ONU alerta que crise climática “não é neutra em termos de género”

12 de outubro 2023 - 14:37

Relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) assinala que apenas um terço dos países com planos para a crise climática incluem acesso a serviços de saúde sexual, materna e neonatal.

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Foto de UNICEF Ethiopia, Flickr.

Dos 119 países que publicaram planos, apenas 38 incluem o acesso a contracetivos, serviços de saúde materna e neonatal e apenas 15 fazem qualquer referência à violência contra as mulheres, de acordo com um relatório publicado esta terça-feira pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pela Universidade Queen Mary de Londres, e citado pelo The Guardian.

No documento, que alerta que o aumento das temperaturas tem sido associado a problemas de saúde materna e a complicações durante a gravidez, como diabetes gestacional, e que o calor extremo tem sido associado ao desencadeamento de partos prematuros e ao aumento de nados-mortos, apela a que mais países reconheçam o impacto desproporcional da crise climática nas mulheres e raparigas e tomem mais medidas.

O relatório aponta ainda que a crise climática exacerbou as desigualdades existentes. Na África Oriental e Austral, por exemplo, os ciclones tropicais danificaram as instalações de saúde, perturbando o acesso aos serviços de saúde materna e ajudando a espalhar doenças transmitidas pela água, como a cólera. Acresce que os furacões e as secas aumentam os riscos de violência baseada no género e de casamento infantil, uma vez que as famílias mais fragilizadas são menos capazes de apoiar as filhas e procuram casá-las.

Angela Baschieri, conselheira sobre população e desenvolvimento do UNFPA e uma das autoras do relatório, frisou que, “se olharmos para o plano de ação para mulheres e raparigas, os planos nacionais mostram que há mais trabalho que poderia ser feito”.

“Sabemos que as alterações climáticas afetam desproporcionalmente as mulheres e não são neutras em termos de género, por isso é necessário abordar essas lacunas e impactos”, continuou.

O relatório destacou os países que estão a tomar medidas. Paraguai, Seicheles e Benim especificaram a necessidade de construir sistemas de saúde resistentes ao clima, permitindo às mulheres dar à luz com segurança e ter acesso aos serviços de saúde. Nove países, incluindo El Salvador, Serra Leoa e Guiné, incluíram políticas ou intervenções para abordar a violência baseada no género. Apenas a Domínica mencionou a necessidade de contraceção, apesar das evidências de interrupções nos serviços de planeamento familiar durante catástrofes relacionadas com o clima. O Vietname é o único país que reconhece que o casamento infantil ocorre com mais frequência em tempos de crise, à medida que as famílias procuram reduzir os seus encargos económicos.

“O clima está a atrasar-nos na luta pela igualdade de género. O nosso objetivo seria garantir que a política climática reconheça o impacto diferencial sobre as mulheres e o leve em consideração na conceção da política”, disse Baschieri.