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Os desequilíbrios mundiais mudam de epicentro

A economia mundial envia mensagens todos os dias. Que está a tentar dizer-nos? Que tal uma pergunta provocadora: estar-nos-á a dizer que devemos impor sanções à Alemanha pelo seu desempenho económico? Por Alejandro Nadal
O procedimento de desequilíbrios macroeconómicos da UE estabelece um limite de 6 por cento para o superavit de conta corrente e a Alemanha ultrapassa-o, há três anos - Foto de Merkel, janeiro 2015, World Economic Forum/flickr

A crise global está a iniciar o seu sétimo ano de vida. Os problemas na Europa não se resolvem. De facto, agora combinam-se de maneira perigosa com os sintomas de uma recessão prolongada na China para indicar que talvez já tenhamos entrado num longo período de estagnação a nível mundial. A recuperação nos Estados Unidos, de que tanto se fala, está marcada por nuvens e por um exorbitante aumento dos lucros dos bancos sem que aumente crédito para o resto da economia. Decididamente os motores da economia mundial não atravessam o seu melhor momento.

A economia europeia continua a ser um ponto quente dos mais importantes. As atribulações que atravessam vários países europeus são acompanhadas de rumores inquietantes sobre o futuro da união monetária. As negociações entre Bruxelas e o eurogrupo, por um lado, e o governo do Syriza, do outro, exacerbaram a tensão sobre a moeda europeia. Ao mesmo tempo distraíram a atenção sobre um dos problemas mais sérios na Europa. Os desequilíbrios económicos entre países com forte superavit e os que mantêm um défice crónico nas suas contas externas são neste momento uma das mais poderosas ameaças para o projeto da união europeia.

Nos últimos 20 anos falou-se muito sobre as vertiginosas taxas de crescimento da China e do seu prodigioso desempenho exportador. De todos conhecido é o facto de o superavit na conta corrente do gigante asiático passou de 2 para mais de 8 por cento do PIB entre 2001 e 2007, o ano em que se fizeram sentir os primeiros efeitos da crise no mercado hipotecário norte-americano. Em 2008 esse superavit ultrapassou os 10 por cento do PIB e posteriormente começou a reduzir-se gradualmente à medida que começou a contração do mercado mundial (os dados são do Fundo Monetário Internacional). Em 2014 o superavit chinês mal ultrapassou os 2 por cento do PIB.

Agora o motor exportador chinês foi ultrapassado pela economia da Alemanha. Neste país o superavit externo (saldo da conta corrente) já representava 5 por cento do PIB em 2006. Para 2008 esse indicador superava os 7,4 por cento do PIB e, como era esperado, reduziu-se nos dois anos seguintes devido à crise. No entanto, as exportações passaram a recuperar rapidamente e o superavit atinge hoje os 7,5 por cento do PIB.

Se se analisarem estes indicadores em termos absolutos observa-se que o superavit na conta corrente da China passou de 420 para 225 mil milhões de dólares entre 2008 e 2014. Visto deste ponto de vista parece que a redução desse superavit não é tão importante. No entanto, nestes últimos quatro anos o desempenho exportador da zona euro levou o saldo da conta corrente de um défice de 96 mil milhões de dólares para um espetacular superavit de 392 mil milhões de dólares. Antecipa-se que este ano o superavit da zona euro ultrapassará o pico histórico que atingiu o saldo da conta corrente da economia chinesa em 2008 (mais de 400 mil milhões de dólares).

Uma parte fundamental desse superavit na conta corrente da zona euro (cerca de 68 por cento) corresponde à economia alemã. O que isso significa é não só que os desequilíbrios internacionais se mantêm, mas que no interior da Europa se agravaram. O melhor indicador disto é que o superavit da Alemanha aumentou, passando de 225 para 285 mil milhões de dólares nos últimos seis anos.

É evidente que a crise na zona euro não levou a um reequilíbrio das suas economias, nem a uma situação mais harmoniosa. Até as autoridades de Bruxelas, de que tanto falamos no contexto das negociações com o governo do Syriza, se encontram num dilema face a este auge exportador da Alemanha. O procedimento de desequilíbrios macroeconómicos da União Europeia estabelece um limite de 6 por cento para o superavit de conta corrente e a Alemanha ultrapassa-o, há três anos.

O Departamento do Tesouro norte-americano assinalou o comportamento alemão como um fator desestabilizador para a economia mundial. E as autoridades em Bruxelas, começando por Jean-Claude Juncker, sofrem uma dor de cabeça. Em voz baixa para evitarem o escândalo político na Alemanha, tiveram que advertir que se não for reduzido o superavit externo terão que impor sanções económicas a Berlim! Afinal, foi a Alemanha o país que mais promoveu a candidatura de Juncker como presidente da Comissão.

A enxaqueca de Juncker pode agravar-se. Por mais que a senhora Merkel goste de vangloriar-se da ‘competitividade’ alemã, a verdade é que a repressão salarial e agora a depreciação do euro face ao dólar são os fatores chave do desequilíbrio. Não há que esquecer: tarde ou cedo os desequilíbrios passarão a cobrar.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada em 25 de março de 2015

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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