Está aqui

O sobressalto cínico

"É preciso devolver a palavra aos portugueses" ouve-se por aí, nestas e naquelas ondas hertzianas. Mas o Povo já falou. Falou e disse. Artigo de Pedro Figueiredo

O Povo falou no dia 12 de Março. E por mim, está decidido. Não é preciso novas eleições.

O Povo falou e escreveu em folhas A4 recolhidas durante as manifestações o que queria, para facilitar a vida aos políticos mais surdos. O Povo quis e quer "políticas", independentemente de eleições ou governos...eis a novidade.

Assim, com a papinha feita, mais fácil se torna para quem governa e oposiciona...já que a "vida das instituições" é tão "complexa"...

Mas alguém terá ouvido o Povo?

Logo após o 1º telejornal de 12 de Março em que se anunciou a novidade (Nunca tamanha comunhão se havia visto desde o 1º de Maio de 1975 - Logo a seguir múltiplas novas cortinas de fumo - fumo bem espesso ) continuaram a ser lançadas sobre o tema POVO QUE FALOU / PRECARIEDADE DOS PORTUGUESES EM GERAL / URGENTE MUDANÇA DE POLÍTICAS.

Logo, logo, coisas igualmente importantes vieram menorizar o "nosso tema importante" - Líbia sob ataque, Desastre Nuclear e Sismo no Japão, a iminente queda do governo - são outros temas. Mesmo a questão "governo-cai-não-cai-FMi-entra-não-entra" não interessa a ninguém. "A soberania reside no Povo", aprendi, e não "A Soberania reside no FMI".

É porque os media são o que são - "Tenham medo" "Tenham medo que o mundo é terrível e inevitável". É por isso que esta net - facebook, blog - são o último reduto que não passa na tv e jornais.

Net - aqui, onde qualquer Zé-ninguém, mesmo sem ideias, pode opinar e dar um contributo que de outro modo nunca teria. Os media estão à guarda ao "sistema". Bastou ver as epidérmicas reacções de jornalistas e opinionmakers num autentico Sobressalto Cínico que aparentemente diminuía e anulava o tal Sobressalto Cívico. Jornais e media é quem mais tem profissionais a falso recibo verde, como mito "freelancer" à cabeça...

Este Sobressalto Cívico aconteceu. Mas esta semana não discutimos a precariedade nas empresas. Não discutimos que metade de Portugal tem a outra metade a recibo verde nas microempresas.

Tudo isto tem um enorme potencial para ser posto a discutir e resolver na praça pública.

"Ah, pois, ninguém perguntou aos Media se queriam colocar os problemas que interessa a discutir na Praça Pública..."

Lamentamos.

É por causa da precariedade que não acaba nem sai de cima, que o tecido empresarial é como é, os rendimentos são como são, as famílias se endividam para "coisas" básicas como Habitação...

Há 43 anos, a 22 de Março de 1968, uma revolta acontecia na universidade de Nanterre. À altura ninguém ligou. Talvez fossem "parvos". passado mês e meio aconteceu o Maio de 1968.

Estamos sempre a ser surpreendidos com coisas que já estávamos à espera...

Pedro Figueiredo

Termos relacionados Comunidade
(...)