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"O que faz deste vírus diferente é conseguir ser transmitido por pessoas completamente assintomáticas"

A especialista em virologia Maria João Amorim explica em entrevista ao esquerda.net o estado das investigações sobre vacinas e tratamentos da Covid-19.

O esquerda.net entrevistou Maria João Amorim, investigadora principal do grupo de Biologia Celular da Infeção Viral no Instituto Gulbenkian de Ciência que explica o que é um vírus, que tipos existem, o que torna este vírus diferente dos outros que infetam os seres humanos, em que estado está a investigação sobre vacinas e tratamentos e porque é importante achatar a curva da pandemia.

Porque é que lavar as mãos com sabão é eficaz?

O vírus tem uma camada lipídica. Todos nós sabemos que, quando deitamos detergente em gordura, o detergente ajuda a dissolver a gordura. Aqui é a mesma coisa, o detergente ou o álcool (mas o álcool a 70% não a 100%) vão destruir esta camada lipídica e vão atacar o vírus. O vírus exposto já não tem a capacidade de nos infetar porque a maquinaria que ele tem de entrar nas células está enterrada nesta camada lipídica. Assim já não consegue entrar nas nossas células.

Os vírus são seres vivos?

Os vírus, efetivamente, não são considerados seres vivos. Os vírus são partículas acelulares. Para algo ser classificado como ser vivo tem de se obedecer a uma série de regras. E os vírus falham nessas regras. Estas incluem a capacidade de regulação, homeostasia, de organização (terem estruturas bem organizadas, que os vírus têm), metabolismo, capacidade de adaptação a estímulos e capacidade de replicação (que os vírus também tem).

Os vírus falham na capacidade de ter metabolismo independente (só tem metabolismo quando está dentro das células) e na capacidade de resposta a estímulos quando está fora das células. E por isso os vírus não podem ser considerados seres vivos. Mas aquilo que eu costumo dizer é que esta classificação de ser vivo ou não ser vivo é bastante debatível.

Até porque agora foram encontrados uma série de vírus que são muito grandes e eles próprios podem estar infetados com outros vírus. Estes não têm metabolismo completo mas já têm algumas coisas de metabolismo muito rudimentar.

Esta classificação baseada em definições que nós impomos talvez não seja tão importante e o que mais importante é pensar nos efeitos que os vírus têm nos ecossistemas. E, dado que infetam todos os reinos de vida, têm imensas respostas e provocam imensas respostas. Não só a nível de evolução das espécies, como também provocam danos (nos humanos causam doenças, na agricultura infetam animais, destroem plantas) e também podem ter algum tipo de ações benéficas. Por exemplo, no Ártico são responsáveis por aumentar a capacidade de nutrientes, que é essencial para manter a vida aquela camada espessa de gelo.

Que tipos de vírus existem?

Existem muitos tipos de vírus diferentes, alguns têm uma camada lipídica, como é o caso deste, outros não têm, têm só uma camada proteíca. O material genético também é muito diferente: uns são de DNA ou ADN (ácido desoxirribonucleico), como nós; outros são de RNA (ácido ribonucleico). Nós temos uma camada dupla de DNA. E há vírus que também têm essa camada dupla, há outros que têm só uma simples.

Em termos de RNA: nós normalmente produzimos RNA que é positive sense. Nos vírus há uns que conseguem produzir RNA positive sense, outros negative sense. A diversidade é imensa em termos de formas. Há vírus que infetam, como já disse, todos os reinos.

Que outros coronavírus infetam humanos?

Temos de distinguir: o vírus chama-se SARS-Coronavírus-2, a doença que provoca chama-se Covid-19. É um vírus que faz parte dos coronavírus, da família coronaviridae.

Há quatro tipo de géneros diferentes (Alfa, Beta, Gama e Delta). A Alfa e Beta infetam humanos e já há bastantes exemplos. Há 6 outros vírus Alfa e Beta juntos que são capazes de infetar humanos, este é o sétimo. Quatro deles são responsáveis pelas constipações anuais, sazonais e depois os outros dois que foram capazes de infetar humanos foram SARS-1 e o MERS, em 2003 e em 2012.

O SARS-1, que é o que é mais parecido com este, só esteve na população humana muitos poucos meses. O que fez com que esses vírus pudesse desaparecer foi: o facto de o vírus ser transmissível apenas após as pessoas terem sintomas de doença; conhecer-se o sítio de onde veio, o intermediário (os morcegos), portanto saber-se a trajetória e evitarem-se novas reintroduções de vírus e tomarem-se medidas que evitassem a transmissão.

O que torna este vírus especial?

O que faz deste vírus diferente é que o vírus consegue estar completamente assintomático e ser transmitido por pessoas completamente assintomáticas. Portanto, aquela identificação ativa das pessoas que estão infetadas é extremamente dificultada e é extremamente difícil. Acho que esta foi a diferença que fez com que o vírus saísse completamente fora do controlo e que o tornou tão bem sucedido.

Que tipo de tratamentos estão a ser investigados?

Não temos drogas suficientes, específicas. Aliás, anda toda a gente a testar novas drogas. Ainda hoje foi aprovado mais um clinical trial contra um recetor de interleucina-6, diretamente para a fase 3 de um clinical trial. E este vírus não é um retrovírus. Apesar de se terem tentado utilizar terapias de retrovírus, já se sabe que estas não são eficientes em comparação com grupos placebo.

Mas está-se a tentar, por exemplo, cloroquina e hidroxicloroquina, que é um fármaco que se usa contra a malária. Remdesivir é um outro fármaco que se usa contra o ébola, ou que está em vias de ser usado contra a ébola, e também se está a tentar testar aqui. A ideia aqui é tentar fazer um repurposing, tentar utilizar drogas já existentes, já aprovadas, das quais se sabe se são ou não são úteis para utilização e que não causam demasiados danos secundários, para poder testar no terreno. Ao mesmo tempo, também se estão a tentar desenvolver drogas mais específicas, e isso aí demora mais tempo. Daí a outra alternativa parecer tão tentadora.

Como se faz uma vacina?

Primeiro, há a parte de laboratório: encontrar a estratégia, saber se há ou não proteção eficaz, determinar que tipo de anticorpos estão a ser produzidos e se conseguem conferir proteção. Depois, há uma parte de testes em animais. O estudo em coronavírus é um bocadinho difícil porque os modelos animais não são muito robustos para o SARS-coronavírus-1. Possivelmente para este até já há modelos animais, por isso, se calhar estamos um bocadinho facilitados, porque já foram testados no outro caso.

Depois destes testes em modelos animais passa-se para testes em humanos, e esses testes em humanos primeiro são com muitas poucas pessoas, em que se testa a eficácia ou a não eficácia. Depois com um grupo maior e depois com um grupo ainda maior. Portanto são três fases.

Claro que o investimento que se tem de fazer para cada uma destas fases implica aumentar as doses, aumentar a produção e fazer um scale up. Muitas vezes o que se costuma fazer é quando se acaba uma fase começa a outra. Aqui o que se está a pensar é, se calhar, tentar-se fazer duas fases ao mesmo tempo. Se bem que isso implica alguns riscos mas para se tentar apressar o processo...

Não sei se será a melhor estratégia ou não. Acho que as vacinas têm de ser desenvolvidas com toda a segurança para evitar que cheguemos a uma altura em que as pessoas deixem de confiar na vacinação e depois seria este o mundo que teríamos todos os dias.

Porque é que ainda não se conseguiu fazer uma vacina eficaz para os coronavírus anteriores?

Uma vacina pretende dar uma proteção que seja relativamente duradoura e que seja, obviamente, segura. Para isso é preciso conhecer a resposta imune que o vírus induz, se o vírus utiliza ou não utiliza a nossa resposta imune para se replicar. E é preciso também conhecer estratégias que permitam conhecer bem o vírus, para saber o que é que se vai dar a conhecer ao sistema imune.

Há algumas vacinas de coronavírus que se usam em animais que são vacinas atenuadas. Mas para os coronavírus que infetam humanos, no caso do SARS-1 por exemplo, até há algumas vacinas que mostraram ser eficientes mas que não chegaram a tempo de serem testadas em clinical trials. E o motivo para isso ter acontecido é porque o SARS-coronavírus-1 só esteve a infetar os humanos num curto espaço de tempo.

Mas agora essas plataformas estão a ser utilizadas de novo. Neste momento já há duas vacinas a serem testadas em clinical trials, uma que utiliza uma tecnologia que é recombinante, que é uma tecnologia já usada para outras vacinas e outra que usa uma tecnologia nova, que é através de RNA mensageiro. Estas já estão ser testadas. Mas há uma panóplia de diferentes tentativas.

Ainda voltando um bocadinho atrás, estas vacinas precisam de ser absolutamente seguras para serem administradas e aí é que se tem de ter bastante cuidado, porque há a hipótese destes vírus utilizarem parte do nosso sistema imune e de isso facilitar uma infeção subsequente. E isto tem de ser muito bem testado, porque se fosse esse o caso, como é por exemplo para a dengue ou para o Respiratory Syncytial Virus, o que se poderia pensar é que o facto de estarmos a dar uma vacina ia potenciar uma segunda infeção. Ou por um mecanismo que se chama antibody-dependent enhancement, ou por um mecanismo do tipo como funciona uma alergia. Por isso, estas coisas são mesmo importantes de testar, principalmente nesta altura em que existem estes movimentos anti-vacinação. Qualquer coisa que se ponha tem de ser testada, tem de ser segura. Por isso, daí estar a demorar tanto tempo.

O que é o “flatten the curve” e porque é importante?

Se se tomarem medidas como as que existem agora, ou evitando ainda mais contacto e fazendo mais isolamento, então há o flatten the curve – em que passaríamos de um cenário em teríamos muitas infeções num curto espaço de tempo (a que possivelmente o nosso sistema de saúde não iria conseguir responder) a um tempo que, idealmente, a curva iria descer gradualmente e isto iria demorar bastante tempo. Então passaríamos de uma curva que seria imediata que demoraria muito pouco tempo, onde se prevê que morresse imensa gente e que nós não conseguíssemos responder. Atenção que não morrem só as pessoas que têm SARS-coronavírus-2 ou que desenvolvem Covid. As outras pessoas que precisam constantemente de ir aos hospitais também porque não haveria respostas para elas, nascimentos também seriam um problema, tudo seria um problema.

É possível prever quando será o pico da infeção?

Não sendo epidemiologista, não sabendo as medidas que se estão a pensar para o futuro, para mim é muito difícil pensar quando é que haverá um pico. Tendo a pensar que a Direção-Geral da Saúde sabe o que é que está a fazer e eu acho que todos devemos pensar assim. Pelo menos nesta altura não vale a pena criar qualquer outro tipo de entropia, temos todos de trabalhar para o mesmo lado. Todos tentarmos perceber e aceitar as medidas que nos dizem e todos trabalhar em conjunto. Neste momento prevêm para o final de Maio, princípios de Junho, se aumentarem as medidas, se aumentarem o isolamento, certamente vai ser posterior.

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