Está aqui

O São Carlos não é um Teatro Nacional, infelizmente!

Numa altura em que se nos colocam desafios civilizacionais determinantes - das alterações climáticas à sustentabilidade, dos neofascismos às migrações -, é imprescindível que se valorize devidamente a Cultura. Artigo de Diogo da Costa Ferreira
“O OPART é uma imensa amálgama de problemas por resolver: das questões laborais à qualidade e prestígio artísticos das instituições, muito há a fazer” -  Teatro Nacional de São Carlos. Fotografia: bestexperiencelisbon.com
“O OPART é uma imensa amálgama de problemas por resolver: das questões laborais à qualidade e prestígio artísticos das instituições, muito há a fazer” - Teatro Nacional de São Carlos. Fotografia: bestexperiencelisbon.com

Há problemas no São Carlos. Há problemas na Orquestra Sinfónica Portuguesa. Há problemas na Companhia Nacional de Bailado. Na verdade, o OPART é uma imensa amálgama de problemas por resolver: das questões laborais à qualidade e prestígio artísticos das instituições, muito há a fazer.

Não se pense que este é um mero percalço ou contratempo, nem se pense que é algo conjuntural e circunscrito unicamente ao OPART, pois quem tomar essas considerações estará redondamente enganado: a situação que agora - aliás, desde há muito - se vive é simplesmente um pequeno exemplo daqueles que são o tremendo transtorno e a profunda calamidade que assolam e, em última instância, definem a Cultura em Portugal.

É preciso mais investimento? Sim, é preciso. É preciso um Ministério da Cultura mais presente e dialogante? Sim, é preciso. É preciso um Governo que pense a Cultura como uma mais-valia para Portugal e que a entenda como uma prioridade? Sim, é preciso. Porém, é preciso muito mais: é preciso repensar e reformular as instituições e as políticas culturais em Portugal.

A problemática é muito mais profunda e estrutural, portanto, mesmo que se consiga solucionar todos estes problemas conjunturais - e, diga-se, urgentes! -, as raízes do problema subsistirão e, no futuro - provavelmente num futuro próximo -, surgirão novas e mais complexas situações para solucionar: um círculo vicioso, sem fim, cada vez mais duro e penoso.

Lamento que, implicitamente, se tente atribuir as culpas aos artistas e trabalhadores que, penosamente, têm vindo a assistir à decadência e derrocada do prestígio das suas casas e da sua arte. E, atenção, para os burocratas e tecnocratas que vão minando gradualmente as hostes dos partidos de esquerda, não se tratam simplesmente de números e de tabelas, de algo distante, quantitativo e impessoal: trata-se, sim, ao longo de vários anos, de viver o declínio por dentro e de senti-lo nas vísceras, assistindo com frustração à ruína progressiva destas nossas casas de cultura, e experienciando em permanência a desilusão pelo facto da missão e qualidade artísticas mais essenciais e imprescindíveis serem consecutivamente colocadas em causa.

Qualquer pessoa com o mínimo de experiência e de conhecimento nesta área facilmente se apercebe de que algo não está bem no OPART. Façam a seguinte experiência: ouçam um concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa, um concerto da Orquestra Gulbenkian e um concerto da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Basta concretizar esta experiência para efectivamente se verificar a deterioração da OSP. Adicionalmente, podemos ainda ir assistir a uma produção operática no Teatro Nacional de São Carlos e, depois, num qualquer Teatro aqui ao lado, em Madrid ou Barcelona, e, uma vez mais, a degradação é evidente. Portanto, não reconhecer estas evidências é não conhecer a realidade mais fundamental.

Por outro lado, lamento também que, por conveniência ou por ignorância, não se procure reflectir sobre os problemas estruturais da Cultura em Portugal, restringindo o foco exclusivamente a esta situação concreta que agora tão acaloradamente se discute, tentando defender a ideia inconsistente e imbecil de que este problema é unicamente um problema do Governo, deste Governo. Não é verdade e, em última instância, revela uma diminuta capacidade de olhar mais além e de reflectir criticamente sobre as adversidades e problemáticas da Cultura.

O Teatro “Nacional” de São Carlos tem uma missão de facto nacional, abrangente e inclusiva? As suas produções e dinâmicas artísticas chegam de alguma forma a um cidadão que vive no Alentejo ou no Algarve - o qual, enquanto contribuinte, tal como um cidadão que vive em Lisboa e que tem a oportunidade de usufruir dessas dinâmicas, “patrocina” indirectamente essas produções? O TNSC, enquanto teatro nacional, promove e potencia devidamente a criação contemporânea?

A Orquestra Sinfónica “Portuguesa” é a orquestra nacional de todo o país? Uma família que viva em Serpa pode usufruir da “sua” orquestra nacional (no mínimo, de um quarteto de cordas ou de um quinteto de sopros)? Quantos concertos são realizados fora da Área Metropolitana de Lisboa? Tem sido aproveitada e rentabilizada a nossa diversa rede de teatros e salas de espetáculos, nomeadamente no interior do país?

Estas são algumas das questões fundamentais que merecem uma reflexão cuidada e rigorosa, pois se não se repensar profundamente a missão e a acção das instituições culturais públicas, os problemas conjunturais - estes ou outros - subsistirão sempre.

É óbvio que todas as questões laborais são urgentes e que o bom funcionamento do próprio OPART depende disso. É indiscutível que a reabilitação e modernização dos espaços são imprescindíveis. Todavia, é preciso ir mais além.

A reabilitação do Teatro Nacional de São Carlos, apesar de ser urgente, não irá resolver os problemas fundamentais do OPART, da mesma forma que as obras indispensáveis no edifício da Escola de Música do Conservatório Nacional não irão resolver os problemas essenciais do ensino artístico em Portugal. Quem tiver essa ilusão, ficará desapontado.

O problema não está neste ou noutro Governo. O problema não são os artistas ou os restantes trabalhadores.

O problema primordial (entre outros) é a ausência assustadora de uma visão e projecto políticos que valorizem devidamente a Cultura. O problema primordial começa nos partidos políticos e estende-se naturalmente ao Parlamento. É condição sine qua non que os dirigentes partidários reconheçam a profunda relevância da Cultura e que os deputados valorizem e reflictam sobre a Cultura em Portugal. Precisamos de um Parlamento que se ocupe das questões fundamentais da Cultura e que a não deixe para segundo plano: infelizmente, agora, não temos esse Parlamento nem esses deputados.

Num momento em que se avizinham umas eleições legislativas decisivas, cabe aos partidos políticos de esquerda dignificar a Cultura através do seu programa eleitoral e, fundamentalmente, através das suas listas de candidatos. É preciso levar a Cultura para o Parlamento: não bastam caras populares e familiares, são necessários deputados que se dediquem genuinamente a esta área fundamental e a que dignifiquem.

Numa altura em que se nos colocam desafios civilizacionais determinantes - das alterações climáticas à sustentabilidade, dos neofascismos às migrações -, é imprescindível que se valorize devidamente a Cultura e que se reconheça na sua natureza e na sua força aquele que é o seu potencial para o presente e, sobretudo, para o futuro.

Artigo de Diogo da Costa Ferreira, Compositor, Escritor, Investigador.

Termos relacionados Comunidade
(...)