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O Maio de 68 e o movimento antiguerra: de Londres a Berlim

Este artigo é um extrato do livro de Tariq Ali (Street Fighting Years), onde este conta os acontecimentos decorridos em Berlim durante o Congresso sobre a guerra do Vietname, organizado pela SDS, Liga estudantil socialista alemã.
Berlim Ocidental era a capital da guerra fria. Alguns anos antes, a realização nesta cidade de um Congresso pelo Vietname seria impensável
Berlim Ocidental era a capital da guerra fria. Alguns anos antes, a realização nesta cidade de um Congresso pelo Vietname seria impensável

Na Grã-Bretanha tínhamos decidido formar uma organização chamada Campanha Solidariedade Vietname (Vietnam Solidarity Campaign, VSC). O estado-maior da VSC tinha sido convidado a enviar um representante para discursar no Congresso sobre a guerra do Vietname, que se realizaria em Berlim Ocidental e que era organizado pela Liga estudantil socialista alemã (Sozialistischer Deutscher Studentenbund, SDS). Foi decidido que eu iria como orador e que estabeleceria contacto com representantes dos movimentos do mesmo tipo que a VSC de outros países da Europa.

O movimento antiguerra crescia em todo o mundo. Personalidades democratas dos Estados Unidos começavam a preocupar-se. Enquanto o presidente Johnson e o seu governo prosseguiam a escalada, um candidato defensor da paz, o senador Eugène MacCarthy, tinha-se declarado a favor de um governo de coligação em Saigão, que incluísse a Frente de Libertação Nacional (FLN), o que teria levado ao colapso imediato da estratégia americana na Indochina. Outros senadores, como Wayne Morse e Fulbright em particular, começavam a revelar publicamente as suas apreensões. Morse declarou que esta guerra era “ilegal, imoral” e que era “uma intervenção militar totalmente injustificada”. Fulbright foi mais comedido, mas usou a sua autoridade como presidente do poderoso comité do Senado para os Negócios Estrangeiros para contestar a versão oficial do que estava a acontecer no Vietname do Sul.

Berlim Ocidental era a capital da guerra fria. Alguns anos antes, a realização nesta cidade de um Congresso pelo Vietname seria impensável. No entanto, os acontecimentos de 1967 tinham modificado algumas atitudes. A esmagadora maioria da população era fortemente proamericana, mas uma parte crescente da população tinha rompido com a ideologia dominante. Em 1967, tinha sido organizada pela SDS em Berlim Ocidental uma manifestação contra a visita do xá do Irão, chefe de um regime torcionário que assentava numa polícia secreta, a SAVAK, cujos chefes se gabavam de constituir a rede de repressão mais eficaz desde o desaparecimento da Gestapo.

Oposição à guerra

Este artigo é um extrato do livro de Tariq Ali Street Fighting Years (“Anos de luta de rua”, título inspirado numa canção de Mick Jagger do verão de 1968: “Street Fighting Man”)
Este artigo é um extrato do livro de Tariq Ali Street Fighting Years

A polícia recebeu ordem para limpar as ruas e difundiu uma mensagem a dizer que “dois polícias tinham sido agredidos”. Era uma mentira que conduzia inevitavelmente à violência. Um membro da SDS, Benne Ohnesborg, recebeu golpes terríveis e caiu, semi-inconsciente, no pavimento. Enquanto jazia, chegou outro polícia e matou-o a tiro. O presidente da câmara de Berlim Ocidental, um certo Sr. Alberts, ficou profundamente chocado pelo acontecimento e foi ouvir a falsa mensagem de rádio. Deu a conhecer publicamente o seu desacordo, o que era um suicídio político. Foi substituído por um social-democrata insípido chamado Schultz, mas toda a gente em Berlim sabia que o poder estava, de facto, nas mãos do senador Neubauer, responsável pela Administração Interna, que a SDS acusava de ser um “nacional-socialista”. De um autoritarismo extremo, ele estava na extrema-direita do partido social-democrata alemão (SPD).

Foi isto que soube quando cheguei a Berlim em fevereiro para falar no Congresso1.

Fui diretamente para o Clube republicano onde conheci os dirigentes berlinenses da SDS, que me informaram da situação local. A administração social-democrata Schultz-Neubauer proibiu a manifestação prevista, usando o argumento da ameaça à ordem pública. O plano era marchar sobre o setor da ocupação americana e manifestar a nossa oposição à guerra. Em resposta, Schultz tinha declarado que a sua polícia “limparia as ruas com uma vassoura de aço”. A tensão estava ao rubro, enquanto se esperava pela decisão a tomar pelo estado-maior da SDS. Iam desafiar a proibição ou não? Se o fizessem, não havia dúvida que se tornaria uma situação violenta e sangrenta. Os estudantes estavam em cólera. A ferida provocada pelo assassinato de Ohnesborg ainda estava aberta e muitos falavam de vingança. Da minha parte, não tinha percebido que uma manifestação estava planeada e ainda menos que tinha sido proibida.

Proibição

Enquanto escutava o debate – que me era traduzido em simultâneo, por Elsa, favorável à anulação da proibição e que não estava nada inclinada a traduzir de forma entusiasta as posições contrárias; estes últimos aperceberam-se disso e juntaram outra pessoa, partidária do seu ponto de vista – os dirigentes da SDS entraram e apresentaram-se. Eram três: Rudi Dutschke, que tinha deixado Berlim Leste e estudava teologia; Gaston Salvatori, sobrinho do chileno Salvador Allende, estudante em Berlim; e Karl Dietrich Wolf, de Frankfurt.

Levaram-me à parte, para uma sala ao lado, para me explicar a gravidade da situação. Um debate clandestino, que eu desconhecia, abriu-se então. Seria necessário apelar para os tribunais de Berlim Ocidental para pôr em causa a proibição ou então seria considerada como uma capitulação face às instituições que se queria derrubar? Já me tinha recusado a ser arrastado para esse debate da proibição, declarando que para mim era uma questão puramente tática que só poderia ser decidida pelo próprio Congresso. Não houve contestação neste ponto, mas perguntaram-me qual seria a minha proposta. Expliquei gentilmente que não diria nada, dada a minha ignorância de muitas coisas sobre a situação em Berlim Ocidental e que essa seria também, sem dúvida, a atitude da maior parte daqueles que vieram de fora.

Quanto ao recurso aos tribunais, não tinha dúvidas: era preciso um advogado que avançasse um processo contra a administração local. Eles trocaram olhares e sorrisos. Dutschke concordou plenamente comigo. Os outros não disseram nada. No dia seguinte, na abertura do Congresso, foi anunciado que se apresentava um apelo contra a decisão do presidente da Câmara. Não houve quase nenhum murmúrio de protesto na assistência, extremamente numerosa, para minha alegria e surpresa. Havia milhares e milhares de estudantes no interior e no exterior da Universidade livre de Berlim, onde estávamos em sessão.

Uma nova crise eclodiu no conselho municipal. Neubauer disse ao chefe da polícia: “Não importa se houver algumas mortes, é preciso partir um milhar de cabeças”. O chefe da polícia recusou estas ordens e demitiu-se. O seu suplente, um outro social-democrata de direita, substituí-o e declarou que “os atingiria tão duramente que eles iam a correr até Moscovo”. Foi com estes métodos que a social-democracia se preparava para defender a liberdade e a democracia.

SDS, força em crescimento

O nascimento da SDS marcou um ponto de viragem na história da Alemanha. Tradicionalmente, os estudantes apoiavam a direita e os dois principais partidos políticos da Alemanha do pósguerra – a CDU/CSU e o SPD, cujos líderes tinham sido escolhidos pelos Estados Unidos – não ficaram descontentes. A geração nascida durante a guerra ou logo após ela, no entanto, era muito diferente da anterior. Após a guerra, não tinha havido uma verdadeira purga dos fascistas: o novo inimigo era já visível e as velhas inimizades deviam ser ultrapassadas para o enfrentar.

Congresso sobre a guerra do Vietname, organizado pela SDS alemã, em Berlim Ocidental a 17 e 18 de fevereiro de 1968 – Foto hdg.de
Tariq Ali a intervir no Congresso sobre a guerra do Vietname, organizado pela SDS alemã, em Berlim Ocidental a 17 e 18 de fevereiro de 1968 – Foto hdg.de

A Alemanha dos anos 50 tinha sido, na aparência, aprovadora e passiva. Mas a memória da guerra não podia ser tão facilmente apagada pelas gerações que coexistiam na República Federal. Nos anos 60, os estudantes dos campus sabiam perfeitamente que os seus pais não tinham conseguido resistir ao ascenso do fascismo. A chegada de Hitler ao poder varreu todos os vestígios da democracia e destruiu os dois maiores partidos operários da Europa, o que deixou a marca política e psicológica nas crianças dos anos 50. Mesmo com o silêncio absoluto que prevalecia nesta questão, eles sabiam profundamente que algo estava errado.

A guerra do Vietname serviu de catalisador. “Somos uma minoria ativa!”, cantavam os militantes da SDS nos comícios e nas manifestações. Foi assim que gritaram a sua desconfiança face a um passado presente no coração de cada família: mais vale uma minoria ativa do que uma maioria passiva, cega perante os crimes cometidos todos os dias. Essa era a mensagem da SDS alemã que, nos anos seguintes, seria retomada por alguns dos seus partidários, num caminho desesperado e autodestrutivo. A “minoria ativa” ia ser, posteriormente, interpretada como a justificação para a “guerrilha urbana” nas cidades alemãs, com consequências trágicas.

A Ofensiva do Tet

Foi no segundo dia que falei no Congresso, sobre a guerra e a solidariedade. A FLN tinha lançado uma nova ofensiva militar no Vietname do Sul para marcar o novo ano vietnamita – o Tet. A ofensiva do Tet tinha começado quando nos preparávamos para começar o Congresso. Cada nova vitória foi anunciada à assembleia no meio de aplausos cada vez mais fortes. Os vietnamitas estavam a caminho de demonstrar, da maneira mais concreta que se pode imaginar, que era possível lutar e vencer.

Foi um elemento decisivo na formação da consciência da nossa geração. Pensámos que a mudança não só era necessária, como era possível. O tema da solidariedade internacional parecia mais vital que nunca e eu ataquei violentamente a cimeira de Glassboro nos Estados Unidos, onde Kossyguine2 e Johnson tinham brindado juntos, enquanto o Vietname era devastado pelos bombardeiros americanos. Declarei que era uma obscenidade. Os discursos, na maior parte, foram aplaudidos e interrompidos aos gritos de “Ho-Ho-Ho Chi Minh!”, que percorreu toda a Europa nesse ano . (...)

Depois Rudi Dutschke levantou-se e fez uma forte intervenção ligando a luta contra os Estados Unidos no Vietname com as batalhas a travar contra a ordem burguesa na Europa. Ele falou sobre estender as bases do movimento estudantil por uma “longa marcha através das instituições”, uma expressão muito utilizada e discutida na SDS. A teoria de Dutschke deriva largamente da de Herbert Marcuse, o veterano filósofo da Escola de Frankfurt de antes da guerra, que tinha uma grande influência entre os estudantes alemães. Esta “longa marcha” não significava “minar por dentro”, mas ganhar experiência em todas as frentes – educação, computadores, comunicação de massas, organização da produção – ao mesmo tempo que se preservava a própria consciência política.

O objetivo da “longa marcha” era construir contrainstituições. Zonas libertadas dentro da sociedade burguesa que seriam o equivalente das zonas libertadas pelos partidários de Mao, na China, durante a longa guerra civil conduzida pelos comunistas chineses. A universidade era um lugar decisivo nessa perspetiva, porque era lá que novos quadros podiam ser educados e preparados para substituir os quadros da classe dominante. (...)

Um dos momentos altos do Congresso foi a subida à tribuna de dois jovens americanos negros, ambos veteranos do Vietname. Mesmo antes de tomarem a palavra, receberam uma ovação da sala de pé. Depois, descreveram brevemente a guerra, explicando a utilização dos negros como carne para canhão. Disseram-nos que a América negra estava à beira de grandes ruturas e, dando os braços, entoaram um canto que nunca tínhamos ouvido, apesar de ser muito conhecida nos Estados Unidos:

“Não quero ir para o Vietname,
Porque o Vietname é onde eu estou,
Diabo não, eu não irei!
Diabo não! Eu não irei”

Os aplausos duraram vários minutos, enquanto os dois veteranos saudavam com o punho erguido.

Todas as pessoas esperavam a decisão do tribunal em relação à manifestação. Eu estava seguro que o juiz tinha recebido informações sobre o estado de espírito e o grande número de participantes no Congresso. O poeta austro-alemão Erich Fried estava a falar quando foi interrompido pela presidência: o tribunal autorizou a manifestação na condição de ela não se aproximar dos soldados ou dos quartéis americanos da cidade. Era uma vitória que foi acolhida como tal, mas nesse momento Rudi Dutschke pediu a palavra e subiu à tribuna. Estava satisfeito com o resultado, mas queria contestar a restrição. Era intolerável que não pudéssemos tentar conversar com soldados americanos. A sua voz ergueu-se:

“Mas, camaradas, é precisamente isso que devemos fazer. Se o inimigo define as regras do jogo e nós aceitamos, isso significa, como Herbert Marcuse nos disse muitas vezes, que agimos aceitando as suas regras”.

Desta vez, novamente, o Congresso dividiu-se. Então Fried, ele próprio veterano antinazi, que teve de fugir da Áustria e procurar refúgio em Londres, escreveu uma mensagem para Dutschke: “A nossa vitória é que conseguimos a manifestação. Nenhuma provocação, por favor! Eu disse e salvei a minha alma”. Dutschke parou e leu essa mensagem para si próprio. Depois de uma pausa, informou a assembleia do seu conteúdo e admitiu que a sua própria resposta estava errada. Toda a gente suspirou de alívio.

Manifestámo-nos à tarde. Foi um espetáculo a que Berlim não assistia há mais de trinta anos. 15.000 pessoas, sobretudo jovens, um mar de bandeiras vermelhas e retratos gigantes de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que foram brutalmente assassinados nessa mesma cidade em 1919, sob as ordens dos antepassados políticos de Schultz e Neubauer. Havia também grandes cartazes de Ho Chi Minh e Che Guevara, cuja imagem dominava o nosso cortejo. Descemos o Kurfurstendam marchando e correndo, terminando com uma enorme concentração, em que alguns de nós foram de novo convidados a falar. Levantámos as nossas bandeiras mesmo no coração da Europa dominada pelos americanos.

Rudi Dutschke

A imprensa reacionária de Axel Springer tinha advertido os berlinenses de que haveria violência e sangue, que Dutschke era “o inimigo número um” e que os cidadãos deviam preparar-se para defender Berlim. Mas na realidade a manifestação foi pacífica.

Rudi Dutshke, destacado dirigente estudantil alemão, foi baleado com dois tiros na cabeça por um fanático de extrema-direita em 11 de abril de 1968
Legenda

De todas as palavras de ordem gritadas naquele dia, a que parecia mais próxima da realidade era: “A FLN vencerá!”. Quanto à menos provável, havia que escolher, mas “Todo o poder aos sovietes!” parecia a mais distante das probabilidades numa Berlim em que Neubauer tinha uma grande base. (Anos mais tarde ele foi condenado por corrupção em larga escala, envolvido num caso criminal e perdeu o emprego, mas continuou a defender o seu modo autoritário de administrar a cidade). Festejámos o sucesso da manifestação e eu convidei os dirigentes da SDS a enviar ativistas à nossa manifestação no mês seguinte, em Londres.

Mais tarde, numa noite em abril de 1968, recebi um telefonema de Berlim. Era uma amiga da SDS e, durante alguns minutos, ela foi incapaz de falar, porque soluçava sem conseguir controlar-se. Paralisado pela inquietação, pedi-lhe que explicasse o que tinha acontecido. Um fanático de extrema-direita tinha atirado sobre Rudi Dutschke. Ainda está vivo? O ferimento era grave? Onde estava? Estava nos cuidados intensivos, inconsciente. A bala tinha entrado na cabeça e a operação era iminente, mas as possibilidades de sobreviver eram muito pequenas3. A SDS apelou a manifestações em toda a Alemanha e estava a informar os seus amigos em toda a Europa.

Naquela noite, o telefone não parou de tocar. Esta tentativa de assassinato chocou-nos a todos.

Artigo de Tariq Ali, publicado em contretemps.eu4. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


Notas

1 Este Congresso teve lugar a 17 e 18 de fevereiro de 1968.

2 Alexis Nikolayevich Kossyguine, soldado do Exército Vermelho em 1919, ingressou no PCUS em 1927, tornando-se funcionário do partido, após as grandes purgas estalinistas em 1938, depois tornou-se membro do Politburo em 1948. Após a queda de Khrushchev em novembro de 1964, ele tornou-se primeiro-ministro soviético no que inicialmente era uma troika com Leonid Brezhnev como secretário-geral do PCUS e Anastase Mikoyan (e depois Nikolai Podgornyi) como presidente. É nessa condição que ele representa a URSS na cimeira de Glassboro nos Estados Unidos. Depois de adoecer, Kossyguine foi destituído do cargo em outubro de 1980 e morreu algumas semanas depois.

3 Rudi Dutschke nunca recuperou completamente deste atentado, após o qual ele se retirou para a Grã-Bretanha, de onde foi expulso, e depois para a Dinamarca, onde morreu em 1979. A nova esquerda alemã perdia assim um dirigente e teórico promissor que, por causa da sua experiência na Alemanha Oriental, poderia construir uma ponte entre as duas Alemanhas. Em Paris, no Quartier Latin, por iniciativa da Juventude Comunista Revolucionária (JCR) entre outros, 3.000 manifestantes expressaram a sua solidariedade com a SDS após o ataque contra Rudi Dutschke.

4 Em nota de entrada, o site contretemps.eu refere: Tariq Ali, um dos animadores da New Left Review; foi um dos fundadores do Grupo Marxista Internacional (IMG, secção britânica da IVª Internacional) e um dos porta-vozes da nova esquerda britânica nos anos 60 e 70.

Este artigo é um extrato do seu livro Street Fighting Years (“Anos de luta de rua”, título inspirado numa canção de Mick Jagger do verão de 1968: “Street Fighting Man”), que conta o seu percurso de jovem revoltado, nascido no Paquistão, que se tornou militante revolucionário. Este texto apareceu em francês pela primeira vez em Imprecor nº 267 de 6 de junho de 1988.

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