado islamista. Haverá quem pense que para lá caminhava. A partição do Império britânico das Índias, em 1947, foi feita a partir de uma linha divisória religiosa (hindus e muçulmanos), provocou imensos deslocamentos de população e muitos massacres. Houve províncias cortadas em dois: o Punjab ao oeste e Bengala ao leste (a fronteira com o Paquistão oriental que se torna em 1971 um país independente, o Bangladesh). No seu primeiro discurso à Assembleia nacional paquistanesa [4], Muhammad Ali Jinnah, o “pai fundador”, reconhece que a sua política de partição é criticada. O novo Estado é uma República islâmica; mas ele quer abri-la a todas as religiões, todas as castas, todas as classes sem discriminação. As leis em vigor são herdadas do direito inglês ou das tradições e costumes. A islamização do país faz-se contra essa herança de Jinnah. Ela só se vai impor inteiramente sob a ditadura do general Muhammad Zia-ul-Haq que toma o poder em 1977. Ela não foi uma resposta à uma ameaça externa (Washington apoia o Paquistão contra a India e Moscovo). Serviu para consolidar um poder ilegítimo.

O preço desta islamização forçada é elevado. De agora em diante, quem for acusado de blasfémia ou se levante contra esta lei vai correr perigo de morte. Em 2011, o governador da província do Punjab e membro do partido governamental, Salman Taseer, foi assassinado pelos seus guarda-costas, porque saiu em defesa de Asia Bibi. Os juízes do Tribunal Supremo, os advogados que defenderam Asia Bibi e os seus  próximos vivem hoje sob ameaça.

Nesta situação de muito alta tensão, organizar reuniões é um ato de resistência. Encontrei estudantes — elas e eles temiam ser só 3 ou 4, mas apareceram quase 30. Depois passei o dia com membros e simpatizantes da Quarta Internacional. Aquilo devia ser um encontro nacional. A participação é reduzida, até os sindicalistas da periferia de Lahore não conseguiram vir: as entradas da cidade estão bloqueadas; mas a reunião fez-se.

No fim de semana, a organização A Luta (The Struggle), hoje próxima da Quarta Internacional, tem o seu congresso. Eles previam juntar 2.000 pessoas, apareceram mais de 1.600. Tendo em conta a situação, é um verdadeiro sucesso, apesar da participação feminina ser reduzida (é muito perigoso para as mulheres deslocarem-se quando os mullahs tomam as ruas). O seu congresso decorre sob uma faixa enorme a celebrar os seus anos 68-69. Dadas as circunstâncias, a presença de um francês que viveu essa década é duplamente apreciada: um passado comum de lutas, a afirmação de uma solidariedade em tempo de crise.

Andar de um lado para o outro é um constante quebra-cabeças, mas a situação fica menos tensa. Sob pressão, o governo acordou com o TLP que poderão recorrer da decisão do Tribunal Supremo. Imran Khan, o novo primeiro-ministro, foi eleito com o apoio dos militares e piscando o olho aos fundamentalistas. É esse o problema do Paquistão. Sucessivos governos frequentemente cederam aos fundamentalistas. Como fazer marcha atrás?

Consegui chegar sem problemas ao aeroporto para o meu voo de regresso — mas o destino de Asia Bibi continua em suspenso. Estará ainda na prisão ou nalgum local secreto em segurança? Ninguém sabe. As pressões internacionais são consideráveis e Imran Khan deve tê-las em conta. Esperamos.


Pierre Rousset é fundador e um dos responsáveis pelo portal Europe Solidaire, que publicou este texto. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.


Notas:

[1] Ver em ESSF, 1968-69 (Paquistão): http://www.europe-solidaire.org/spip.php?mot14059

[2] «Movimento paquistanês Eu estou ali»

[3] Ver em ESSF, Asia Bibi: http://www.europe-solidaire.org/spip.php?mot7080

[4] ESSF First Presidential Address to the Constituent Assembly of Pakistan: http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article46833

 

    

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