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Os putos estão preocupados

Afinal, o que querem os putos? Provavelmente, Sérgio Godinho sabe o que a malta jovem quer: a paz, o pão, habitação, saúde e educação. Por Eduardo Couto.

Há quem diga que “o futuro é dos jovens’’, eu vejo as coisas de forma ligeiramente diferente: o presente é dos jovens. Geralmente, tentam falar por nós, decidir por nós, pensar por nós e um dia quando nos virmos ao espelho com cabelos brancos, vão-nos chamar e pedir para decidir pelos que virão.

Estão errados, temos opinião, temos anseios, temos necessidades e, apesar de nos tentarem censurar, aqui estamos. Mas, afinal o que é que queremos?

Foram belos os tempos, onde todos podiam estudar no Ensino Superior independentemente da sua carteira. Foram belos, mas duraram pouco, a elite portuguesa e os partidos que a representam, acabaram com esses belos tempos. Criaram as propinas com o pretexto de melhorar o ensino - tentaram, mas não nos enganaram. As propinas foram e são uma decisão puramente ideológica.

As propinas, os preços astronómicos do alojamento e os demais custos associados ao Ensino Superior fazem com que quem tem menos na sociedade jamais tenha a oportunidade de ingressar no Ensino Superior.

Mas, os problemas começam bem mais cedo. O ensino secundário tem várias insuficiências: desde a falta de uma verdadeira educação sexual, à falta de produção de pensamento crítico e acompanhamento psicológico dos alunos.

O ensino profissional veio para segregar os alunos, além dos módulos não qualificarem as e os alunos, os cursos profissionais sofrem de um preconceito por parte de muitos alunos e professores.

Os estágios destes cursos são meramente trabalho não remunerado. Dizem ser ‘’formação no contexto do trabalho’’ eu contradigo e digo: “exploração no contexto do capitalismo”. Quem beneficia com os cursos profissionais são os patrões que recebem “trabalho escravo” sem pagarem um cêntimo. Ao mesmo tempo garantem que uma parte significativa dos alunos vão ser seus empregados, pois para os alunos que não sejam do ensino regular , a entrada na universidade é condicionada a 100% pela nota do exame nacional. O patronato quer que o filho do precário continue precário.

No plano político as coisas não são menos preocupantes. Sou da geração da entrada de Portugal no euro e do Magalhães mas não preciso de ser da geração do Salazar para dizer que não tolero o fascismo. O crescer dos populismos e da extrema-direita é algo que me preocupa enquanto jovem. Em que país vou crescer? Numa democracia ou numa ditadura? Pergunto-me igualmente com o avançar do aquecimento global, fruto da exploração desmesurada da natureza, em que mundo é que eu e os meus filhos vamos viver?

Dizem que somos a geração da casa dos pais, porém que alternativa temos? A renda média em Lisboa e no Porto ultrapassa largamente o salário mínimo nacional. É extremamente difícil um jovem que entra para o mercado de trabalho viver independentemente.

Afinal, o que querem os putos?

Provavelmente, Sérgio Godinho sabe o que a malta jovem quer: a paz, o pão, habitação, saúde e educação.


*Eduardo Couto, estudante do ensino secundário.

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