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"O movimento LGBT tem de saber dar resposta às várias opressões que as pessoas sofrem"

José Soeiro entrevistou Bruno Maia no Socialismo 2018, sobre a história do movimento LGBTQI+. Abordaram também as diferenças dentro do movimento e as relações entre o movimento e o mercado, nomeadamente em realizações como as Marchas do Orgulho.
José Soeiro entrevista Bruno Maia - Foto esquerda.net
José Soeiro entrevista Bruno Maia - Foto esquerda.net

José Soeiro: Vamos falar sobre a história do movimento LGBTQI+, vais fazer essa apresentação [no Socialismo 2018], há um momento muito importante, que tem a ver com o GTH do PSR, que é um dos momentos fundacionais do movimento, mas há outras coisas antes disso, eu gostava que começássemos por aí, o que é que, antes dos anos 90, antes até da Revolução e na sequência do 25 de Abril, como é que é o movimento, ou as movimentações em torno deste tema…

Bruno Maia: Antes do 25 de Abril de 74 não houve, propriamente, movimento em Portugal. O que houve foi algumas personagens destacadas, históricas, umas pelo bem e outras pelo mal. Pelo mal, no caso do nosso prémio Nobel da Medicina, Egas Moniz, que publicou uma série de artigos, supostamente científicos, a classificar a homossexualidade como um distúrbio fisiológico. E houve também outras personagens que, pelo lado positivo, introduziram o tema da homossexualidade ainda durante o Estado Novo, nomeadamente o António Botto, com as suas canções, e o Júlio Fogaça. O Júlio Fogaça era um dirigente do PCP, há quem diga que, inclusivamente, era o rival para a sucessão do partido ao Álvaro Cunhal, e que era homossexual, foi apanhado pela PIDE e preso, e depois, posteriormente, foi abandonado1 pela própria direção do PCP, por atos contra a moralidade. Mas são momentos que introduzem na história alguma história, porque ela hão existia antes disso, e o movimento não havia e, de facto, acaba por aparecer só mais tarde com o GTH.

José Soeiro: Apesar de, na altura haver também espaços mais clandestinos, que seriam espaços de encontros, ou zonas de maior…

Antes do 25 de Abril de 74 não houve, propriamente, movimento em Portugal

Bruno Maia: Claro, muito restritos às grandes cidades, sobretudo a Lisboa, havia pontos de encontro, havia técnicas de engate, e isso agora está estudado, e até está mais ou menos bem documentado. A sociedade não falava sobre o assunto, falava dos atos imorais, no caso do Júlio Fogaça, ou no caso do António Botto, que foi despedido da Administração Pública com base em piropos que ele mandava no local de trabalho a colegas do mesmo sexo, e é despedido com base em “atentado à moral pública”.

José Soeiro: Há esse surgimento de um grupo de intervenção, de um grupo de trabalho, no seio de uma organização política, o que faz alguma diferença em relação à história noutros países em que o movimento não surge tão de dentro, neste caso de uma organização política, de uma organização partidária. Há coisas antes, não vamos também fazer aqui toda a história. O Zé Carlos Tavares tem agora um site onde vai fazendo, tanto quanto sei, um arquivo, o Queer Arquivo. O Sérgio [Vitorino] também, tanto quanto sei, está a trabalhar numa recolha disso, portanto acho que essa história já foi feita por alguns e irá ser feita, mas o que é que te parece fundamental do ponto de vista político no surgimento do movimento a partir dos anos 90, quais foram as suas principais bandeiras, orientações estratégicas, etc?

A curiosidade do GTH é precisamente ter surgido de dentro do partido [PSR], o que significa que os ativistas do GTH tinham uma perspetiva mais abrangente daquilo que é tradição, ou prática comum nos restantes movimentos

Bruno Maia: A curiosidade do GTH é precisamente ter surgido de dentro do partido, o que significa que os ativistas do GTH, tinham uma perspetiva mais abrangente daquilo que é tradição, ou prática comum nos restantes movimentos. Eram ativistas mais radicalizados e com uma noção da interseccionalidade, de que se fala agora, mas já na altura eles tinham uma noção da interseccionalidade e da política global. Mas depois do GTH surge a ILGA, 5 anos depois, para preencher um espaço que era necessário preencher, que era o do associativismo não ligado aos partidos e mais independente. E o próprio GTH reconhece que, nessa altura, era necessário ocupar esse espaço. Do movimento autónomo, que fosse capaz de se representar a si mesmo, o papel dos partidos passou, ou teria que passar a ser outro. Claro que isso é feito sobretudo pelo Bloco de Esquerda no início, toda a gente sabe disso, que é de acompanhar o movimento, de dar voz às suas reivindicações e aos seus representantes e, a partir do Bloco e a partir do ano 2000, as coisas mudam um bocadinho.

José Soeiro: Em que é que mudam?

Bruno Maia: Mudam sobretudo porque o movimento cresce, de uma forma autónoma, o próprio GTH acaba por se extinguir, a maioria das pessoas do GTH fundam uma parte de um movimento autónomo, que são as Panteras Rosa, que passam a representar franjas do movimento. O movimento passa a ter, de certa forma, divisões, não digo divisões num sentido negativo, mas digo divisões em que há setores mais radicalizados que pensam mais sobre a interseccionalidade e a política no geral, e um setor que se começa a aproximar cada vez mais das instituições e que faz o caminho da conquista dos direitos legais. Começa a haver um espectro dentro do movimento, e a partir do ano 2000, e que explode após algumas das ditas conquistas legais, o casamento, a adoção, que explode nos últimos anos e que já não é um espectro, é uma multiplicidade de representações, identidades, reivindicações, é um verdadeiro arco-íris, aquilo que temos agora, atualmente.

José Soeiro: Há umas questões aí, porque me parece que, apesar de algumas associações, alguns movimentos porem a tónica mais na luta institucional e nas conquistas legais, e outros mais na intervenção no cotidiano e na alteração das próprias experiências de vida das pessoas, que não decorrem automaticamente da lei, também me parece que mesmo as associações institucionais procuraram criar espaços de socialização e de integração, que não era só a luta institucional, e os grupos que põem a tónica na necessidade de uma alteração mais profunda, mais estrutural e radical, também não dispensaram nunca a participação na luta legal. A questão que te queria colocar é como é que uma e outra articulam isso, e o que é que isso trouxe ao movimento tal como ele existe hoje?

Bruno Maia: Eu acho que [em relação a] essas divisões é óbvio que é como tu disseste, são sempre de certa forma artificiais, e nós criamos representações na nossa cabeça, e as próprias associações, o próprio movimento cria essas representações extremadas, que nem sempre são verdadeiras ou nem sempre correspondem à realidade. Hoje em dia, existem várias disputas do ponto de vista mais teórico e o lado mais radical da luta tende a abarcar cada vez mais questões de identidade e de género, e o lado mais institucional está mais focado em estar mais próximo das instituições e do poder, da luta contra a homofobia nas leis, na denúncia, etc. Ou seja, é uma fronteira ténue que se calhar não existe mas que, de facto, nós a representamos assim. Isto reflete-se em quê? Em várias coisas, nomeadamente, não só o tipo de ação que têm as diferentes associações e movimentos, e reflete-se, por exemplo, nas organizações das Marchas do Orgulho, que hoje em dia é um palco de disputa. E, mais uma vez, disputa não é negativo necessariamente, porque às vezes a discussão é necessária.

José Soeiro: Sim, tem que haver conflito, tem que haver disputa interna dentro dos movimentos.

“não devemos estar só focados nos direitos dos casais homossexuais, na adoção das crianças pelos homossexuais e, hoje em dia, mais institucionalizado, das leis da identidade de género, o que nós devemos tentar fazer é representar ao máximo, sem excluir, essa diversidade que existe no movimento”

Bruno Maia: “devemos tentar representar ao máximo [todas as reivindicações e lutas], sem excluir, essa diversidade que existe no movimento”

Bruno Maia: Exatamente, e a disputa interna para a constituição das Marchas do Orgulho são hoje o palco preferencial dessa disputa porque colocam muitas das questões não só da representatividade das várias cores do arco-íris que existem. Ou seja, não devemos estar só focados nos direitos dos casais homossexuais, na adoção das crianças pelos homossexuais e, hoje em dia, mais institucionalizado, das leis da identidade de género, o que nós devemos tentar fazer é representar ao máximo, sem excluir, essa diversidade que existe no movimento.

José Soeiro: No movimento e na realidade.

Bruno Maia: Sim, no dia-a-dia. Exatamente. E isso é uma das disputas. E a segunda disputa é sobre o que é que esta adição recente às marchas que existem em Lisboa e no Porto, que é o mercado, as associações de comércio, ou o comércio voltado para a população LGBT, digamos assim, o mercado rosa, o que é que ele representa para o movimento, qual é o lugar que ele deve ter no movimento, e qual é o papel, mesmo do ponto de vista mais teórico e a longo prazo, que ele pode vir a ter, ou não. Isso é uma discussão muito importante.

José Soeiro: Sim, essa discussão já vem de há muito tempo, do mercado rosa e também desses espaços que existem e do papel importante que, historicamente, alguns desses espaços tiveram, e também penso eu, de como, do ponto de vista político, não pode ser o mercado a dirigir e a colonizar os espaços de reivindicação do movimento. No Porto, este ano houve um conflito entre uma tentativa de um grupo representante de empresas ocupar, depois de isso ter sido rejeitado, tanto quanto sei, pela própria organização da marcha no seu conjunto, de tentar ocupar e utilizar a marcha como um momento publicitário, como um momento de conquista de consumidores e havia as organizações que achavam que os direitos não são a partir da condição de consumidor, porque essa é uma condição sempre desigualitária, uma condição que tem sempre uma marca de classe também, mas queria que tu me dissesses o que pensas sobre isso e como é que se faz essa disputa também.

o mercado e o movimento que se dirijam única e exclusivamente a este setor mais beneficiado dentro do movimento LGBT, não é um mercado e um movimento emancipatório, portanto tem de saber responder à questão da classe, tem de saber responder à questão do género, tem de saber responder à questão do racismo, tem de ser um movimento cada vez mais interseccional...

Bruno Maia: Sim, eu acho que, não tendo estado na organização de nenhuma das marchas, nem de Lisboa nem do Porto, aquilo que eu percebo é que, tanto num lado como no outro, não houve nenhuma recusa absoluta na participação das empresas, ou do mercado, nas marchas. A questão do Porto foi muito discutida, mas aquilo parece-me que foi mais uma questão de organização e da participação de uma camioneta, quando não havia camionetas a representar, ou seja, foi mais uma questão de organização do que propriamente ideológica. Mas há uma questão ideológica, isso não quer dizer que ela não exista, porque apesar de as associações, ou dos ativistas mais radicalizados terem uma postura muito crítica em relação ao mercado e ao mercado como forma emancipatória, não recusam a sua participação nas marchas do orgulho. Mas defendem regras, defendem que deva haver regras nas marchas LGBT em que o mercado e a presença hegemónica do mercado, porque tem mais recursos materiais, mais recursos de dinheiro, está mais ligado à diversão e ao ânimo das próprias marchas. Que isso não abafe ou que isso não oculte, ou não invisibilize a fação política que as marchas têm e que foi a razão pela qual elas nasceram, foi como reivindicação política. Isto é a minha opinião, obviamente, agora a que eu vou dar, eu acho que essa é uma postura correta, de não excluir, nesta fase pelo menos, as empresas ou o mercado das participações várias que possam ter nos eventos LGBT, mas tem de haver regras, disso não tenho a menor dúvida. Por exemplo, eu não vejo com bons olhos que a Google, ou a Apple, ou alguma grande empresa multinacional queira participar na marcha do orgulho em Lisboa, como faz em Madrid, há muitos anos já, que tenha uma participação sem contribuir, por exemplo. Acho que eles devem participar, mas atenção, eles estão na marcha a fazer publicidade a si próprios.

José Soeiro: Pois, mas a questão também é essa, se uma marcha deve ser um sítio para empresas se auto-promoverem e conquistarem novos mercados, ou se a marcha é um sítio de luta política por direitos humanos, e aí eu acho que o mercado, tendo o seu espaço, porque criou numa sociedade como a nossa, que é uma economia organizada em torno do mercado, organizou espaços de socialização, também, que foram importantes, e criou formas de visibilidade, mas o mercado, por natureza, exclui. Não é democrático. E, portanto, nunca pode ser o lugar da emancipação...

Bruno Maia: E isso é uma análise de esquerda, não é, o básico de ser de esquerda, que é perceber que o mercado e as regras do mercado não são nunca emancipatórias, e, neste caso, funciona exatamente da mesma maneira, o mercado exclui. Logo à partida, há logo uma exclusão de género, o mercado é dirigido sobretudo a homens, nós sabemos disso, o mercado é sobretudo dirigido a homens gays, que vivem nas grandes cidades, que têm algum poder económico, é classista, desse ponto de vista, como o resto do mercado todo, e cria uma série de exclusões logo à partida sob a bandeira da emancipação e da libertação.

José Soeiro: Também há diferenças entre um pequeno bar, que nós conhecemos e que é gerido por pessoas que são ativistas e isso não tem nada a ver com a participação de uma Google, de uma Levi’s, de uma grande empresa, como as empresas de promoção de turismo para quem tem dinheiro, roteiros LGBT, etc. O que é que tu achas que, hoje, são os grandes desafios que se colocam ao movimento LGBT?

Bruno Maia: Eu acho que os grandes desafios são conseguir perceber isto, a sua diversidade, em primeiro lugar e, face à sua diversidade e o que ela representa, saber resistir às tentações do mercado, ou às tentativas de partes do movimento que possam surgir, eventualmente, de excluir, de entrar numa lógica de exclusão, tentando fazer a libertação de uma pequena parte ou da representação disso. E isso aplica-se ao género e à classe, sobretudo. Portanto, o mercado e o movimento que se dirijam única e exclusivamente a este setor mais beneficiado dentro do movimento LGBT, não é um mercado e um movimento emancipatório, portanto tem de saber responder à questão da classe, tem de saber responder à questão do género, tem de saber responder à questão do racismo, tem de ser um movimento cada vez mais interseccional, que seja antifascista, que seja contra a exploração, que seja antissexista, que seja um movimento mais completo, que saiba dar estas respostas às várias opressões que as pessoas sofrem, que dentro do movimento LGBT também sofrem.


Notas:

1 Júlio Fogaça foi expulso do PCP em 1961 por homossexualidade.

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