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Pandemia e dependência de drogas: o que fazer?

Em declarações ao esquerda.net, o psiquiatra Alfredo Frade diz que nesta fase é importante aproximar os consumidores dos serviços públicos de acompanhamento, que continuam a funcionar com “equipas preparadíssimas” para lhes dar resposta. 
esquerda.net

Alfredo Frade é psiquiatra, ex-responsável pelo Centro de Atendimento a Toxicodependentes do Restelo e Torres Vedras e da Unidade de Alcoologia de Lisboa.

Com o fecho das fronteiras estamos a assistir à escassez das drogas no mercado ilegal, que consequências pode ter este período de seca para as pessoas dependentes de drogas?

Sobre isto teremos de começar por considerar as várias substâncias. Do que existe no nosso mercado ilegal, além da canábis, existem os opiáceos, os estimulantes, as anfetaminas e a cocaína. Entre estas, as que podem causar mais problemas em termos de privação vão ser os opiáceos. Para resolver este problema no paradigma atual, em que não há um controlo do Estado sobre estas substâncias, a solução para esses consumidores terá de passar pelo sistema público. Eventualmente, através da utilização de medicações transitórias de substituição, que existem. 

Esses serviços estão a funcionar e funcionam razoavelmente bem. Dentro do que existe no sistema público são serviços eficazes e que se mantêm abertos durante a pandemia. Portanto, pensando apenas nos heroinodependentes, que podem ter esse problema, estes podem deslocar-se para esses serviços públicos. Não está proibido, e é uma das deslocações possíveis. Estes serviços são onde se faz o tratamento e redução de danos, e onde pode haver programas de metadona para estas pessoas. Sobre esta primeira questão esta é a única solução que estou a ver. Há programas de metadona de baixo limiar para consumidores que não se queiram tratar, no sentido de deixarem as drogas, ou que, numa primeira fase, não o queiram fazer. De qualquer modo, a aproximação aos serviços públicos e a estes serviços está estruturada. Não são os centros de saúde, estou a falar dos serviços de toxicodependência, que são à parte, sempre foram. Estiveram estruturados no Instituto da droga e toxicodependência e agora estão ligados às ARS (Administrações Regionais de Saúde), portanto, têm um acesso relativamente fácil. Nesta altura específica haverá algumas restrições, mas os serviços estão a funcionar.

No Reino Unido, há investigadores que alertam para o crescimento do consumo de fentanil, por causa da falta de heroína. Por cá, os técnicos de terreno também alertam para a passagem para substâncias mais nocivas. O que deve fazer o Estado para evitar isso?

De facto pode haver este problema, uma procura por outras substâncias mas, estando os mercados fechados, não sei como é que as pessoas as obterão. Pode haver o perigo de as pessoas consumirem outras substâncias, que são desconhecidas, e, portanto, mais perigosas. O que o Estado pode fazer é tornar os programas que falei ainda mais acessíveis. Tivemos alguma experiência  semelhante na última epidemia, a da Sida, em que morreram bastantes doentes. Nessa altura, estes programas foram muito importantes. Penso que é uma das variáveis que em Portugal controla a situação da Sida, e, percebeu-se, que ter programas eficazes a montante, pode resolver alguns desses problemas. Em relação ao fentanil, esta substância é utilizada em alguns países, e também cá é usado. Penso que as pessoas a adquirem pela net, mas não sei bem. Sobre isto, coloca-se a questão da maior acessibilidade aos programas de metadona. Em Lisboa e nas grandes cidades está a discutir-se a possibilidade de haver casas de consumo assistido, mas o Estado não fornece as substâncias, as pessoas terão de levar a sua substância, o que na situação atual não resolve a mesma dificuldade. Portanto, teria de ser uma resposta através dos programas de substituição, através da metadona que já existe, bastante acessível, nestes centros de que falei anteriormente. Em carrinhas que existem nas cidades do Porto e de Lisboa esse sistema está bem montado. Tudo isto exige, evidentemente, que estes consumidores se aproximem do sistema de saúde, mas isso também não é mau, até pode ser bom. E, através disso, fazer mais coisas, como testes da sua saúde, inclusive da covid-19, neste momento.

Achas que a legalização de todas as drogas, com o controlo estatal, poderia ser uma solução?

Essa situação estaria resolvida se o mercado fosse controlado pelo Estado, claro. Como não está, mesmo em relação à canábis, apesar de ser a substância que está mais perto dessa possibilidade, é uma questão que está por resolver. O Bloco já propôs isso, mas só se conseguiu, para já, avançar na canábis medicinal, que ainda não está regulamentada, portanto, nós ainda não a podemos subscrever medicamente, mas isso é uma questão de regulamentação.

Nos Estados Unidos, as lojas de canábis foram declaradas serviços essenciais durante a pandemia. Portugal exporta canábis para fins medicinais mas os doentes que dela precisam, em Portugal não têm alternativa no mercado ilegal, que agora ficou seco. Que solução é que pode ser dada a essas pessoas?

Essa é a mesma discussão da pergunta anterior. No caso da canábis os consumidores não terão privação física, não haverá sintomas como os  da privação da heroína, por exemplo, mas poderão ter ataques de pânico, taquicardia, ansiedade. E, aqui a solução é a mesma, os consumidores têm de poder chegar mais perto dos serviços, e tem de haver acesso a medicações transitórias para essas ansiedades que vão aparecer. Apesar dos consumidores lúdicos terem pouco contacto com estes sistemas de tratamento, pode ser uma resposta para o caso de estarem  aflitos. Podem sempre obter medicação para a ansiedade, como num centro de saúde, mas infelizmente essas vias estão mais complicadas. 

A sugestão que eu faria seria uma aproximação aos centros especializados que já tratam dependências, mesmo sem substância, e neste momento estão já a assistir pessoas dependentes de raspadinhas e de jogo pela net. Apesar de tudo, Portugal fez um percurso bom, no sentido progressivo.  Estas equipas estão preparadas há muitos anos para todas estas dependências, portanto, não é uma abordagem muito difícil. Penso que até será mais difícil para os consumidores lúdicos deslocarem-se até estes locais, já que terão de ir para um sistema onde estão outras pessoas com dependências mais complicadas. Será mais difícil para os consumidores do que propriamente para os técnicos, que estão preparadíssimos para isso.

Com as bebidas alcoólicas não se coloca o problema de escassez, mas qual o efeito do confinamento prolongado na população alcoólica em Portugal?

Em relação ao álcool o problema não é de acesso, é do controlo dos consumos, e, nesse caso, não sei bem o que vai resultar do confinamento. Pode resultar em mais consumo, porque o álcool tem um efeito ansiolítico inicial, mas poderá também resultar em mais dependências nas pessoas que já estão vulneráveis. No caso desta substância os acessos aos serviços também estão facilitados, os serviços estão a funcionar. Antes de me reformar trabalhei num serviço de unidade de alcoologia, tenho falado com as pessoas que lá continuam e o serviço está a funcionar durante a pandemia. De uma maneira mais restrita, é verdade, as pessoas estão a revezar-se por turnos, para se houver infeções não ficarem todos contaminados na mesma altura, mas são serviços que estão abertos, que funcionam para as pessoas que têm problemas de dependência. O conselho é não haver falta de moderação no consumo, este é o conselho geral para tudo isto.

 

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