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O vírus capitalista do cansaço incessante

A sociedade neoliberal é a sociedade do cansaço fundamental. A Covid-19 aprofunda as suas falhas sociais patológicas. O coronavírus podia ser chamado de vírus do cansaço. Mas também pode ser visto como um apelo a mudar de vida, mudando radicalmente a sociedade. Por Byung-Chul Han.
Ilustração de Sara Wong em Outras Palavras.
Ilustração de Sara Wong em Outras Palavras.

A Covid-19 é um espelho que reflete em nós as crises da nossa sociedade. Ela torna os sintomas patológicos — que já existiam antes da pandemia — mais visíveis. Um desses sintomas é o cansaço. Todos nós, de uma forma ou outra, nos sentimos muito cansados. É um cansaço fundamental que nos acompanha todo o tempo e em todos os lugares, como a nossa própria sombra. Durante a pandemia, temo-nos sentido ainda mais cansados. A ociosidade, que o confinamento nos impõe, faz-nos ficar mais cansados. Algumas pessoas afirmam que é possível descobrirmos a beleza do lazer e que a vida pode desacelerar. Na verdade, o tempo durante a pandemia não é governado por lazer ou desaceleração, mas por cansaço e depressão.

Porque nos sentimos tão cansados? Hoje, o cansaço parece ser um fenómeno global. Há dez anos, publiquei um livro, A Sociedade do Cansaço, no qual descrevia o cansaço como uma doença que aflige a sociedade neoliberal do sucesso. O cansaço que experimentamos durante a pandemia fez-me pensar no assunto novamente. O trabalho, por mais difícil que seja, não provoca um cansaço fundamental. Podemos estar exaustos depois do trabalho, mas esse cansaço não é o mesmo que o cansaço fundamental. O trabalho, em determinado ponto, acaba. A compulsão de realização à qual nos sujeitamos vai para além desse ponto. Está connosco nas horas de lazer, atormenta-nos até durante o sono e, muitas vezes, faz-nos passar noites sem dormir. Não é possível recuperar-se da compulsão de realização. É essa pressão interna, especificamente, que nos cansa. Portanto, há uma diferença entre cansaço e exaustão. O tipo certo de exaustão pode até nos livrar do cansaço.

Distúrbios psicológicos como a depressão ou o esgotamento (burnout) são sintomas de uma profunda crise de liberdade. São um sinal patológico, e indicam que a liberdade de hoje muitas vezes acaba por virar compulsão. Achamos que somos livres. Mas, na verdade, exploramo-nos intensamente até colapsar. Realizamo-nos e otimizamo-nos até à morte. A lógica traiçoeira do sucesso obriga-nos a anteciparmo-nos permanentemente. Sempre que alcançamos alguma coisa, queremos mais, ou seja, queremos estar mais uma vez à frente de nós mesmos. Mas, obviamente, é impossível ultrapassar-se a si próprio. Essa lógica absurda acaba por levar a um colapso. O sujeito do sucesso acredita que é livre, quando na verdade é um escravo. É um escravo absoluto na medida em que se explora voluntariamente, mesmo sem a presença de um senhor.

A sociedade neoliberal do sucesso torna essa exploração possível mesmo quando não há dominação. A sociedade disciplinar, com os seus mandamentos e proibições, que Michel Foucault expôs em seu livro Vigiar e Punir, não descreve essa sociedade atual do sucesso. A sociedade do sucesso explora a própria liberdade. E a auto-exploração é mais eficiente do que a exploração comandada por outros, porque ela anda de mãos dadas com um sentimento de liberdade. Kafka expressou com grande clareza o paradoxo da liberdade do escravo que acredita ser o senhor. Num dos seus aforismos, ele escreve: “O animal arranca o chicote do seu dono e chicoteia-se para tornar-se o seu próprio amo, sem saber que isso não passa de uma fantasia produzida por um novo nó na chicotada do amo”. Esta auto-flagelação permanente deixa-nos cansados e, em última análise, deprimidos. De certa forma, o neoliberalismo baseia-se na auto-flagelação.

O mais sinistro sobre a Covid-19 é que aqueles que apanham a doença sofrem exatamente de cansaço e esgotamento extremos. A doença parece simular um cansaço fundamental. E há cada vez mais relatos de pacientes que se recuperaram, mas que continuam a sofrer de sintomas graves a longo prazo, entre eles, a “síndrome da fadiga crónica”. Uma expressão que descreve isso muito bem é: “as pilhas já não carregam”. As pessoas afetadas não são mais capazes de trabalhar e ter algum desempenho. Precisam fazer um esforço até para servir-se de um copo de água. Ao caminhar, precisam fazer paragens frequentes para recuperar o fôlego. Sentem-se mortos-vivos. Um paciente relata: “A sensação é como se tivesse o telemóvel com apenas 4% de bateria, e realmente só se tem esses 4% para o dia inteiro e não se pode recarregar”.

Mas o vírus não cansa apenas as pessoas que têm ou tiveram Covid. Agora, ele gera cansaço até nas pessoas saudáveis. No seu livro Pandemic! Covid-19 Shakes the World, Slavoj Žižek dedica um capítulo inteiro à pergunta: “Porque estamos cansados todo o tempo?” Claramente, Žižek também sente que a pandemia nos deixou cansados. Neste capítulo, o autor discorda da ideia do meu livro, A Sociedade do Cansaço, argumentando que a exploração por terceiros não foi substituída pela auto-exploração, foi apenas transferida para países do Terceiro Mundo. Concordo com Žižek que esta transferência ocorreu. A Sociedade do Cansaço refere-se principalmente às sociedades neoliberais ocidentais e não à situação do operário chinês. Mas, com ajuda das redes sociais, a forma de vida neoliberal também se está a expandir no Terceiro Mundo. A ascensão do egoísmo, da atomização e do narcisismo na sociedade é um fenómeno global. As redes sociais fazem de todos nós produtores, empreendedores cujas vidas são o negócio. Globalizam a cultura do ego que corrói a comunidade, corrói tudo o que é social. Produzimo-nos e colocamo-nos em exposição permanente. Essa auto-produção, essa contínua “exibição em montra” do ego, deixa-nos cansados e deprimidos. Žižek não aborda este cansaço fundamental, que é característico dos nossos tempos e que foi agravado pela pandemia.

Žižek parece, numa passagem do seu livro pandémico, apoiar a tese da auto-exploração ao escrever: “Elas [as pessoas que trabalham em casa] poderão ter ainda mais tempo para ‘explorar-nos a nós próprios’ [sic]”. Durante a pandemia, o campo de trabalho neoliberal ganhou um novo nome: home office. Trabalhar em casa é mais cansativo do que trabalhar no escritório.

No entanto, isso não pode ser explicado em termos de aumento da auto-exploração. O que é cansativo é a solidão envolvida, o interminável sentar-se de pijama na frente do computador. Somos confrontados com nós mesmos, compelidos constantemente a meditar e especular sobre nós mesmos. Em conclusão, o cansaço fundamental é um tipo de cansaço do ego. O escritório doméstico intensifica isso, envolvendo-nos ainda mais profundamente connosco. Fazem falta outras pessoas, que poderiam distrair-nos do nosso ego. Cansamos por falta de contacto social, de abraços, de toque corporal. Em condições de quarentena, começamos a perceber que talvez as outras pessoas não sejam o “inferno”, como escreveu Sartre em Sem Saída, mas a cura. O vírus também acelera o desaparecimento do outro, como descrevi em A Expulsão do Outro.

A ausência do ritual é outra razão para o cansaço induzido pelo home office. Em nome da flexibilidade, estamos a perder as estruturas e arquiteturas temporais fixas que estabilizam e revigoram a vida. A ausência de ritmo, em particular, intensifica a depressão. O ritual gera comunidade mesmo sem necessidade de comunicação, enquanto que hoje prevalece a comunicação sem comunidade. Mesmo aqueles rituais que ainda mantínhamos, como jogos de futebol, espetáculos e idas a restaurantes, ao teatro ou ao cinema, foram cancelados. Sem rituais de saudação, somos lançados para as profundezas de nós mesmos. Cumprimentar alguém cordialmente faz com o que nosso eu seja um pouco menos um fardo. O distanciamento social desmonta a vida social. Isso cansa-nos. As outras pessoas são reduzidas a potenciais portadoras do vírus, das quais devemos manter uma distância física. O vírus amplifica as nossas crises atuais. Está a destruir a comunidade que já estava em crise. Isso afasta uns dos outros. Isso torna-nos ainda mais solitários do que já éramos nesta era de redes sociais que reduzam o social e nos isolam.

A cultura foi a primeira coisa a ser abandonada durante o confinamento. O que é a cultura? Ela gera comunidade! Sem ela, não passamos de animais querendo apenas sobreviver. Não é a economia, mas sobretudo a cultura, a chamada vida comunitária, que precisa se recuperar desta crise o mais rápido possível.

As constantes reuniões de Zoom também nos deixam cansados. Transformam-nos em zombies do Zoom. Obrigam-nos olhar-nos permanentemente ao espelho. Olhar para o próprio rosto no ecrã é cansativo. Somos continuamente confrontados com os nossos próprios rostos. Ironicamente, o vírus apareceu justamente nos tempos da selfie, moda que pode ser explicada como decorrente do narcisismo de nossa sociedade. O vírus intensifica esse narcisismo. Durante a pandemia, todos nós somos constantemente confrontados com os nossos próprios rostos; produzimos uma espécie de selfie sem fim à frente dos nossos ecrãs. Isso cansa-nos.

O narcisismo do Zoom produz efeitos colaterais peculiares. Ele levou a um boom nas cirurgias estéticas. Imagens distorcidas ou manchadas no ecrã levam as pessoas ao desespero, enquanto se a resolução do ecrã for boa, de repente detetamos rugas, calvície, manchas hepáticas, olheiras e outras imperfeições da pele pouco atraentes. Desde o início da pandemia, as pesquisas no Google por cirurgia estética dispararam. Durante o confinamento, os cirurgiões plásticos foram inundados com perguntas de clientes que buscavam melhorar a sua aparência cansada. Fala-se até de uma “dismorfia do Zoom”. O espelho digital incentiva essa dismorfia (a preocupação exagerada com supostas falhas na aparência física).

O vírus leva ao limite o frenesim de otimização que já nos dominava antes da pandemia. Também, aqui, o vírus é um espelho da nossa sociedade. E no caso da dismorfia do Zoom, o espelho é real! Cresce em nós o puro desespero com a nossa aparência. A dismorfia do Zoom, essa preocupação patológica com os nossos egos, também nos cansa.

A pandemia também revelou os efeitos colaterais negativos da digitalização. A comunicação digital é muito unilateral e atenuada: não há olhares, não há corpos. Falta a presença física do outro. A pandemia faz com que essa forma de comunicação, essencialmente desumana, se torne a norma. A comunicação digital deixa-nos muito, muito cansados. É uma comunicação sem ressonância, uma comunicação sem felicidade. Numa reunião do Zoom, não podemos, por razões técnicas, olhar-nos nos olhos. Tudo o que fazemos é olhar para o ecrã A ausência do olhar do outro cansa-nos. Esperemos que a pandemia nos faça compreender que a presença física de outra pessoa é algo que traz felicidade, que a linguagem implica experiência física, que um diálogo bem-sucedido pressupõe corpos, que somos criaturas físicas. Os rituais que temos perdido durante a pandemia também implicam experiência física. Representam formas de comunicação física que criam comunidade e, portanto, trazem felicidade. Acima de tudo, afastam-nos dos nossos egos. Na situação atual, o ritual seria um antídoto para o cansaço fundamental. O aspeto físico também é inerente à comunidade como tal. A digitalização enfraquece a coesão da comunidade na medida em que tem o efeito de desencarnar. O vírus afasta-nos do corpo.

A obsessão com a saúde já era galopante antes da pandemia. Agora, estamos basicamente preocupados com a sobrevivência, como se estivéssemos num estado de guerra permanente. Na batalha pela sobrevivência, a questão de uma vida boa não entra em jogo. Apelamos a todas as forças da vida, só para prolongar a vida a qualquer custo. Com a pandemia, esta batalha feroz pela sobrevivência sofre uma escalada viral. O vírus transforma o mundo numa enfermaria de quarentena, na qual a vida é congelada para a nossa sobrevivência.

Hoje, a saúde passou a ser o principal objetivo da humanidade. A sociedade de sobrevivência perdeu o sentido da boa vida. Até o prazer é sacrificado no altar da saúde, que se torna um fim em si. Nietzsche já a chamava de nova deusa. A proibição do cigarro também expressa a mania pela sobrevivência. O prazer tem que dar lugar à sobrevivência. O prolongamento da vida torna-se o valor mais alto. No interesse da sobrevivência, sacrificamos voluntariamente tudo o que torna a vida digna de ser vivida.

A razão exige que, mesmo em pandemia, não sacrifiquemos todos os aspetos da vida. É tarefa da política garantir que a vida não se reduza a uma vida plana, nua e crua, à mera sobrevivência. Eu sou católico. Gosto de frequentar igrejas, especialmente nestes tempos estranhos. No ano passado, no Natal, participei numa Missa do Galo que aconteceu apesar da pandemia. Isto deixou-me feliz. Infelizmente, não havia incenso, coisa de gosto muito. Perguntei-me: será que há também uma proibição estrita dos incensos durante a pandemia? Porquê? Ao sair da igreja, estendi a mão para a bacia de água benta, como de costume, e apanhei um susto ao perceber que estava vazia. Ao lado dela, foi colocado um frasco com desinfetante.

Corona blues é o nome que os coreanos deram à depressão que se espalha durante a pandemia. Em quarentena e sem interação social, a depressão aprofunda-se. A depressão é a verdadeira pandemia.

A Sociedade do Cansaço partiu do seguinte diagnóstico:

Cada era tem as suas próprias inquietações características. Assim, já existiu uma era bacteriana; no fim, ela acabou com a descoberta dos antibióticos. Apesar do medo generalizado de uma epidemia gripal, não vivemos numa era viral. Graças à tecnologia imunológica, já a deixámos para trás. Do ponto de vista patológico, o incipiente século XXI não é determinado nem por bactérias nem por vírus, mas por neurónios. Doenças neurológicas como a depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL/Borderline) e síndrome de burnout (esgotamento) marcam o panorama da patologia no início do século XXI.

Em breve teremos vacinas suficientes para vencer o vírus. Mas não haverá vacinas contra a pandemia da depressão.

A depressão também é um sintoma da sociedade do burnout. O sujeito do sucesso sofre de burnout no momento em que não é mais capaz de “ser capaz”. Falha na exigência auto-imposta de ser bem sucedido. Não ser mais capaz de “ser capaz” leva à auto-recriminação destrutiva e à auto-agressão. O sujeito do sucesso trava uma guerra contra si mesmo e morre nela. A vitória nessa guerra contra si mesmo é chamada de esgotamento.

Vários milhares de pessoas cometem suicídio todos os anos na Coreia do Sul. A principal causa é a depressão. Em 2018, cerca de 700 crianças em idade escolar tentaram-se suicidar. Os meios de comunicação social falam até num “massacre silencioso”. Em contraste, até agora apenas 1.700 pessoas morreram de Covid-19 na Coreia do Sul. A altíssima taxa de suicídio é simplesmente aceite como um efeito colateral da sociedade do sucesso. Nenhuma medida significativa foi adotada para reduzir essa taxa. A pandemia intensificou o problema do suicídio – na Coreia do Sul, a taxa de suicídio aumentou rapidamente desde o seu início. O vírus, aparentemente, também agrava a depressão. Mas em todo o mundo não se presta atenção suficiente às consequências psicológicas da pandemia. As pessoas foram reduzidas à existência biológica. Todos ouvem apenas os virologistas, que assumiram autoridade absoluta na hora de interpretar a situação. A maior crise causada pela pandemia é o facto de que a vida, sozinha, tenha virado um valor absoluto.

O vírus da Covid-19 desgasta a nossa sociedade já esgotada, aprofundando as linhas das falhas sociais patológicas. Isso leva-nos a um cansaço coletivo. O coronavírus também poderia ser chamado de vírus do cansaço. Mas o vírus também é uma crise no sentido grego de krisis, que significa um ponto de inflexão. Pois também nos pode permitir reverter o nosso destino e fugir da nossa angústia. Ela apela, com urgência: mude de vida! Mas só conseguiremos fazer isso se revermos radicalmente a nossa sociedade, se conseguirmos encontrar uma nova forma de vida imune ao vírus do cansaço.


Byung-Chul Han é um filósofo coreano-germânico, professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Artes de Berlim.

Publicado originalmente no The Nation. Traduzido por Simone Paz para o Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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