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Os Burgueses: 40 anos de poder e recomposição

Saber durar é a marca distintiva da burguesia portuguesa na era da troika. Os laços com o capital angolano, o apoio à austeridade como mecânica da destruição dos salários e dos serviços públicos, a adesão aos novos ditames do poder europeu, formam a base sobre a qual se sustenta esta estratégia. Artigo de Adriano Campos e Jorge Costa, publicado na Revista Vírus nº5.
Alexandre Soares dos Santos, antigo Presidente da Jerónimo Martins, e Pedro Passos Coelho. Foto de Nuno André Ferreira/LUSA

"Nos primeiros tempos não havia tempo para pensar com muita profundidade o que se estava a fazer: era só uma certa intuição, talvez também uma certa dose de teimosia e perseverança”. Assim lembra António Vasco de Mello, referindo-se à criação da Associação Industrial Portuguesa (AIP) escassos dias após o 25 de Abril de 1974.

O pensamento e ação da burguesia portuguesa na voragem militar e popular que aniquilou o marcelismo resultaram, como sabemos, numa derrota em curto prazo. A aposta perdida de Spínola e a polarização no seio do MFA, reflexo da agudização de contradições sob a crescente pressão popular, ditaram o novo cenário.

As três maiores dinastias da burguesia portuguesa, Mello, Champalimaud e Espírito Santo, perante uma cúpula política incapaz de organizar a defesa da classe, partiam para o exílio. Para compreender o regresso e a reconquista de Vasco de Mello, que viveu o desterro suíço com o seu pai, Jorge de Mello, é necessária mais atenção à complexa dinâmica social e histórica do que à “teimosia” do burguês.

A arte do possível: a burguesia e os caminhos para o novo regime

Francisco Louçã[1] recorda uma ideia dominante entre a esquerda radical durante o PREC, sumarizada à data por César de Oliveira: “as classes dominantes em Portugal só têm uma saída: um regime autoritário, centralizado e fortemente repressivo, capaz de garantir a estabilidade política e uma ‘paz social’ que lhes permita reconverter a estrutura económica dependente da exploração colonial, da divisão internacional do trabalho, da própria existência de fascismo.”

O determinismo económico comanda assim uma análise onde a solução do fascismo é uma sombra da própria estrutura produtiva, com o Estado à superfície. Uma solução que se transforma ainda em mecânica política perante o abalo do poder – as liberdades de abril à mercê das da reação bombista.

Acontece que, com os últimos cartuchos de Spínola, não se queimou apenas o projeto de uma transição bonapartista do antigo regime, mesmo que intranquila. A ideia de que Portugal poderia manter o mesmo modelo económico e social esfarelou-se perante as próprias evidências políticas: a sublevação de uma parte significativa do aparelho de Estado – as chefias intermédias do exército – e a súbita torrente popular de apropriação impossibilitavam uma manutenção dos moldes de exploração e dominação. Daí que, para o determinismo económico, a burguesia só tivesse como possibilidade o caminho do autoritarismo, assente num revigorado centro de repressão política e militar.

A reacomodação do Estado, abalado no seu poder centralizador, exigia novas soluções. A aposta no MFA como centro de uma transição segura e respeitável mereceu o apoio do PS e do PCP, num jogo de influências que ditaria o equilíbrio futuro. Exaurida esta via, o 25 de novembro inaugura o novo período de estabilização. Ao longo de uma década e meia, o sistema económico permanecerá sob forte intervenção estatal, com uma classe dominante ainda diminuída e sem condições políticas e financeiras para tomar posse de empresas públicas concentradas e de grande dimensão. O Estado assume a gestão do sistema económico e o seu papel histórico de incubador e protetor da burguesia portuguesa. É sob a direção estatal que se opera a reconstituição da burguesia.

Tal como mostra a investigação de Os Donos de Portugal (2010), a recomposição e o poder da burguesia em Portugal não se estabeleceu a partir da inflexão autoritária do novo regime, antes partiu da instalação de uma democracia parlamentar com ampla hegemonia do campo político que conseguiu reivindicar as bandeiras da democratização e da modernização.

A burguesia soube abrir outras vias: a sinecura do Estado na gestão da economia. Esta solução contou com uma legitimidade política que tem no complexo processo de conquistas populares a sua força e as suas principais contradições. Quer isso dizer que o regime do pós-25 de Abril interrompeu e digeriu as fugazes expressões do “poder popular” do PREC – ocupação de casas, fábricas e campos, auto-organização dos soldados e democracia direta – inscrevendo-as na mistificação de uma democracia que foi quase sempre alternância.

De forma a avançarmos na compreensão dessa recomposição apresentamos, sob um prisma particular, dois processos centrais destes quarenta anos, que tiveram no Estado e no seu aparelho o centro propulsor – o restabelecimento do capital rentista pelos processos de privatização e a coerência da estratégia da classe dominante através da colonização da representação política pelo trânsito entre o poder executivo e os negócios.

Concentrar e privatizar: os rentistas

O rentismo é a marca do ciclo privatizador português das últimas duas décadas. A reconstituição dos grupos económicos depois das nacionalizações baseou-se em dois pilares essenciais: a concentração bancária e o acesso a monopólios estratégicos convertidos em rendas garantidas, na energia, nas telecomunicações, em infraestruturas rodoviárias. Na definição dos sectores com maior acumulação e poder, tem também relevo aquilo a que chamamos rendas especiais. A primeira é o negócio imobiliário, um sistema de acumulação acelerada, baseado em capital fictício e protegido pelo resgate estatal. Outra dessas rendas é a que resulta das parceiras público-privado, que geram uma enorme dívida para várias gerações.

A presente fase do processo privatizador, em que a alienação de bens públicos se faz, sobretudo, a favor do capital estrangeiro, liga-se precisamente às dificuldades geradas por estes dois tipos de rendas especiais, nomeadamente pelo fim da bolha do crédito fácil e pela insustentabilidade das PPP. As teias pelas quais se teceu este processo largo de transferência de propriedade e redefinição das relações económicas estão detalhadamente identificadas em Os Donos de Portugal (capítulo VI). Neste breve apontamento salientamos particularmente a metamorfose da propaganda governamental na apresentação deste longo ciclo de privatizações, que nos diz muito da capacidade de representação da burguesia portuguesa.

Dez anos depois de terminado o período revolucionário, tem início o longo consulado de Cavaco Silva. O ciclo privatizador inicia-se sob o signo da diminuição da dívida pública. Cavaco e Cadilhe avançam cautelosamente, argumentando com a necessidade de receita e começando por sectores não-estratégicos: a cervejeira Unicer, o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias. Cá e lá fora, o ambiente político (Portugal está na CEE desde 1986; a guerra fria termina em 1989) é favorável à ofensiva dos ideólogos do mercado, nomeadamente nos media. A boa procura registada nas primeiras privatizações mostra que a marcha pode ser acelerada.

Na privatização de 20% do JN em 1991, Américo Amorim organiza uma “cooperativa de editores” para controlar a quota reservada a profissionais do sector. Como o Expresso recorda em reportagem, Cavaco comenta o assunto e diz que não acredita que Amorim se envolva num negócio tão pequeno nas vésperas de privatizações grandiosas como a da Petrogal. Entretanto, o primeiro-ministro já escolhera outro dono para o DN e o JN, uma velha família representada pelo coronel Luís Silva, marido da herdeira de João Bordalo, o co-fundador do BPA nos anos 1940, com Cupertino de Miranda, e da Covina, com Tomé Feteira (E, 2.2.2013).

Com efeito, Amorim será um dos parceiros da sociedade Petrocontrol, vencedora da primeira fase de privatização da Petrogal em 1992. Ali se encontram também, sob a presidência de Freitas do Amaral, grande parte do capital de então: os Espírito Santo, Patrick Monteiro de Barros, Champalimaud, Belmiro e, claro, os teimosos Mello. Os seus 25% da petrolífera serão vendidos oito anos mais tarde aos italianos da ENI, com mais-valias de 520 milhões de euros, isentadas de impostos por um favor especial do ministro Pina Moura, do PS.

Ao longo de mais de 15 anos, a propaganda governamental sobre as privatizações assentou na retórica do “capitalismo popular” e da “manutenção dos centros de decisão nacionais”.  A primeira teve concretizações caricaturais - como as cooperativas de jornalistas montadas por Amorim - mas tratou-se, sobretudo, de uma fraude política concretizada de forma massiva. E se, nas primeiras privatizações, nunca foi muito expressiva a parte efetivamente subscrita por pequenos investidores, trabalhadores ou emigrantes, este discurso atinge o apogeu na primeira fase de privatização da EDP por António Guterres, que mobilizou 800 mil compradores, ou 8% da população portuguesa, com os bancos a emprestar dinheiro a centenas de milhar de cidadãos. Enquanto as ações se valorizam, os seus titulares integram esquemas de procurações em massa, que criam maiorias acionistas dominadas pelos intermediários bancários deste “capitalismo popular”. Por fim, atingido o prazo em que os seus titulares as podem vender, as ações dispersas rapidamente se concentram nas mãos de grandes grupos.

Quanto à retórica da preservação dos “centros de decisão nacionais”, ela apoiou um objetivo muito concreto: garantir a boa proteção dos grupos capitalistas portugueses no acesso às empresas em privatização. Desde logo, na venda das seguradoras e bancos públicos. Em mãos privadas, a entrega de seguradoras funcionou como reforço financeiro para capacitar os grupos portugueses para a fase seguinte, a da compra dos bancos. Assegurado o músculo financeiro pela propriedade bancária, os grupos económicos vão depois lançar-se na apropriação de valiosas rendas e monopólios.

Mas, ao fim de poucos anos, a grande “decisão” que muitos destes “centros” acabam por tomar é a realização de grandes mais-valias através da venda a grupos estrangeiros das mesmas empresas estratégicas cuja propriedade “nacional” prometiam garantir para todo o sempre. Uns atuaram desde o primeiro momento como meros testas-de-ferro daqueles interesses externos, outros como proprietários intercalares, enquanto se criavam as condições políticas e o sistema se adaptava à estratégia de uma burguesia com mais pressa em realizar proveitos fáceis do que em desenvolver grupos empresariais. E todos beneficiaram destas operações.

Já o atual ciclo privatizador, como adiante assinalamos, distingue-se profundamente dos anteriores. Simplesmente desaparecem todos os vestígios da velha ideologia privatizadora, que evocava o “capitalismo popular”. A hegemonia neoliberal do Consenso de Washington reconverte-se depois da falência dos gigantes financeiros de Wall Street e da Europa e depois do seu resgate pelos cofres públicos. Essa hegemonia é mais dura e mais pesada e recorre a temas obsessivos, como a ideia de que “vivemos acima das nossas possibilidades” ou de que é preciso “vender os anéis”, apresentando assim a privatização como parte de um ajustamento anunciado.

Entre política e negócios: quem representa quem?

“Em tempos normais, a estabilidade do sistema é um dado adquirido […] mas em tempos de crise, como este que vivemos [...] é preciso diminuir a tensão, desanuviar o confronto e encontrar-se terreno comum para fazer o sistema funcionar.” Esta declaração do chairman do Banif (Lusa, 04.03.2014), banco que contou com os fundos de recapitalização do empréstimo da troika, é reveladora, mais pelo seu autor do que pelo seu conteúdo, do trânsito existente entre a política e os negócios em Portugal. Luís Amado começou a sua carreira política na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, transitando posteriormente para a Assembleia da República. Foi depois Secretário de Estado nos governos de António Guterres e duas vezes Ministro com José Sócrates. Após 27 anos de experiência política e executiva (pertenceu ao secretariado nacional do PS), assumiu as rédeas de um dos grandes bancos portugueses.

O caso de Amado não é único, a assimilação de ex-governantes por parte da burguesia financeira constitui um dos traços definidores do atual regime de dominação. Em Os Burgueses[2] estudamos esses percursos um a um, totalizando um quadro geral dos 776 Ministros e Secretários de Estado dos 19 governos constitucionais. Dessa análise destacam-se três tendências dominantes que nos ajudam a perceber os meios pelos quais se opera a reprodução do poder da burguesia no campo político.

1. A ligação empresarial é a regra. Do universo total de governantes, mais de metade (415) estabeleceram, antes ou depois de passar pelo governo, um vínculo relevante às empresas e às suas administrações. Essa ligação é mais intensa no PSD e no CDS, mas o PS não se distancia: metade dos governantes do PS e dois terços dos do PSD e CDS circularam entre os governos e lugares de direção em grandes empresas. São, deste ponto de vista, redes orgânicas da burguesia.

2. A finança comanda. Estas ligações variam em grau de responsabilidade dos governantes e na dimensão das empresas, mas há um centro de comando: a finança. São 230 (um terço de todos os governantes) que transitaram da finança para o governo ou que saíram do governo para a finança. O PSD lidera, uma vez mais, com 102 governantes, seguido pelo PS, com 75. Para tal contribui o facto de os governos de Cavaco Silva, a era dourada das privatizações na finança, ter mais de metade dos seus Ministros e Secretários de Estado neste trânsito. A finança é o centro nevrálgico do capitalismo português, onde a burguesia assenta a sua dominação económica e produz os seus quadros mais importantes.

3. PS e PSD não são iguais. Os dois maiores partidos no seu conjunto ditam a tendência de recrutamento dos governantes. Estes são originários, na sua maioria, de cargos públicos exercidos na esfera do Estado, com grande ênfase para as empresas públicas, universidades e o parlamento. A cooptação de ex-governantes pelas empresas é mais frequente do que a indicação pelos governos de quadros do setor privado. Mas dentro dessa tendência, PS e PSD diferenciam-se na constituição da sua rede de influência. O PSD é o partido orgânico da burguesia portuguesa, pois é hegemónico nas ligações aos grandes grupos económicos[3] e às empresas do PSI20, com 90 e 68 governantes respectivamente. Em conformidade, o PSD recruta com mais intensidade no sector privado do que o PS, privilegiando o passado empresarial dos seus governantes. O PS segue um padrão distinto, pois recruta mais quadros públicos e professores universitários, apresentando também um equilíbrio maior em termos de governantes com e sem ligações nos seus governos. Não obstante, o PS lidera a rede de influência em alguns sectores da economia – sendo o caso do imobiliário e construção (41 governantes) o mais notório – e em grupos poderosos, como é o caso da PT (14 governantes). O PS é um partido determinante para a expansão e reprodução da burguesia.

Saber durar:  A burguesia na era da troika

Destacamos atrás dois processos fundamentais para a recomposição da burguesia portuguesa. O rentismo como base para uma organização parasitária do Estado que se alimenta pelos processos de privatização e monopolização dos sectores de baixa produtividade, da construção, distribuição e imobiliário. A colonização da representação política a partir da assimilação de governantes de modo a manter uma coerência política e estratégica na depredação dos recursos nacionais e na exploração do trabalho.  Os impactos da crise financeira e o novo acorde de regime, a austeridade, vieram abalar esta dinâmica combinada do domínio burguês.

A atual fase de privatizações corresponde a uma agenda determinada em grande medida pelo capital financeiro do centro da Europa, credor dos bancos portugueses e cujos interesses são interpretados pela estratégia da troika, através da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Em termos de disputa da propriedade, os grupos económicos nacionais são atores menos que secundários. E a própria receita das privatizações é escoada do país por dois canais: de forma imediata, pelo pagamento da dívida; no longo prazo, pela perda permanente pelo Estado, a favor de grupos estrangeiros, de rendas monopolísticas (ANA, CTT) e de outros recursos importantes, não só pela sua rentabilidade como pela sua presença internacional (Cimpor, EDP, TAP).

Alguns dos grandes grupos económicos portugueses mantêm uma forte componente bancária que os leva a favorecer o “resgate”, dado que este converte dívida privada em dívida do Estado. Vários destes grupos beneficiam da capitalização estatal direta (injeção de capital) ou indireta (financiamento do BCE e especulação com a dívida pública). São, portanto, ganhadores, ainda que secundários, neste processo.  Concomitantemente, a entrada de capital estrangeiro, direcionado, sobretudo para a finança, estabelece-se em aliança com sectores do capital nacional. A entrada e domínio de Isabel dos Santos na ZON e a entrega da EDP ao capital chinês são exemplos maiores desta partilha determinante para a sobrevivência da burguesia portuguesa.

O esforço político a que este processo obriga deixa ainda à vista uma intensificação do transito de influências. Em plena crise diplomática luso-angolana, Paulo Pereira Coelho, ex-secretário de Estado da Administração Local de Durão Barroso e mais tarde administrador da Finertec (já com domínio angolano), é enviado a Luanda como consultor diplomático em sinal de apaziguamento [4]. Eduardo Catroga, homem de confiança dos Mello e ex-ministro cavaquista, negoceia pelo PSD o programa da troika que dita a privatização restante da EDP para logo em seguida ser nomeado chairman da Elétrica portuguesa.  José Luís Arnaut, Ministro imediato de Barroso, assessora juridicamente as privatizações dos CTT e ANA para de pronto alcançar lugares de destaque na VINCE e Goldman Sachs, vencedores nos dois processos. Luís Amado e Jaime Gama, destacados dirigentes socialistas, ocupam posições na banca em dificuldade, Banif e BES respectivamente.  Miguel Relvas permanece na sombra, laborando para a prosperidade do “triângulo dourado” entre Portugal, Brasil e Angola.

Saber durar é a marca distintiva da burguesia portuguesa na era da troika. Os laços com o capital angolano, o apoio à austeridade como mecânica da destruição dos salários e dos serviços públicos, a adesão aos novos ditames do poder europeu, formam a base sobre a qual se sustenta esta estratégia.  Uma transformação profunda nas suas relações de reprodução, que continuará a decorrer nos próximos anos. Tempo no qual, conhecer este poder continuará a ser a primeira condição para o derrotar.


[1] LOUÇÃ, Francisco (1984), Ensaio para uma revolução, Lisboa: Caderno Marxistas.

[2] LOUÇÃ, Francisco; LOPES, João Teixeira; COSTA, Jorge(2014), Os Burgueses, Lisboa: Bertrand.

[3] Mello, Champalimaud, BES, BCP, Santander, Mota-Engil, PT, BPI, CGD, SONAE, Jerónimo Martins e Amorim.

[4] LOUÇÃ, Francisco; LOPES João Teireixa; COSTA, jorge (2014), Os Donos Angolanos de Portugal, Lisboa: Bertrand.  

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