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Papa defende união civil entre pessoas do mesmo sexo

Num documentário, o Papa Francisco diz que “os homossexuais têm direito a fazer parte de uma família” e volta a afrontar as correntes mais conservadoras da Igreja Católica. Na sua última encíclica critica o nacionalismo e o discurso de ódio.
Francisco dirige-se à ONU. Foto das Nações Unidas/Flickr.
Francisco dirige-se à ONU. Foto das Nações Unidas/Flickr.

Estreou-se esta quarta-feira, no Festival de Cinema de Roma, o documentário Francesco, realizado por Evgeny Afineevsky. Este filme promete não ser apenas mais um retrato do líder espiritual católico. Em primeiro lugar porque nas entrevistas com colaboradores do Papa e várias pessoas que o foram encontrando desde que se tornou o líder da Igreja Católica, se abordam questões como as migrações e os refugiados, a pobreza, os abusos sexuais na Igreja, o papel das mulheres e os direitos LGBT.

Em segundo lugar, porque, relativamente a esta última questão, Bergoglio toma uma posição inédita para um Papa, dizendo que “os homossexuais têm direito a fazer parte de uma família”. Torna-se assim o primeiro Papa a defender as uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. “O que temos de fazer é ter uma lei de uniões civis, dessa forma eles estão legalmente cobertos. Eu lutei por isto”, declarou.

Não é a primeira vez que o faz, uma vez que quando era arcebispo de Buenos Aires já tinha tomado posições idênticas. Mas é a primeira vez que o diz enquanto “Sumo Pontífice”. A posição sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo continuará, contudo, a mesma de sempre da instituição.

Esta posição sobre uniões de facto contrasta com aquilo que a Igreja tem dito e escrito sobre a questão. Recorde-se que, em 2003, Ratzinger, que se tornaria depois o Papa Bento XVI, na sua qualidade de chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, tinha feito o organismo publicar um documento a dizer que “o respeito pelos homossexuais não pode levar de maneira alguma à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais". Isto porque “significaria não apenas a aprovação do comportamento desviante, com a consequência de torná-lo um modelo para a sociedade atual, mas também obscurecer os valores básicos que pertencem à herança comum da humanidade”.

No mesmo documentário, Francisco diz ainda estar a "aprender com os erros" no que toca à questão das vítimas de abusos sexuais cometidos por padres.

Todos irmãos”, um murro no estômago dos nacionalismos

No início do mês, o Papa tinha publicado a encíclica Fratelli tutti. Fez coincidir a publicação do terceiro documento deste género assinado por si com o dia que a ICAR dedica a São Francisco de Assis.

Trata-se de um apelo à “fraternidade humana” que se traduz depois em sete apelos concretos com fortes implicações sociais. O Papa defende a reforma da ONU, para que esta “não seja cooptada por nenhum país” e “evitar que esta organização seja deslegitimada”. Para além disso, reafirma posições como a inadmissibilidade da pena de morte, o convite a acolher os migrantes, a condenação da escravatura, incluindo formas modernas de escravatura.

Francisco quer também acabar com as armas nucleares, apela à vocação de todas as religiões para a paz e à unidade dos cristãos.

Para além destes apelos, salienta-se a leitura dos tempos apresentada pelo Papa que identifica “sinais de regressão” e “novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais”. Racismo, um “vírus que muda facilmente” e “está sempre à espreita” e discursos de ódio são também criticados.

“Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos”, pode ler-se no documento.

O líder católico é igualmente crítico das “abordagens económico-liberais” que pretendem “evitar a todo o custo a chegada de pessoas migrantes”. O liberalismo “ao serviço dos interesses económicos dos poderosos” promove um “desprezo pelos vulneráveis”, vinca.

Francisco apela assim a uma política “ao serviço do verdadeiro bem comum”, à participação social, política e económica e à inclusão na política dos movimentos populares e mostra-se contra a “intolerância e o desprezo perante as culturas populares indígenas”.

Revela-se ainda preocupado com as fake news e a proliferação do discurso de ódio nas redes sociais, onde crescem “formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais” visando destruir o outro.

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