O que levou Pedro Sánchez a deixar cair o imposto sobre a banca?

04 de setembro 2018 - 16:42

Líder socialista espanhol defendeu em janeiro a criação de um imposto sobre a banca para financiar o sistema público de pensões. Oito meses depois não quer ouvir falar do assunto. Esquerda diz que “pressão dos mesmos de sempre” deixou cair medida fiscal de 1000 milhões de euros.

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Na fotografia: Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol e secretário-geral do PSOE.

Quando era líder da oposição ao conservador Mariano Rajoy e mesmo durantes as suas primeiras semanas na liderança do Governo espanhol, Pedro Sánchez defendeu a criação de um imposto sobre a banca para ajudar a financiar o sistema público de pensões.

“A banca tem que resgatar parte das pensões deste país”, dizia em janeiro o atual presidente do governo do Estado espanhol, esperando arrecadar anualmente com esta medida cerca de 1000 milhões de euros.

Passados nem oito meses desta declaração pública, o governo não quer nem ouvir falar de um imposto específico sobre a banca, garantem à comunicação social dirigentes da Esquerda Unida (IU) e do Podemos que integram as equipas negociais com o executivo do PSOE para a elaboração do Orçamento Geral do Estado para 2019.

O próprio Sánchez afirmou esta segunda-feira, numa entrevista ao Cadena Ser, que o seu governo se limitaria a aplicar um imposto sobre as transações financeiras, descartando qualquer encargo acrescido para as instituições bancárias.

O que provocou esta pirueta do governo do PSOE? A pergunta colocada pelo jornal Público espanhol não tem resposta em nenhuma explicação oficial do executivo, uma vez que ela nem sequer existe. Mas, sugere que foi a pressão do sistema financeiro espanhol que fez Sánchez recuar.

No passado mês de julho, quando o governo ainda mantinha publicamente a intenção de avançar com esta medida fiscal, as duas grandes organizações representativas dos bancos espanhóis, a Associação Espanhola da Banca (AEB) e a Confederação Espanhola de Caixas Económicas (CECA), emitiram um comunicado conjunto em que avisavam a eventual aplicação deste imposto afetaria a solvência dos bancos espanhóis “de forma muito negativa”. Acrescentavam, ainda, que os efeitos da cobrança do putativo imposto seriam muito “inferiores aos pretendidos”.

Segundo o jornalista espanhol Jorge Otero, esta tomada de posição conjunta da banca espanhola foi um “banho de realidade” para o governo. Exemplo disso, escreve esta terça-feira no Publico.es, é o facto de no dia anterior ao comunicado, a ministra do Trabalho, Magdalena Valerio, se ter mostrado convencida de que a banca aceitaria pagar este imposto de bom grado.

“Não há dúvidas de que o governo foi alvo de pressões dos de sempre. A isso deve-se acrescentar o facto de [o governo] sofrer de uma grande debilidade parlamentar, procurando um tipo de equilíbrios que não lhe permitem avançar pelo caminho desejado”, defende Claro Sánchez Mato, representante da IU nas negociações com o governo. Na mesma linha, Pablo Echenique, secretário da Organização do Podemos, exigiu uma “retificação [de posição] ao governo”.

Sánchez Mato acha que ao governo está a faltar coragem política, mas ao mesmo tempo está convencido de que não restará outra saída ao executivo do que retratar-se. "O objetivo fundamental é financiar o aumento da despesa em políticas públicas, políticas públicas que beneficiarão 98% dos cidadãos. No governo sabem tão bem como nós que a única maneira de financiar essa despesa é seguir por este caminho, eliminando privilégios fiscais e ter uma política tributária mais equitativa”.