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O que é a que FIFA quer mesmo deste Mundial de Futebol?

Entre os jogos políticos no organismo que tutela o futebol mundial, o fluxo do dinheiro vindo do Oriente e as peças no tabuleiro estratégico do Kremlin, está tudo à espera do apito inicial. Artigo de Simon Chadwick.
Cartaz do Mundial de Futebol 2018 na Rússia.

No Brasil, os adeptos de futebol mais pessimistas olham para a iminência do Mundial de Futebol com algum sentimento de mau presságio. O último torneio, que o Brasil acolheu, foi uma vergonha nacional ao estamparem-se nas meias finais contra a Alemanha. Eles não querem voltar a passar pelo mesmo.

No resto do mundo, o espírito é mais otimista. Os egípcios, por exemplo, querem que o entretanto lesionado Mohammed Salah, agora tornado símbolo da unidade nacional, ponha o país de volta no mapa do futebol global. E o que o povo inglês mais deseja é ver os “Três Leões” evitarem a ignomínia de repetirem a saída prematura do Mundial na fase de grupos.

Quaisquer que sejam as vontades e caprichos dos fãs, equipas e jogadores que estarão na Rússia este verão, os objetivos das principais partes interessadas fora do campo mostram-nos um cenário intrigante.

Nestes quatro anos após o Brasil 2014, um grupo de novos parceiros comerciais da China rodeou a Féderation Internationale de Football Association (FIFA). Marcas até agora desconhecidas como as fabricantes de smartphones Vivo ou de laticínios Mengniu terão em breve os seus nomes a aparecer nos écrans LED junto ao relvado na Rússia.

Estes patrocinadores querem colocar as suas marcas no centro de um dos maiores eventos desportivos do mundo. Vender produtos é uma razão para isso, embora o acréscimo de credibilidade e legitimidade para a indústria chinesa seja outra. Ao mesmo tempo, o Estado chinês e os seus grupos industriais querem fazer pressão a favor da candidatura do país a acolher um Mundial de Futebol no futuro.

Entre outros parceiros comerciais, há aqueles que, como a Adidas, pretendem que a competição se traduza num impulso comercial. A empresa de vestuário desportivo alemã já veio minimizar o efeito que o Mundial terá nas suas vendas, por entre as críticas generalizadas que são dirigidas à Rússia. Mesmo assim, ainda vê no Mundial uma oportunidade para desenvolver a imagem de marca, algo que uma vitória de uma seleção patrocinada pela Adidas conseguiria fazer — Alemanha, Espanha ou Argentina serviriam muito bem esse propósito.

Enquanto os parceiros comerciais da FIFA atravessam cuidadosamente um panorama de negócio turbulento, as emissoras televisivas enfrentam a perspetiva de caírem de um penhasco. Desde 2014, a geração Instagram mudou rapidamente o seu consumo de conteúdos de 90 minutos para 90 segundos. De facto, vários relatos vindos de todo o mundo afirmam que as pessoas estão a afastar-se do desporto televisivo.

O Rússia 2018 será assim a prova de fogo de quão robusta será a audiência global do futebol na TV, e dos efeitos das incursões dos media sociais e digitais no território tradicional das emissões televisivas. Sem dúvida, a FIFA estará a observar com algum receio, pois uma grande fatia das receitas da organização vem dos contratos televisivos. Mas este não é o único desafio que enfrenta o organismo de direção do futebol mundial.

Os indícios de corrupção dentro da FIFA continuam lá, e muita gente do futebol continua desconfiada das suas intenções. Embora Sepp Blatter se tenha ido embora, o seu sucessor na presidência tem dividido as opiniões. Gianni Infantino parece estar a levar a FIFA numa nova direção, e procurou introduzir várias mudanças, do alargamento do Campeonato Mundial à criação de um novo formato de Mundial de Clubes, composto por 24 dos maiores clubes do mundo a jogarem entre eles a cada quatro anos.

Alguns críticos olham para ele não como um reformista radical, mas antes como alguém que está a perpetuar os anteriores fracassos da organização — enquanto outros acreditam que ele está a mudar muito depressa, numa tentativa de impor a sua agenda pessoal. De facto, o desejo de Infantino de assegurar o futuro financeiro da FIFA é bem evidente na forma como olha para o oriente em busca de fundos.

Com o pontapé de saída deste Mundial, Infantino também pretende uma competição bem sucedida e livre de incidentes, sobretudo por causa das preocupações com o hooliganismo russo e a violência que manchou o Euro 2016. Apesar de tudo, ele enfrenta a reeleição para a presidência da FIFA em junho de 2019.

O que quer a Rússia

A lista de desejos da Rússia com este torneio é bastante longa. O presidente, Vladimir Putin, e o seu governo querem aumentar o seu capital político ao estarem sob os holofotes do mundo durante um mês. Após um longo rosário de desvios — que vão de envenenamentos em bancos de jardim ao doping em escala industrial no desporto e muito mais — a Marca Rússia precisa de uma remodelação internacional.

O efeito do “poder suave” de organização de mega-eventos seria à partida um objetivo importante para Moscovo a partir do apito inicial do torneio. Contudo, quem lê a semiótica do cartaz oficial de promoção do Mundial fica com a sensação contrária. Em vez de induzir um brilho internacional acolhedor sobre o país, o cartaz transmite uma afirmação de nacionalismo musculado dirigido ao público interno, que remonta ao apogeu soviético dos anos 1960.

Após os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi, passaram poucos dias até a Rússia anexar a Crimeia. Com o país atarefado para os lados da Síria e da Ucrânia, uma incursão semelhante pós-Mundial em território estrangeiro não é assim tão inconcebível.

Futebol e política não se devem misturar, embora dado o lugar atual da Rússia no mundo parece inevitável que isso aconteça. E, com tanto dinheiro e grandes desafios nas políticas na FIFA ao molho, parece certo que estamos à beira de assistir a faltas duras fora de campo e à amostragem de cartões amarelos diplomáticos assim que o Mundial começar.


Simon Chadwick é professor de Gestão Desportiva na Universidade de Salford, em Manchester. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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