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O “thriller” (pós)eleitoral sueco

O quadro parlamentar saído destas eleições tornou ainda mais difícil a formação de um governo, aumentando a instabilidade governativa. Bloco verde-vermelho obteve vitória tangencial, alicerçada no voto feminino. Por Jorge Martins
Composição do parlamento sueco, após as eleições de 9 de setembro de 2018
Composição do parlamento sueco, após as eleições de 9 de setembro de 2018

As eleições do passado dia 9, na Suécia, foram marcadas por grande incerteza quanto aos resultados finais: de início, quanto à percentagem que a extrema-direita conseguiria atingir; depois de se perceber que, apesar de ter registado um resultado histórico, aquela ficou aquém da maioria das previsões, ficou o “suspense” de saber qual dos dois grandes blocos políticos suecos (o vermelho-verde, de centro-esquerda, e a Aliança pela Suécia, de centro-direita, vulgarmente conhecida por bloco “burguês”) seria o mais votado. Por fim, após se confirmar a vitória tangencial do primeiro, com maioria relativa, as diferentes forças políticas vão marcando o território, de forma a influenciar a formação do novo governo. Numa altura em que os policiais nórdicos estão na moda, podemos afirmar que este ato eleitoral teve contornos de um verdadeiro “thriller”.

Quem quiser conhecer o contexto em que decorreu o ato eleitoral, desde o sistema político e eleitoral sueco à história e ao ideário das principais forças políticas, terminando na conjuntura recente do país e nas perspetivas existentes antes das eleições, podem ser vistas noutro artigo da minha autoria aqui. Agora, vamos proceder a uma análise explicativa dos resultados eleitorais, através de uma adaptação aos números das eleições da sondagem à boca das urnas levada a efeito pelo instituto de sondagens Valu, ligado à universidade de Gotemburgo, para a televisão e rádio públicas da Suécia. Dado que a política sueca tem sido dominada pela existência dos dois grandes blocos acima mencionados, vamos analisar, em primeiro lugar, o desempenho de cada um deles como um todo e, posteriormente, o das forças políticas que o constituem.

Resultados eleitorais, Suécia 9 de setembro de 2018:

Partido

Votos

%

Lugares

+/−

 

Partido Social-Democrata

S

1.830.386

28,26

100

−13

 

Partido Moderado

M

1.284.698

19,84

70

−14

 

Democratas Suecos (extrema-direita)

SD

1.135.627

17,53

62

+13

 

Partido do Centro

C

557.500

8,61

31

+9

 

Partido da Esquerda

V

518.454

8,00

28

+7

 

Democrata-Cristãos

KD

409.478

6,32

22

+6

 

Liberais

L

355.546

5,49

20

+1

 

Partido Verde

MP

285.899

4,41

16

−9

 

O bloco vermelho-verde: uma vitória tangencial alicerçada no voto feminino

Considerando o bloco vermelho-verde no seu conjunto, este obteve 40,7% dos votos e elegeu 144 parlamentares, uma descida face às eleições de 2014, em que conseguira 42,5% dos sufrágios e 159 lugares no Parlamento. Com essa quebra do apoio eleitoral, o centro-esquerda viu reduzir-se a um lugar a sua vantagem sobre a aliança do centro-direita. Como veremos mais à frente, foi unicamente graças à subida do Partido da Esquerda que o bloco progressista se manteve como o mais votado, já que social-democratas e verdes, que integraram a anterior coligação governamental, sofreram quebras importantes.

Bloco vermelho-verde no seu conjunto obteve 40,7% dos votos e elegeu 144 parlamentares, uma descida face às eleições de 2014

Do ponto de vista territorial, o Grande Norte continua a ser a fortaleza da esquerda sueca, que recolhe a maioria absoluta dos sufrágios, seguida do Centro-Norte, áreas onde pontificam os social-democratas e a esquerda. Revela, ainda, forte implantação nas três grandes cidades do país, onde a relativamente menor força dos primeiros é compensada pelo maior apoio conseguido pela esquerda e pelos ecologistas. Em contrapartida, as regiões meridionais e a periferia de Estocolmo, mais ricas, são aquelas onde o bloco vermelho-verde apresenta os resultados mais fracos.

Quanto à proveniência dos seus votos em comparação com as eleições anteriores, quase 80% dos votos de há quatro anos ficaram dentro do bloco progressista. Conquistou, depois, cerca de 70% das forças políticas extraparlamentares (a esmagadora maioria da Iniciativa Feminista, que implodiu neste ato eleitoral), 6,5% dos quatro partidos “burgueses”, cerca de 5% dos abstencionistas e quase outro tanto da extrema-direita. Ao invés, perdeu 12% para o bloco conservador e 6,5% para a extrema-direita, em geral de eleitores social-democratas de 2014, já que as transferências da esquerda e dos verdes para essa área foram residuais.

Do ponto de vista etário, a esquerda segurou a sua maioria relativa graças ao apoio dos mais idosos, entre os quais garantiu 45% dos votos válidos, em grande parte fruto da implantação dos social-democratas nesta faixa etária. Segue-se o grupo dos jovens adultos, próximo da média nacional deste bloco (41%), alicerçado na força da esquerda neste grupo. Já o desempenho entre os adultos maduros (39%) e entre os mais jovens (37%) foi mais fraco, também potenciado pela derrocada dos verdes.

Em termos de género, podemos afirmar que foram as mulheres que garantiram o triunfo tangencial da esquerda. Assim, 47% destas votaram no bloco progressista, contra apenas 35% dos homens. Um dado que é bastante significativo!

Relativamente ao perfil socioprofissional dos votantes, confirmou-se a sua tradicional adesão entre os operários e os trabalhadores indiferenciados, tendo captado 47% destes, em geral votantes dos social-democratas e da esquerda, embora em menor grau que habitualmente. Daí que a sua penetração entre os empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos tenha sido quase idêntica (46%). Já a sua histórica e lógica debilidade entre os empresários e os agricultores se manteve, logrando apenas 18% dos sufrágios no seio destes.

Social-democratas: uma derrota histórica com sabor adocicado

Tal como se previa, os sociais-democratas (S) do primeiro-ministro, Stefan Löfven, foram o partido mais votado, algo que acontece sistematicamente desde 1917. Estamos, assim, em presença do partido dominante da democracia sueca. Apesar de ter recuado dos 31,0% e 113 deputados de 2014 para 28,3% e apenas 100 lugares agora, naquele que constituiu o seu pior resultado desde 1911, o certo é que, face às sondagens que lhe davam um resultado entre os 23 e os 26%, o partido sofreu uma derrota que podemos apelidar de doce, atendendo às baixas expectativas que os inquéritos de opinião lhe conferiam, considerando alguma impopularidade do executivo. Porém, a possibilidade, adiantada por alguns destes, de a formação de extrema-direita SD vir a ser a mais votada e, também, o peso histórico, social e institucional do maior partido do país em vastos setores da população terá contribuído para uma deslocação de votos em sua direção na reta final da campanha, especialmente provenientes do eleitorado mais à esquerda.

Sociais-democratas (S) do primeiro-ministro, Stefan Löfven, foram o partido mais votado, algo que acontece sistematicamente desde 1917

Do ponto de vista territorial, verifica-se que os social-democratas continuam a ser fortes nas regiões rurais, frias, isoladas e pouco povoadas do Grande Norte e do Centro-Norte, onde existem importantes explorações mineiras, a par com indústrias extrativas ou dependentes da extração de recursos naturais, e onde vive a maior parte da minoria sami. Em contrapartida, é mais fraco nas regiões mais urbanizadas do Sul e Sudoeste do país e nas áreas metropolitanas das três maiores cidades suecas (a capital, Estocolmo, Gotemburgo e Malmö). Curiosamente, foi nas duas primeiras que o partido apresentou as únicas subidas na sua votação, enquanto na terceira teve perdas insignificantes. Tal fenómeno deve-se à implosão da Iniciativa Feminista (FI), que, há quatro anos, obteve 3,1% dos sufrágios, tendo falhado por pouco a entrada no Parlamento. Agora, aquela força política foi vítima do chamado “voto útil” nos outros partidos do bloco vermelho-verde, tendo-se quedado por uns residuais 0,5%. Como a FI é, fundamentalmente, um fenómeno urbano, que, em 2014, obteve fortes votações nas três grandes cidades (entre 6 e 7%) e o S foi o principal beneficiário dessas transferências, conseguiu, com elas, mitigar as perdas ocorridas no resto do país. As maiores ocorreram tanto nas áreas onde o partido está melhor implantado (o Grande Norte) como naquelas em que é mais débil (o Sul), mas perdeu, igualmente, muitos votos no Centro e no Sudeste.

Quanto à proveniência dos seus votos em comparação com as eleições anteriores, o S conservou pouco mais de 2/3 dos seus votantes de então (68%), que só parcialmente compensou com 56% de partidos extraparlamentares (na maioria, da FI, como referimos acima), 22% dos verdes e 20% da esquerda, a que acrescem 7% dos liberais e quase outro tanto dos centristas, 4% dos conservadores e porções menores de democrata-cristãos, da extrema-direita, de abstencionistas e novos eleitores. Ao invés, perdeu 8,5% para a extrema-direita, 7,5% para a esquerda, 5% para os conservadores e pequenas percentagens para outras forças políticas.

Do ponto de vista etário, o seu melhor desempenho ocorreu entre os mais idosos (maiores de 65 anos), faixa onde recolheu 37% dos votos válidos. A sua penetração decresce à medida que a idade vai diminuindo, sendo de 26% nos adultos maduros (entre os 31 e os 64 anos), de apenas 23% e de 22% entre os jovens adultos (22 aos 30 anos) e os mais jovens (18 aos 21 anos), respetivamente. Estamos, pois, em presença de um eleitorado envelhecido.

Em termos de género, o voto nos S é maioritariamente feminino: 31% entre as mulheres contra apenas 26% nos homens.

Quanto ao perfil socioprofissional dos votantes, a sua penetração é maior entre os operários e os trabalhadores indiferenciados (35%), seguida dos empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos (31%). Em contraste, é claramente menor entre os empresários e os agricultores (12%).

Partido da Esquerda: um bom resultado com sabor a deceção

Por seu turno, o Partido da Esquerda (V), obteve importantes ganhos neste ato eleitoral, obtendo 8,0% dos sufrágios, que lhe valeram 28 mandatos, contra os 5,7% e 21 lugares de há quatro anos. Liderada por Jonas Sjöstedt, a formação da esquerda beneficiou do facto de não ter feito parte do executivo, condicionando a aprovação dos seus orçamentos à adoção de medidas favoráveis aos mais desfavorecidos, e de ser o único partido parlamentar a apresentar uma verdadeira alternativa ao neoliberalismo dominante. Apesar disso, os resultados tiveram um certo sabor a deceção, já que ficaram atrás do que previam as últimas sondagens. O V terá sido o mais afetado pela já mencionada transferência de votos de última hora para os social-democratas.

Jonas Sjöstedt, líder do Partido de Esquerda (V) sueco - Vänsterpartiet
Jonas Sjöstedt, líder do Partido de Esquerda (V) sueco - Vänsterpartiet

No que respeita à sua implantação territorial, o Grande Norte, pelas caraterísticas acima mencionadas, constitui um tradicional bastião eleitoral do partido. Contudo, nestas eleições, foi ultrapassado pelas áreas centrais das três maiores cidades do país. Ao invés, e tal como os social-democratas, é fraco no Sul e em algumas áreas do Sudoeste e Sudeste, mais ricas.

Relativamente à proveniência dos seus votos em comparação com os de 2014, o V conservou cerca de 2/3 dos seus votantes de então (67%), mas foi buscar 12,5% de eleitores aos verdes e 7,5% aos social-democratas, que foram determinantes para aumentar a sua votação, em especial nas grandes cidades. Beneficiou, ainda, mesmo que em muito menor grau que o S, da implosão da FI, obtendo 6,5% de eleitorado de outros partidos, a maioria proveniente da formação feminista. Das forças políticas de centro-direita e da extrema-direita pouco conseguiu captar. No capítulo das perdas, terá visto fugir cerca de 20% dos seus eleitores para os social-democratas e bastante poucos para outras opções de voto.

Partido da Esquerda (V) obteve importantes ganhos neste ato eleitoral, obtendo 8,0% dos sufrágios, que lhe valeram 28 mandatos, contra os 5,7% e 21 lugares de há quatro anos

Em termos etários, a sua penetração é claramente maior entre os jovens adultos, onde chegou aos 12% dos votos válidos, seguindo-se os mais jovens, com 9% e os adultos maduros, com 8%. Em contrapartida, revela menor implantação no seio dos mais idosos, onde se fica pelos 6%. Ao contrário dos social-democratas, estamos em presença de um eleitorado jovem.

Quanto ao género, o voto nos V também é maioritariamente feminino, mas de forma mais acentuada: 10% entre as mulheres e apenas 6% nos homens, numa relação de quase 2 para 1.

Do ponto de vista socioprofissional dos votantes, penetra mais facilmente no seio dos operários e trabalhadores indiferenciados e dos empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos (9% em ambos). Em contraste, e tal como os social-democratas, regista menor adesão entre os empresários e os agricultores (4%), o que não é de estranhar, atendendo ao ideário do partido.

Verdes: um desaire que os deixou pouco acima da “linha de água”

Os verdes do Partido do Ambiente (MP) foram os grandes perdedores destas eleições, tendo-se quedado nuns modestos 4,4% dos votos, pouco acima da cláusula-barreira nacional, um resultado que apenas lhes permitiram a eleição de 16 parlamentares, quando, em 2014, tinham obtido 6,9% e 25 lugares. O facto de serem o parceiro menor da coligação governamental fê-los pagar um preço elevado pela impopularidade do executivo.

Os verdes do Partido do Ambiente (MP) foram os grandes perdedores destas eleições, tendo-se quedado nuns modestos 4,4% dos votos

Quanto à distribuição territorial do seu eleitorado, as zonas centrais das três maiores urbes do país e a cidade universitária de Uppsala, na periferia norte de Estocolmo, constituem as suas áreas de maior implantação dos ecologistas. Em contrapartida, mostra-se bastante débil nas áreas rurais do Grande Norte e do Centro-Norte e, também, no conservador interior de Småland, no Sudeste. Estamos, pois, em presença de um eleitorado essencialmente urbano, algo característico das formações ecologistas progressistas.

Face ao anterior ato eleitoral, os verdes apenas conservaram pouco mais de 42% dos seus eleitores de então e quase não conseguiram captar votos noutras áreas. A única exceção são os partidos extraparlamentares, de onde foram buscar 6% do respetivo eleitorado de 2014, na sua maioria provenientes das feministas. Já as perdas são em grande número e vão em várias direções: para os social-democratas (22%), a esquerda (12,5%), os centristas (7%) e, ainda, os conservadores (5%), os liberais (4%) e, residualmente, para outras forças concorrentes e para a abstenção.

Relativamente aos escalões etários, penetra mais facilmente entre os menores de 30 anos (6%), menos nos adultos maduros (5%) e muito pouco entre os mais idosos (2%).

No que respeita ao género, o voto no MP também é, tal como nos outros partidos do bloco de centro-esquerda e esquerda, maioritariamente feminino: 6 % entre as mulheres e apenas 3% nos homens, ou seja, uma proporção de 2 para 1, a maior entre as forças políticas parlamentares.

Por fim, o grupo socioprofissional onde mostra maior penetração é o dos empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos (6%). É mais escassa tanto entre os operários e trabalhadores indiferenciados (3%) como entre os empresários e os agricultores (onde se fica pelos 2%). Uma distribuição que mostra um eleitorado, em geral, com níveis de escolaridade mais elevados.

Aliança de centro-direita: Falta de apoio nos idosos explica derrota tangencial

Considerando, agora, a aliança de centro-direita, vemos que, no seu conjunto, esta obteve 40,3% dos votos e 143 mandatos, uma pequena subida face às eleições anteriores, onde conseguiu 39,4% dos sufrágios e 141 lugares no Parlamento. A quebra dos conservadores e a quase estagnação dos liberais só muito ligeiramente foi compensada pela subida dos seus aliados centristas e democrata-cristãos, pelo que o pequeno avanço na sua votação foi insuficiente para ultrapassar o bloco adversário, ficando a 0,4% dos votos e a um lugar parlamentar desse desiderato. Ou seja, foi a extrema-direita e não a direita clássica quem beneficiou, nas urnas, da quebra de popularidade do governo de centro-esquerda.

Aliança de centro-direita obteve 40,3% dos votos e 143 mandatos, uma pequena subida face às eleições anteriores

Do ponto de vista territorial, é nas periferias ricas das três maiores cidades, em especial na capital, que a aliança liberal-conservadora consegue os melhores resultados. Obtém, ainda, resultados acima da média no centro de Estocolmo, onde quase empata com o bloco progressista. São as áreas fortes dos conservadores e dos liberais, mas é o peso dos primeiros que determina os bons desempenhos do centro-direita nessas zonas. Ao invés, o Grande Norte continua a ser um deserto eleitoral para a direita sueca, valendo a esta o facto de ser uma região pouco povoada e que, por isso, vale poucos votos. Embora em menor grau, também revela menor implantação no Centro-Norte, nas áreas centrais de Malmö e Gotemburgo (menos gentrificadas que as da capital) e em algumas zonas do Sueste.

Relativamente à proveniência dos seus votos face a 2014, cerca de 83,5% dos votos de há quatro anos ficaram dentro do bloco conservador, o que indicia que as transferências ocorreram, esmagadoramente, entre os partidos que o constituem. Conquistou, depois, cerca de 12% aos partidos do bloco vermelho-verde, 9% a forças políticas extraparlamentares, 8,5% à extrema-direita e 7,5% provenientes da abstenção e de novos eleitores. Ao invés, perdeu 8% para a extrema-direita, em geral de eleitores conservadores e democrata-cristãos de 2014, a par com alguns centristas e uns poucos liberais. Para o bloco progressista foram 6,5%, para a abstenção perto de 1,5% e para outras forças políticas pouco mais de 0,5%.

Do ponto de vista da idade, a aliança conseguiu maior penetração entre os eleitores mais jovens, entre os quais garantiu 45% dos votos válidos, fruto dos bons resultados de conservadores e centristas nesta faixa etária. Segue-se o grupo dos jovens adultos (42%), onde os primeiros mostram alguma força, e o dos adultos maduros (41%), ligeiramente acima da média nacional da aliança. Já o desempenho entre os mais idosos (37%) foi bem mais fraco e terá sido o défice de captação deste segmento do eleitorado o “calcanhar de Aquiles” do centro-direita nestas eleições. Isto explicar-se-á pela defesa de reformas regressivas na segurança social por parte dos partidos da aliança e também pela insegurança sentida por muitos destes eleitores face ao afluxo de imigrantes e refugiados. Logo, muitos mantiveram-se fiéis ao centro-esquerda, em especial aos social-democratas, e outros viraram-se para a extrema-direita.

Em termos de género, há uma maior penetração no seio do eleitorado masculino, onde o bloco liberal-conservador obtém 41% dos sufrágios, contra 39% no feminino. Apesar de tudo, neste caso, a diferença não é muito significativa.

Quanto ao perfil socioprofissional dos votantes, confirmou-se a sua tradicional penetração entre os empresários e os agricultores, ao captar cerca de 58% destes, um valor, apesar de tudo, menor que o habitual e que resulta da fuga de alguns para a extrema-direita. Já entre os empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos ficou na média nacional (41%). Por fim, manteve-se, igualmente, a sua habitual dificuldade em captar o voto dos operários e dos trabalhadores indiferenciados, conquistando apenas 27% dos sufrágios destes.

Conservadores: uma derrota penalizadora para o centro-direita

Na aliança de centro-direita, os conservadores (M) foram os únicos que sofreram perdas. Assim, desceram de 23,3% e 84 deputados em 2014 para 19,8% e 70 lugares agora. O seu fraco desempenho acabou por não permitir que o chamado bloco “burguês” ficasse à frente do vermelho-verde. A única consolação residiu no facto de continuar a ser a segunda força política do país, evitando a ultrapassagem pelos SD, da extrema-direita.

Na aliança de centro-direita, os conservadores (M) foram os únicos que sofreram perdas. Assim, desceram de 23,3% e 84 deputados em 2014 para 19,8% e 70 lugares agora

Para os fracos resultados do partido, muito terão contribuído as lutas internas que o abalaram até ao início deste ano e que culminaram na troca de líder, quando Anna Batra foi substituída por Ulf Kristersson. Alguns eleitores mais à direita terão também ficado desagradados com a sua viabilização do governo vermelho-verde, através da abstenção nos orçamentos. Daí que um número considerável de eleitores tenha fugido para outras formações do centro-direita e, em menor grau, para a extrema-direita, como veremos mais à frente.

Quanto à implantação territorial, não espanta que os conservadores, que têm a sua grande base de apoio entre a burguesia urbana e o mundo dos negócios, sejam mais fortes nas áreas metropolitanas, em especial nas periferias ricas de Estocolmo, mas também em Gotemburgo e Malmö. Em contrapartida, são relativamente débeis nas regiões rurais do Grande Norte e no Centro-Norte, onde a predominância de indústrias tradicionais, de explorações mineiras e da minoria sami, que recebe grandes apoios estatais para a criação de renas, constitui um obstáculo à adesão à mensagem liberal-conservadora. Apesar disso, e num contexto generalizado de perdas, foi na primeira daquelas regiões que registou as menores descidas percentuais, mas há que perceber que tal se deve à sua reduzida base de apoio na área. O Sudeste foi outra região onde as quebras foram menos significativas. Em contrapartida, foi, precisamente, nas grandes áreas urbanas que as quedas atingiram maior dimensão, com destaque para a capital. Então, podemos dizer que o M perdeu votos em todo o país, com destaque para as regiões onde é, tradicionalmente, mais forte.

Analisando a proveniência dos seus votos em comparação com as eleições anteriores, o partido conservou apenas cerca de 62% dos seus votantes de então, a que acrescentou cerca de 20% dos democrata-cristãos e quase outro tanto dos liberais, além de quase 12% dos centristas e, ainda, 5% dos social-democratas, bem como dos verdes e da extrema-direita. As perdas foram bem maiores, tendo deixado fugir quase 10% para a extrema-direita, outro tanto para os centristas, 6,5% para os democrata-cristãos, 5% para os liberais, um pouco menos para os social-democratas e valores residuais para outras opções de voto.

Do ponto de vista etário, os seus melhores resultados ocorreram entre os menores de 30 anos (24% na faixa dos 18 aos 21 anos e 23% na compreendida entre os 22 e os 30%). Entre os adultos fica, sensivelmente, na média nacional (20%), sendo o seu ponto fraco entre os idosos, onde se fica pelos 17%. Estamos, assim, diante de um eleitorado relativamente jovem.

Em termos de género, o voto nos M é maioritariamente masculino, embora a diferença entre os sexos não seja grande: 21% entre os homens e 19% nas mulheres.

Quanto ao perfil socioprofissional dos votantes, a sua penetração é, como seria de esperar, bastante maior entre os empresários e os agricultores, onde captou 28% dos sufrágios, muito acima da média nacional do partido. Seguem-se os empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos, próximos daquele valor (20%) e, a grande distância, os operários e os trabalhadores indiferenciados, onde sempre entrou mal, não tendo ido além dos 14%.

Centristas: líder popular alarga apoio nas áreas urbanas

Em contrapartida, o Partido do Centro (C) registou uma boa subida eleitoral, passando dos 6,1% dos votos e 22 mandatos de há quatro anos para 8,6% e 31 lugares parlamentares. Um resultado que resulta da popularidade da sua líder, Annie Lööf, que aproveitou bem a crise dos conservadores para aumentar o espaço político da sua formação.

Partido do Centro (C) registou uma boa subida eleitoral, passando dos 6,1% dos votos e 22 mandatos de há quatro anos para 8,6% e 31 lugares parlamentares

Sendo, na origem, um partido agrário, o C tem, tradicionalmente, a sua maior implantação territorial nas áreas rurais, em especial no Centro-Norte e, em menor grau, no Centro. Contudo, nestas eleições, obteve o seu melhor resultado na pequena ilha de Gotland, onde conseguiu obter um dos dois lugares a ela atribuídos, “roubando-o” aos conservadores. As cidades de Malmö e Gotemburgo, bem como a maioria das regiões urbano-industriais do Sul do país, são aquelas onde a influência dos centristas é menor. Contudo, nestas eleições, registou subidas significativas nas três maiores cidades do país e, também, na área metropolitana de Estocolmo, muito à custa dos conservadores e dos liberais. Em contrapartida, os ganhos foram menores nas regiões meridionais, com exceção das zonas urbanas acima mencionadas, e em algumas regiões rurais do Centro-Norte, curiosamente aquelas onde tem maior apoio.

Quanto à proveniência dos seus votos relativamente a 2014, o C conservou pouco mais de metade dos seus eleitores de então (54%). Porém, foi buscar 16% dos votos dos liberais, quase 10% dos democrata-cristãos, 7% dos verdes, 6% dos conservadores e percentagens menores de outras forças políticas, abstencionistas e novos eleitores. Das perdas, 11,5% dos votantes de há quatro anos fugiram para os conservadores, 10% para os democrata-cristãos, 7% para os liberais, quase tanto para os social-democratas, 6% para a extrema-direita e uns restos para outras opções, mas, tudo somado, os ganhos foram superiores e permitiram o aumento da votação no partido.

No que se refere aos grupos etários, a sua penetração foi claramente maior entre os jovens, onde atingiu os 13%, e menor entre os idosos, onde se ficou pelos 7%. Nos adultos jovens e maduros ficou nos 9% em ambos, valor próximo da média nacional. Assim, e ao contrário do que era habitual, os centristas captaram um segmento mais jovem do eleitorado.

Relativamente ao género, o voto nos C contém a particularidade de ser o único partido do bloco “burguês” cujo eleitorado é maioritariamente feminino, com 10% entre as mulheres e apenas 7% nos homens, algo a que não será estranha a personalidade da sua atual líder.

Do ponto de vista socioprofissional dos votantes, a sua penetração é maior entre os empresários e os agricultores (13%), o que não é de estranhar, dada a origem agrária do partido e a sua ênfase na defesa dos pequenos negócios, mas revela também uma adesão ligeiramente superior à média entre os empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos (9%), o que terá contribuído para uma maior urbanização do seu eleitorado. Já entre os operários e trabalhadores indiferenciados tem maior dificuldade em entrar, tendo conseguido apenas o apoio de 5% destes.

Democrata-cristãos: boa campanha permite recuperação eleitoral

Os democrata-cristãos (KD) foram a outra formação da aliança do centro-direita que também registou ganhos razoáveis, confirmando a recuperação que era visível nas últimas previsões, após vários meses de sondagens pouco favoráveis. Depois de, há quatro anos, terem ficado pouco acima da cláusula-barreira nacional, obtendo 4,6% dos sufrágios válidos e 16 lugares, conseguiram, agora, 6,3% dos votos e elegeram 22 deputados. Também eles beneficiaram da prestação menos boa dos conservadores, a que se seguiu uma plataforma mais próxima do liberal-conservadorismo que da direita religiosa, como era habitual. Além disso, a sua líder, Ebba Busch Thor, realizou uma boa campanha eleitoral, que permitiu ao partido recuperar os votos perdidos em 2014.

Do ponto de vista territorial, o partido continua a ser forte no Sueste do país, na região de Småland, com destaque para o condado de Jönköping, o seu grande bastião eleitoral. Tem, ainda, algum apoio no Sudoeste. Ao invés, revela fraca implantação nas maiores cidades, em especial Malmö e Estocolmo, no Grande Norte e, em menor grau, no Centro-Norte e no Sul. Ou seja, apesar da evolução registada, o seu eleitorado continua a ser, essencialmente, rural e conservador, em geral afeto às confissões protestantes não luteranas.

Democrata-cristãos (KD) foram a outra formação da aliança do centro-direita que também registou ganhos razoáveis

Comparando a sua votação com a de 2014, verificamos que os KD melhoraram a sua prestação em todo o território, mas em especial nas duas últimas regiões acima referidas. Em contrapartida, os progressos foram menores nas duas maiores áreas metropolitanas (Estocolmo e Gotemburgo), onde o laicismo é mais forte.

Em relação a 2014, os democrata-cristãos apenas terão mantido o apoio de cerce de 55% dos eleitores de então. Contudo, conquistaram 10% aos centristas, 6,5% aos conservadores e aos liberais e percentagem residuais a outras forças políticas e opções de voto. Estas foram suficientes para superar as perdas de 20% para os conservadores, 9% para a extrema-direita, 6% para os centristas, perto de 5% para os liberais e mais uns valores residuais para outras formações.

Analisando a repartição etária do voto, verificamos que a sua penetração é maior nos eleitores mais idosos (8%), diminuindo gradualmente à medida que a idade vai baixando. Assim, é de 6% nos adultos maduros, um valor próximo da média nacional, mas desce para 5% nos adultos jovens e para 4% nos mais jovens, o que indicia um eleitorado relativamente envelhecido.

Quanto ao género, o voto nos KD é maioritariamente masculino: 7% nos homens e 5% nas mulheres.

Por seu turno, o perfil socioprofissional dos votantes democrata-cristãos não é muito diferente do dos centristas. Assim, a sua penetração é também maior entre os empresários e os agricultores (9%), seguida dos empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos, com um valor próximo da média nacional (6%), e é menor entre os operários e trabalhadores indiferenciados, onde apenas logrou a adesão de 5% destes.

Liberais: a mesma percentagem, mas mais pequenos no seio da aliança

Por fim, e como se previa, os liberais (L) mantiveram as suas posições: de 5,4% e 19 mandatos em 2014 passaram para 5,5% e 20 lugares. Foram, assim, ultrapassados pelos democrata-cristãos, passando a ser a mais pequena força no seio da aliança de centro-direita.

Sendo um partido, essencialmente, da burguesia urbana, defensor dos interesses empresariais, mas liberal em matéria de costumes, tem os melhores resultados nas três maiores áreas metropolitanas. Ao contrário, é bastante fraco nas áreas rurais, em especial no Grande Norte e, em menor grau, no Centro-Norte e no conservador interior do Sueste.

Liberais (L) mantiveram as suas posições: de 5,4% e 19 mandatos em 2014 passaram para 5,5% e 20 lugares

Relativamente às transferências de voto relativamente ao ato eleitoral anterior, verificamos que, apesar da sua percentagem global ser idêntica à de 2014, o partido apenas manteve 45% dos seus eleitores de então. Contudo, conquistou 7% de votantes centristas, 5% de conservadores e quase outro tanto de democrata-cristãos, 4% de verdes e alguns mais de outras opções de voto. Quanto às perdas, deixou fugir 18% para os conservadores, 16% para os centristas, 7% para os social-democratas, quase o mesmo para os democrata-cristãos, 3,5% para a extrema-direita e mais uns poucos para as restantes forças políticas e a abstenção.

Do ponto de vista etário, os seus melhores resultados ocorreram entre os adultos maduros (6%) e os piores nos adultos jovens (4%), o que se pode explicar pelo facto de as políticas liberais no domínio do trabalho não serem populares numa geração de precários. Entre os mais jovens e os mais idosos, fica apenas um pouco abaixo da média nacional, com 5%.

Em termos de género, o voto nos L é relativamente equilibrado entre os dois sexos, embora com ligeira predominância masculina: 7% nos homens e 6% nas mulheres.

Tal como sucede com as restantes formações da aliança de centro-direita, o grupo socioprofissional onde teve maior penetração foi o dos empresários e agricultores (8%). Nos empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos aquela é menor, mas, ainda assim, ligeiramente acima da média nacional (6%). Os operários e os trabalhadores indiferenciados são o seu ponto fraco, tendo apenas captado 3% dos votos no seu seio, algo que não surpreende.

Extrema-direita: resultado histórico, mas abaixo do previsto graças às mulheres

Por sua vez, o partido da extrema-direita Democratas Suecos (SD), liderado por Jimmie Åkesson, conseguiu uma acentuada subida da sua votação, obtendo 17,5% dos sufrágios, que lhe valeram a eleição de 62 parlamentares, contra 12,9% e 49 eleitos há quatro anos. Tendo feito uma forte campanha contra a imigração e o acolhimento de refugiados e a política de “portas abertas” do governo do centro-esquerda durante o ano de 2015 (depois fortemente revertida), que levou o país a acolher mais de 160 mil refugiados (cerca de 1,5% da sua população), acusando-a de ameaçar a identidade tradicional sueca, promovendo a islamização do país, o aumento da criminalidade e a redução do emprego e dos benefícios sociais para os autóctones, os DS conseguiram fazer passar a sua mensagem populista e xenófoba a setores significativos da população. Apesar de terem obtido um resultado histórico, este teve algum sabor a deceção, já que a maioria das sondagens (incluindo à boca das urnas) os colocava próximo dos 20% e, há algumas semanas atrás, acima desse valor.

O partido da extrema-direita Democratas Suecos (SD), liderado por Jimmie Åkesson, conseguiu uma acentuada subida da sua votação, obtendo 17,5% dos sufrágios, que lhe valeram a eleição de 62 parlamentares, contra 12,9% e 49 eleitos há quatro anos

Ao nível da implantação territorial, o partido tem o seu grande bastião no Sul, em especial na região da Skåne (com exceção do centro de Malmö), mas também possui forte implantação no Sudoeste (exceto na área metropolitana de Gotemburgo), áreas onde o afluxo de refugiados mais se fez sentir. É, assim, nas pequenas cidades e nas comunidades rurais das zonas meridionais do país que os SD conseguem maior adesão. Em contraste, a sua maior fraqueza ocorre no centro das duas maiores cidades (Estocolmo e Gotemburgo) e na ilha de Gotland. Fica, igualmente, abaixo da média nacional na periferia da capital, na zona central de Malmö e, também, nas áreas maioritariamente rurais e remotas do Grande Norte e do Centro-Norte, onde vive a maior parte da minoria sami, cujos direitos o partido quer reverter, alegando constituírem um privilégio injustificado face à maioria branca.

Relativamente a 2014, verificamos que os SD melhoraram a sua prestação em todo o território, com as principais subidas a ocorrerem em várias áreas de menor implantação do partido: a região de Estocolmo, a ilha de Gotland e o Grande Norte. Os menores ganhos ocorrem no Centro-Norte, na cidade de Malmö e, em geral, nas regiões meridionais, onde o partido tem as melhores votações. Ainda assim, mesmo aí, registou acréscimos na casa dos 30%.

Quando comparamos os resultados deste ato eleitoral com o anterior, verificamos que o eleitorado dos SD foi, a léguas, o mais fiel: 86% dos seus votantes de há quatro anos voltaram a confiar o seu voto ao partido. Este captou, ainda, quase 10% de eleitores conservadores, 9% de democrata-cristãos, 8,5% de social-democratas, 6% de centristas, 3,5% de liberais, 3% de outros partidos e, também, de abstencionistas e novos eleitores e, ainda, 2% da esquerda e outro tanto dos verdes. Por sua vez, apenas perderam 5% para os conservadores, 3% para os social-democratas, 2% para os democrata-cristãos e valores residuais para outras opções de voto.

A repartição etária do voto mostra que a sua penetração é maior nos adultos maduros, onde atingiu 19%, e nos mais idosos (17%). Em contrapartida, aquela é menor entre os que têm menos de 30 anos, não passando dos 13% nos jovens adultos e dos 11% nos mais jovens. Sendo, essencialmente, um voto baseado no medo, é natural que a mensagem xenófoba e islamofóbica dos SD tenha maior impacto nas gerações mais velhas, mais ciosas dos valores tradicionais e mais receosas face ao aparecimento de pessoas com religiões e culturas diferentes, enquanto os mais novos, mais abertos à mudança e mais cosmopolitas, tenderão a ser mais recetivos no acolhimento ao “outro”, embora não possamos dar isso por adquirido.

No que se refere ao género, temos um dado fundamental: o voto nos SD é esmagadoramente masculino: a penetração da extrema-direita é de 35% nos homens e de apenas 12% nas mulheres. Ou seja, 3 em cada 4 eleitores do partido são do sexo masculino. Logo, se o eleitorado feminino já tinha sido responsável pela manutenção da vantagem do bloco progressista, também foi crucial para impedir um maior crescimento da extrema-direita. O facto de estarmos em presença de um país onde, apesar dos problemas que persistem neste campo e que a literatura policial sueca tão bem retrata, a igualdade de género não é palavra vã e onde a maioria das mulheres tem elevada escolaridade e trabalha fora do espaço doméstico explicará o comportamento eleitoral mais progressista destas.

Também a análise do perfil socioprofissional dos votantes na extrema-direita nos revela dados importantes. Assim, se o bloco vermelho-verde tem a sua força nos trabalhadores por conta de outrem e o a aliança de direita nas classes empresariais e naqueles que trabalham por conta própria, incluindo os pouco agricultores, os SD fazem, de certa forma, a síntese entre ambos: o operariado e os trabalhadores indiferenciados são o grupo onde penetram melhor, conseguindo nele 25% de apoio. Este aumentou, dramaticamente, entre os sindicalizados, embora a maioria deles continue a votar à esquerda. Porém, a adesão é, igualmente, forte entre os empresários e agricultores, com 23%. Já entre os empregados do setor terciário, funcionários públicos e quadros técnicos é bem mais baixa, quedando-se pelos 11%. Dados que comprovam estarmos em presença de um eleitorado maioritariamente munido de baixas qualificações, variável confirmada por estudos paralelos entretanto realizados. Revelam, igualmente, algo que é de há muito conhecido: a capacidade da extrema-direita para se afirmar como defensora, simultaneamente, de uma parte do patronato, em especial dos pequenos comerciantes, industriais e agricultores, receosos face à concorrência externa e ao aumento dos direitos laborais e sindicais, e dos trabalhadores, apontando o “outro”, o imigrante, o refugiado, o diferente, como o inimigo que lhe vai roubar o emprego e reduzir-lhe o salário e os benefícios sociais. E também a dificuldade em entrar no eleitorado mais culto, em geral mais rico e cosmopolita: os mais privilegiados de entre estes mantém o seu voto no centro-direita; os de classe média, com perfil mais intelectual, continuam a preferir o centro-esquerda e a esquerda. Esta é, igualmente, a opção do operariado com maior consciência de classe.

Iniciativa Feminista implodiu, Piratas também e novos partidos não se afirmaram

Uma breve referência aos pequenos partidos, que, numas eleições tão polarizadas, se viram reduzidos a um papel ainda mais secundário que o habitual. Destaque para a implosão da Iniciativa Feminista (FI), que, como já vimos acima, viu o seu apoio reduzir-se de 3,1% há quatro anos para apenas 0,5% agora, vítima do chamado “voto útil” nas formações do bloco progressista, em especial o S. Também o Partido Pirata (Pp) quase desapareceu, quedando-se nos 0,1%, contra 0,4% em 2014. Dos novos partidos, nenhum se afirmou. A Alternativa para a Suécia (AfS), uma cisão nos SD, foi o mais votado destes e não passou dos 0,3%. Alguns tiveram, mesmo, resultados risíveis.

Assim, no seu conjunto, as formações extraparlamentares apenas conservaram pouco mais de 15% do seu eleitorado de há quatro anos. Mais de metade deste (56%) foi captado pelos social-democratas, cerca de 6,5% pela esquerda e 6% pelos verdes, num total de 68,5% em direção à esquerda. Houve 3,5% que foram para a abstenção e quase outros tantos para a extrema-direita e menos de 10% para o conjunto dos partidos “burgueses”.

O “thriller” da formação do novo executivo

Falta, agora, falarmos do último capítulo do “thriller”: a formação do novo governo. Para o efeito, e no quadro parlamentar saído das eleições, existem várias hipóteses possíveis, que agruparemos em quatro grandes grupos:

1. O centro-esquerda governa e o centro-direita (ou parte dele) abstém-se

Estaríamos em presença, com mais ou menos nuances, da atual solução governativa. Como referi no artigo anterior, social-democratas e verdes governavam em coligação, negociando o voto favorável da esquerda e a abstenção de conservadores, centristas e liberais para fazer passar os orçamentos e algumas medidas mais importantes.

Claro que, face à subida do Partido da Esquerda, este poderia, eventualmente, vir a integrar uma coligação governamental tripartida, se houver acordo para uma solução semelhante. Porém, também poderia acontecer que as divergências profundas entre os social-democratas e a esquerda inviabilizassem esse cenário, mantendo-se esta última apenas como integrante da maioria parlamentar. Mas também não seria de estranhar se, após a derrota eleitoral sofrida, os verdes decidissem ficar fora do executivo, optando por negociar o seu voto favorável no Parlamento.

Também à direita poderia haver modificações, com a possibilidade de os conservadores passarem à oposição, tirando consequências da sua derrota eleitoral, mantendo-se a coligação entre social-democratas e verdes apoiada pela esquerda, mas dependente, agora, apenas da abstenção de centristas e liberais. Esta solução teria o apoio do atual primeiro-ministro, mas enfrenta fortes resistências, em especial no seio destes últimos, que se pretendem manter fiéis à aliança e não ser vistos como responsáveis pela manutenção no poder do bloco vermelho-verde.

2. O Partido do Centro muda de bloco e dá maioria ao centro-esquerda

Estaríamos, neste particular, em presença de um cenário semelhante ao da vizinha Noruega, onde os centristas passaram a integrar o bloco vermelho-verde (sendo esta última também a cor destes partidos, originariamente agrários). Seria a solução inicialmente preferida pelo primeiro-ministro e líder dos social-democratas, Stefan Löfven, já que lhe garantiria uma maioria absoluta de um lugar no Parlamento (175 contra 174 da oposição do centro-direita e da extrema-direita). Porém, a líder do Partido do Centro, Annie Lööf, já fez saber que rejeita essa possibilidade, pois essa decisão abriria, certamente, fortes divisões no seio da sua formação, que se apresentou com um programa favorável ao desenvolvimento dos pequenos negócios e que, em matéria laboral e fiscal, colide com a esquerda. Claro que, se viesse a ser posta em prática, haveria sempre o risco de a dissidência de um único deputado ser suficiente para “chumbar” uma qualquer proposta ou, mesmo, colocar em causa a sobrevivência do executivo, mas seria, teoricamente, mais estável que a atual.

3. Os blocos desagregam-se e forma-se um governo ao centro

Uma das hipóteses possíveis seria a recuperação, em certa medida, do acordo conseguido em dezembro de 2014, na sequência da crise orçamental então ocorrida e que evitou a realização de eleições intercalares. Neste, todos os partidos, à exceção da esquerda e da extrema-direita, se comprometiam, na oposição, a deixar passar todos os orçamentos até 2022, através da abstenção. Com a saída dos KD no ano seguinte, esse compromisso deixou de vigorar formalmente, embora os restantes três partidos “burgueses” se lhe tenham mantido fiéis. Podíamos ter, assim, uma maioria hexa partidária, deixando de fora apenas o V e os SD. As seis formações ou apenas algumas delas estariam representadas no governo, embora fosse essencial para esta solução vingar a participação simultânea de social-democratas e conservadores no gabinete, que se constituiria como um executivo de “bloco central”. Como solução de compromisso, poderia a líder centrista vir a ser designada como primeira-ministra, não só pela sua maior proximidade face aos S, mas também pelos bons resultados eleitorais obtidos pelo seu partido. No entanto, para já, esta hipótese não parece muito provável, dada a hostilidade visível entre conservadores e social-democratas, com Ulf Kristersson a exigir a demissão de Löfven e este a rejeitar firmemente fazê-lo. Por outro lado, embora garantisse uma maioria clara do ponto de vista da aritmética parlamentar, teria, dentro de si, enormes contradições, que tenderiam a provocar tensões constantes, com manifesto prejuízo da governação. Acresce, ainda, que não seria muito lógico que os dois maiores partidos assumissem o executivo em conjunto após um ato eleitoral em que ambos registaram perdas significativas. E, em caso de impopularidade do executivo, tanto o V como os SD poderiam beneficiar de se encontrarem na oposição, algo que não seria do agrado das elites políticas e económicas do país.

4. O centro-direita acomoda a extrema-direita e forma governo

Esta seria a outa face do cenário norueguês. No país vizinho, o Partido do Progresso, originariamente uma formação de extrema-direita, foi captado para o bloco direitista, que, após a deserção dos centristas, acabaram por integrá-lo na coligação governamental liderada pelos conservadores, que inclui também liberais e democrata-cristãos. Para o efeito, teve de abdicar de parte da sua agenda mais radical anti-imigração, transformando-se, na prática, num partido nacional-conservador. Outra hipótese seria o cenário da Dinamarca, onde o Partido Popular Dinamarquês dá apoio parlamentar ao executivo de centro-direita, em troca da adoção de grande parte da sua agenda política, como o endurecimento das políticas migratórias ou a adoção de restrições no acesso dos estrangeiros extracomunitários a benefícios sociais ou, ainda, de medidas islamofóbicas por parte daquele. Porém, na Suécia, não será fácil implementar qualquer uma dessas soluções, até porque entre os fundadores dos Democratas Suecos se encontravam alguns grupos neonazis e a sua agenda sempre foi mais agressiva que a dos seus (ex-) congéneres noruegueses e, mesmo, dinamarqueses. Daí que, apesar da estratégia de “desdiabolização” ensaiada por Åkesson e seus próximos na direção do partido e da sua disponibilidade manifestada por aquele para participar num governo de coligação com a aliança de centro-direita, as restantes forças políticas reafirmaram a sua posição de rejeitar qualquer compromisso com os SD, apesar dos veementes protestos do seu líder. Por isso, e para já, essa solução, que tenderia a fazer o país pender para o lado dos intransigentes em matéria de imigração e acolhimento de refugiados, ao lado do chamado “grupo de Visegrado” (Hungria, Polónia, Rep. Checa e Eslováquia), da Áustria, da Itália e da vizinha Dinamarca, não estará em cima da mesa. Mas, se o impasse se mantiver e não for possível formar um executivo relativamente estável, então, ela poderá vir a tornar-se realidade.

Como se pode ver, o quadro parlamentar saído destas eleições tornou ainda mais difícil a formação de um governo. Depois de ter, durante muitos anos, vivido com a política de blocos, com clara hegemonia da esquerda em geral e dos social-democratas em particular, entre 1932 e 1976 e, a partir dessa data, numa alternância entre os dois campos, tudo mudou em 2014, quando o aumento de votação na extrema-direita impediu a maioria absoluta de qualquer um deles. Consequentemente, aumentou a instabilidade governativa, algo que se agravou neste ato eleitoral, com o forte crescimento registado pelos DS.

Como se vê, nenhuma destas quatro soluções, nos seus diversos matizes, é fácil de implementar Por isso, e para já, estamos longe do final do “thriller”, embora a política sueca se baseie, tradicionalmente, no compromisso, o que poderá permitir a continuação da solução em vigor ou outra com ela aparentada. Mas a verdade é que a realidade política do país mudou muito e a sua fragilidade é por demais evidente. O que só favorece a ascensão da extrema-direita!

Artigo de Jorge Martins, para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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