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O que os artistas medievais nos ensinam sobre o sexo dos animais

Algumas imagens da arte medieval chamam a atenção para o facto de que os humanos são estranhos e mais complicados do que por vezes supomos. Uma lição com a qual aqueles que hoje em dia persistem em encontrar reflexos na “natureza” de categorias humanas de género e sexualidade podem seguramente aprender. Por Robert Mills.
Cópia do De Animalibus de Alberto, o Grande. Por Sailko/Wikimedia Commons
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A visão prevalecente é que os animais têm principalmente sexo para se reproduzir. Assim, até muito recentemente, os cientistas presumiam que os animais eram persistentemente heterossexuais. Esta era a mensagem veiculada por inúmeros jardins zoológicos, documentários sobre a vida selvagem, livros e filmes. Pensemos na Marcha dos Pinguins ou no filme controverso de 2014 Noé. Tais representações perpetuam a crença de que os animais são melhor compreendidos a partir das lentes das “normas” humanas de género, sexo e família.

A suposta “heterossexualidade” dos animais também tem sido, tradicionalmente, uma justificação para a regulação da atividade sexual humana. Atos de homoerotismo ou de transgressão de género são apresentados como “anti-naturais” na medida em que tais coisas não são percebidas como sendo claramente observáveis em outras espécies.

Mas, ao argumentar contra estes pontos de vista, biólogos como Bruce Bagemihl e Joan Roughgarden começaram a apresentar provas de que a sexualidade animal abrange uma variedade de comportamentos, expressões de género e tipos de corpos. De facto, a reprodução é marginal para muitas espécies. Os cientistas impõem categorias humanas aos animais por sua conta e risco. E, cada vez mais, também a cultura popular está a ir além destes modelos. A Internet está inundada de artigos e publicações em blogues sobre temas como Os 25 animais mais gay ou Os nossos animais de estimação transsexuais. Qualquer pesquisa no YouTube encontra muito material deste tipo.

Contudo, falta frequentemente uma perspetiva histórica sobre estes temas. Afinal, categorias como “gay” ou “trans” não são absolutos eternos. A própria palavra “heterossexualidade” só começou a ser usada por volta de 1900, inicialmente em círculos médicos: um dicionário de 1923 define-a como uma paixão sexual “mórbida” pelo sexo oposto.

E aquilo que pareceria à superfície ser um desenvolvimento recente – a descoberta de expressões queer no reino animal – afinal tem uma história longa e dinâmica. É importante debruçarmo-nos mais longamente sobre isto.

O sexo animal na Idade Média

Durante a Idade Média, as discussões sobre o sexo animal proliferavam nos manuscritos bestiários. Concebidos para apresentar uma interpretação cristianizada do mundo natural, estes volumes perpetuavam a visão tradicional da arca de Noé da Biologia. Mas também apresentavam frequentemente criaturas que pareciam não se enquadrar no molde “heterossexual”.

Por examplo, a hiena, que os escolásticos medievais acreditavam possuir ao mesmo tempo órgãos sexuais masculinos e femininos que o animal usaria indiscriminadamente, é retratada em algumas ilustrações com genitais humanoides aumentados. Os comentadores medievais cristãos interpretavam o comportamento bestial de mudança de género como uma imagem da duplicidade “judaica” assim como da sodomia.

Por outro lado, comparava-se o castor macho, que se acreditava que se auto-castrava para escapar aos caçadores humanos, com os homens castos de Deus. Outros cujos hábitos sexuais eram transformados em lições espirituais incluíam as víboras (apresentadas como adúlteras em série com um gosto pelo felácio) e os abtures (que alegadamente se reproduziam sem união sexual).

Os animais permitiam aos públicos medievais contemplar tabus como o sexo oral ou a promiscuidade, ao mesmo tempo que se apresentava o ideal religioso da castidade como uma atividade humana “natural”. Assim, os bestiários estavam menos preocupados com a “heterossexualidade” enquanto tal do que com a necessidade de todos os seres humanos, de qualquer género, canalizarem os seus desejos para o homem lá de cima.

Os bestiários medievais preparam o palco para um debate vivo sobre sexo e género entre os humanos. Pode-se dizer que uma conversa semelhante continua ainda nos dias de hoje. A suposta heterossexualidade dos animais está a dar lugar a vislumbres de género e sexualidade que ultrapassam as nossas grelhas centradas no ser humano.

A ciência medieval do sexo

Livros que traduziam e comentavam os trabalhos biológicos do filósofo da Antiguidade Aristóteles também por vezes adotavam estas perspetivas. Como algumas das imagens que circulavam nos bestiários, estas ilustrações apresentavam uma visão caleidoscópica do coito entre criaturas.

Por exemplo, no século XIII, Alberto o Grande escreveu um influente comentário sobre o De Animalibus de Aristóteles. Uma cópia de um estudante deste texto, na posse de escolásticos da Sorbonne em Paris, contém uma série de imagens revelando criaturas a copular.

Uma página ilustra a secção do texto na qual Alberto discute o que chama a grande “diversidade” da natureza. Nas suas margens, os leitores podem ter um vislumbre da dimensão sexual desta diversidade. Os peixes acasalam barriga com barriga. Os pássaros montam ou tocam bico a bico. Um burro monta numa égua relinchante. As serpentes envolvem-se num verdadeiro emaranhado.

Entretanto, no centro dessa mesma página, um par de humanos nus, enquadrados por uma inicial dourada, são representados num abraço íntimo, com as metades inferiores dos seus corpos castamente obscurecidas pela decoração. Isto parece corresponder ao argumento de Alberto de que enquanto os não-humanos acasalam ruidosamente e sem vergonha, os humanos fazem-no silenciosamente e em privado.

Assim, a diversidade é crucial para as visões do sexo animal na arte medieval. Não apenas os humanos diferem dos outros animais na forma como copulam como também os artistas imaginaram um espetro de possibilidades entre animais não-humanos.

Monstruosidades

Outra cena do mesmo livro, que se foca na geração e na diferença de sexo, mostra como até no animal humano existe variedade sexual. No texto de acompanhamento, Alberto considera que aquilo de que chama “monstruosidades” resulta habitualmente de atos sexuais entre animais de espécies diferentes mas com naturezas semelhantes. Mas alguns “monstros” resultam da multiplicação de membros, como no caso dos humanos que nascem com os dois sexos.

Uma página no início da relevante secção apresenta uma imagem de um homem nu a tocar a barriga de uma mulher muito grávida – uma imagem convencional da finalidade a que o sexo reprodutivo conduz. Correspondendo à descrição de “monstruosidade” de Alberto que este designa como “hermafrodita”, contudo, o ilustrador também inclui uma rara imagem medieval de uma pessoa intersexo que possui genitais tanto masculinos como femininos.

Mais ainda, nas mesmas margens também são apresentados outros exemplos de nascimentos monstruosos, ilustrados como híbridos humano-animal, incluindo um homem-leão com uma cabeça humana barbuda. Tais imagens sugerem que mesmo dentro da esfera da reprodução existe potencial para a variedade e a multiplicidade.

Estas imagens da arte medieval chamam a atenção para o facto de que também os humanos são estranhos e mais complicados do que por vezes supomos. É uma lição com a qual aqueles que hoje em dia persistem em encontrar reflexos na “natureza” de categorias humanas de género e sexualidade podem seguramente aprender.


Robert Mills é professor de Estudos Medievais e diretor da qUCL, a rede de investigação LGBTQ da London’s Global University. É autor de Suspended Animation: Pain, Pleasure and Punishment in Medieval Culture (2005), Seeing Sodomy in the Middle Ages (2015). Investiga atualmente os temas da animalidade e da soberania na arte medieval.

Publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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