Ocupação do Parque Florestal da casa da Ínsua

26 de janeiro 2017 - 17:48
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A inauguração da abertura ao público da mata florestal, foi feita no último domingo de julho de 1976, com início às 15 horas, com a presença de todas as pessoas que desejaram participar quantificando umas largas centenas. Por José Bernardino.

Na foto: Casa da Ínsua.

Gostaria de iniciar a descrição desta magnífica acção Revolucionária dizendo que ínsua é o nome da Freguesia de Penalva do Castelo. Penalva do Castelo é o concelho de que fazem parte todas as suas freguesias, incluindo a freguesia da Ínsua.

Dito isto, passamos aos factos, e como vivíamos um período revolucionário, era motivo de grandes preocupações a nível nacional, a ocupação de casas devolutas e entregá-las a quem delas tivesse necessidade vital, ocupação de terras abandonadas para que delas os trabalhadores produzissem bens alimentares para o seu sustento e das suas famílias e, a criação de postos de trabalho, para aqueles que se encontravam no desemprego e na miséria e outras mais-valias no domínio do lazer.

Com esta visão em mente decidiu o G.D.U.P. de Viseu “Grupo Dinamizador de Unidade Popular do distrito de Viseu” ocupar a mata florestal da casa da Ínsua, que para além de poder ser visitada por quem desejasse livremente fazê-lo, proporcionar aos seus visitantes apreciáveis momentos de distração, com harmonia, e no entendimento máximo de todas as regras de compreensão, tolerância, respeito mútuo no cumprimento absoluto dos princípios Democráticos e Revolucionários.

Vou mencionar alguns dos nomes que ainda não esqueci e que fizeram parte da já referida Organização:- José Bernardino, Luís Cabral, Fernando Laires, Octávio Martins, Adelino de Sousa, Chico Anarca, Fernando Silva, Joaquim Russo, Francisco Sobral, António Bastos, Gaspar Costa, António Cabanas, Virgílio Tadeu, João Coelho, José Néri e José Maria. Outros e principalmente outras, os primeiros que não recordo e as segundas porque não quero fazer referência.

A inauguração da abertura ao público da mata florestal, foi feita no último domingo de julho de 1976, com início às 15 horas, com a presença de todas as pessoas que desejaram participar quantificando umas largas centenas.

A marcha saiu em frente do edifício da Câmara Municipal de Penalva do Castelo, á frente da qual se, colocava a Banda Filarmónica de Penalva do Castelo, seguindo-se os principais organizadores ladeando o Senhor Presidente da Câmara (JOSÉ FORTUNATO) e logo atrás toda a multidão, que calcorreou um espaço de cerca de mil e quinhentos metros, que se aglomerou á entrada da Mata.

Procedeu-se á abertura simbólica do portão, o Povo entrou, conviveu, bailou até às tantas da manhã, num ambiente de grande alegria e amizade, convívio sempre abrilhantado pelas magníficas músicas muito diversificadas, que só a Banda de Penalva sabe. Claro que também se ouviu o Grândola Vila Morena e por diversas vezes.

Durante o tempo que durou a ocupação do parque, foram milhares as pessoas que o visitaram, não apenas do concelho de Penalva, Sátão, Mangualde e Vila Nova como também de diversas partes do país tais como— Covilhã, Marinha Grande, Lisboa, Porto, Coimbra, Viana do Castelo, Torres Novas, Barcelos, Setúbal, Barreiro e tantas outras que não conseguimos identificar.

O horário de visita foi marcado do nascer ao por do sol, sem grande rigidez, de forma absolutamente gratuita, estando sempre presentes dois responsáveis, que normalmente acompanhavam os visitantes.

Para além das visitas acompanhadas, também se organizavam piqueniques, quase sempre abrilhantados por alguns elementos da Banda (aqueles que estavam mais disponíveis). Quanto aos elementos da Banda Filarmónica de Penalva do Castelo que foram sempre todos inexcedíveis, gostaria aqui de destacar com todo o mérito os Irmãos Frade e o Silva, que estiveram presentes quase sempre nas principais animações.

Os portões foram-se mantendo abertos, sempre controlados por uma ou outra pessoa, até ao escurecer, momento em que eram encerrados.

Passados alguns tempos começam a aparecer problemas com alguma gravidade, que foi sendo travada numa primeira fase sem criar roturas entre os organizadores, problemas que se vieram a agravar, no momento em que tivemos conhecimento de que se discutia já com posições muito estremadas, nomeadamente com interesses pessoais em dividir o espaço ocupado, para ali poderem construir habitações. Foram alguns os que se manifestaram interessados.

Criou-se um clima de revolta, com posições muito extremadas, mas como eu dispunha de um amplo apoio, tornou-se fácil controlar a situação e tudo regressa á normalidade, mas as sequelas ficaram para depois.

A Senhora Dona Cristina, dona da casa da ínsua, teve conhecimento das desinteligências existentes no sei do grupo e conhecia também as minhas posições.

Como tinha ficado com muito boa impressão a meu respeito, desde que falharam

as negociações para que eu ficasse responsável pelas atividades agro pecuárias das suas propriedades na ínsua, (como referi em outro contexto), fez-me chegar uma carta a solicitar um encontro em sua casa tão breve quanto possível, o que veio a acontecer rapidamente.

Fiquei perplexo, não pelo afago com que fui recebido, pois tratava-se de uma Senhora muito inteligente e de uma delicadeza sem limites mas sim pelo conhecimento que ela tinha das coisas que se estavam a passar. Começou por criticar a ocupação aceitando de algum modo o que tinha acontecido, dado o momento revolucionário que se estava a viver, mas louvou de uma forma muito sentida, a posição por nós assumida, por não termos deixado cometer abusos, uma vez que a ocupação tinha sido feita pelo Povo e para o Povo.

A Senhora Dona Cristina sabia que a comissão Pró. Bombeiros de Penalva do Castelo pretendia comprar uma casa em ruinas, localizada precisamente onde hoje se encontra o quartel dos Bombeiros de Penalva, casa essa que era pertença da casa da ínsua e a Dona Cristina terá dito que a não venderia por dinheiro algum. Perguntou-me se eu conhecia a pretensão da referida Pró-comissão dos Bombeiros, ao que eu respondi afirmativamente.

Como estávamos sintonizados e a par do que se estava a passar, fez-me a seguinte proposta: - Se o Senhor me devolver as chaves dos portões da mata, nós oferecemos a casa destinada á instalação do edifício para os Bombeiros Municipais. Qual foi a minha resposta? Disse-lhe que pela minha parte lhe entregaria já as chaves, mas que primeiro teria que consultar os meus Camaradas. Voltarei em breve com uma resposta definitiva… Aqui tem as chaves minha Querida Senhora.

Artigo de José Bernardino