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O lírio da morte

"Ainda me recordo das feições de todas elas. Se fechar os olhos, consigo ouvir-lhes as gargalhadas. Tenho o dom de pôr as pessoas a rir, mesmo nas situações mais trágicas. Evidentemente, nos últimos tempos, já não riam; nem sequer me olhavam." Conto de Gabriela Ruivo Trindade publicado na revista Esquerda.

Hoje às três, o juiz vai ditar a sentença. Apesar de tudo, estou calma. Seja o que Deus quiser. O meu destino já não me importa tanto – importa-me, sim, a sensação do dever cumprido.

Os filhos das vítimas assistiram a todas as sessões, menos os que prestaram depoimento. Aguentei estoicamente as horas vagarosas que durou todo este processo agonizante. Proferi, aliás, um discurso patético de arrependimento em que implorei o seu perdão. Não sei como consegui. Se pudesse, espetava na veia uma das seringas letais que usei para matar, fria e intencionalmente as minhas vítimas. Dito desta forma é de facto um acto abjecto.

Ainda me recordo das feições de todas elas. Se fechar os olhos, consigo ouvir-lhes as gargalhadas. Tenho o dom de pôr as pessoas a rir, mesmo nas situações mais trágicas. Evidentemente, nos últimos tempos, já não riam; nem sequer me olhavam.

Também guardo as expressões dos filhos nas suas visitas apressadas, as golas dos casacos e os cachecóis submergindo os pescoços náufragos, que nem tiravam, porque – é só o instantinho de deixar estas flores, e como estamos hoje? Estou com imensa pressa, posso deixar as flores consigo? – e saíam, um manto envergonhado de pena e temor no olhar, que nem se haviam dignado a pousar no rosto do desgraçado. Já nem digo olhar como deve ser.

Covardes. É muito mais fácil deixar morrer um doente no hospital, com a desculpa de que há melhores condições. Melhores para quê? Para morrer não precisamos de médicos, nem de cuidados intensivos, tão-pouco de máquinas que nos ajudem a respirar, mas do amor de quem nos quer bem. Da ternura de um olhar que nos diga, sem palavras, que podemos partir em paz. Morrer é um acto tão sagrado como nascer. Exige o mesmo silêncio, a mesma paz, a mesma obscuridade e a mesma discrição. Hoje em dia, porém, isto é completamente ignorado, tanto num caso como noutro.

Quando entrei ao serviço, fui colocada na unidade materno-infantil. Acompanhava as mulheres em trabalho de parto. Procedimentos de rotina: medir a tensão arterial, colocar-lhes o soro misturado com a oxitocina, aferir os registos da monitorização fetal. Às vezes acompanhava-as até à sala de partos. É claro que rapidamente me tornei um estorvo. Era muito nova e achava que podia mudar o mundo. Interferia demasiado com os procedimentos pré-estabelecidos, fazia perguntas e comentários inconvenientes. Acabei por ser transferida para as doenças terminais. Um convite para sair. A maioria do pessoal não aguenta muito tempo. Todavia, enganaram-se comigo. A minha boa disposição salvou-me. E salvou muitas vidas, também. Não da morte, decerto; antes de um fim triste e sombrio. Eu punha os doentes a rir. Alguns, parecia que até melhoravam! Evidentemente, não se tratava de melhoras; estas, nestes casos, não passam de umas corzitas que voltam ao rosto, um sorriso, uma revirada tímida na falta de apetite crónica, para os que ainda se conseguem alimentar.

Fui promovida a enfermeira-chefe. A minha dedicação e empenho não diminuíram. A maioria do pessoal – mesmo os médicos – não consegue encarar este tipo de doentes. Fixam os olhos no chão, ou num ponto algures entre a cama e a parede. Olhar um doente terminal nos olhos é olhar um condenado. Porquê ele e não eu? E, por momentos, imaginam-se no lugar do condenado, e a imagem é demasiado insuportável. Pobres diabos! Não percebem que são tão condenados quanto o doente que têm à frente. Quem pode garantir que não partem primeiro, hoje mesmo, quando se meterem no carro? Basta estar no lugar errado à hora errada. Um camião sem travões, um bêbado em contra-mão na auto--estrada. Nesta vida somos todos iguais e nenhum de nós sabe quando é ditada a sentença.

Acompanhar pessoas na morte não é para todos. Vemo-los chegar, um dia, com as bochechas ligeiramente rosadas, os cabelos enfraquecidos pelas sessões de quimioterapia, mas ainda com aspecto de gente, se é que me faço entender. Acho que não; só quem presenciou uma coisa destas entende. Os dias passam, e vemo-los definhar, aos poucos, num processo lento e agonizante. A dada altura convencemo-nos de que já atingiram aquele ponto a partir do qual não se pode descer mais. E continuam, de dia para dia, a descer, perante o nosso assombro. O poço, aquele poço escuro onde o seu corpo se recolhe, afinal, não tem fundo. Transformam-se. Deixam de ser gente. Alguns acabam ligados à máquina. Eternamente.

A Lurdes foi a primeira a dizer-mo. Já há algum tempo que as vozes daquelas almas, os seus pedidos mudos de misericórdia, me atormentavam, mas andava convencida de que eram coisas da minha cabeça. Tinha pesadelos de noite, acordava com gritos, gemidos, murmúrios. Devo estar a enlouquecer, pensei muitas vezes. Há casos de profissionais que se passam para o outro lado. Aliás, a opinião dos especialistas – há sempre uns quantos especialistas nestas matérias que insistem em dar a sua opinião – é a de que não se deve trabalhar mais de dois anos seguidos nestas unidades, sob pena de deteriorarmos a nossa preciosa saúde mental.

Quem sabe não estou equivocada, e tenha sido, de facto, vítima de stress pós-traumático, devido aos anos de exposição. Não deixem, porém, que me adiante, estava a falar-vos da Lurdes. Tumor intestinal de último grau. O cólon fora-lhe removido e implantaram-lhe um saco de colostomia. Mais tarde surgiu outro tumor, no estômago. Quando foi internada, ficou confinada a uma cama com uma sonda a alimentá-la. Nas primeiras semanas realizou várias sessões de quimioterapia, que a deixaram de rastos. Era uma mulher corajosa, aguentou toda aquela tortura e ainda se ria quando eu fingia não lhe encontrar as veias e exclamava, em voz de falsete, então suas malandras, não vêm cumprimentar as pessoas? Vá, um beijinho à tia! Enquanto se ria não sentia a picada da agulha.

O seu estado depressa se deteriorou. Não sei se já alguma vez viram um animal lutar contra a morte. Cada célula do corpo debate-se com todas as forças contra o monstro impiedoso que lhe aperta o pescoço, num abraço fatal de anaconda. E então, no último instante, um instante que demora um segundo e toda a eternidade, rende-se. O olhar de onde escorregava, impiedoso, o medo em estado puro, substitui-se por um outro de infinito reconhecimento. Naquele instante, naquele piscar de olhos, estão apenas as duas – a vida e a morte – frente a frente. Depois, languidamente, a vida fecha os olhos e dissolve-se no silêncio do cosmos.

Nada pode ser pior do que evitar este confronto. Quando a morte já se deita sobre nós, precisamos de abrir os braços para a receber. Nada é mais terrível, para uma vida, do que lhe ser negado o fim. O fim é o que lhe dá sentido, o mesmo que buscamos durante anos e sempre teima em fugir--nos entre os dedos.

Um dia, quando lhe mudava o cateter, ela disse--me aquilo. Os olhos, submersos num lodo branco e aquoso, esboçaram um movimento exausto, movediço, na tentativa moribunda de se manterem à tona. Fiquei petrificada. Teria ouvido bem? Por favor, ajude-me, já não posso mais. Tenho de ir. Ajude-me…

A mão dela, com uma força súbita, travou-me o gesto de lhe enfiar a agulha no braço. Uma garra esquálida. Senti um arrepio. Deixe-me ir. Tenha piedade. Um murmúrio, um sopro, uma água leitosa aos cantos da boca. Os olhos revirados, afundados naquele lodo, irremediavelmente. Aflita, agarrei-lhe nos dedos, tentando libertar--me. Duros como pedra. Por fim, passado alguns segundos que me pareceram eternos, recolheu a garra, e no seu lugar voltou a aparecer a mão enrugada e frágil de moribunda.

Coloquei rapidamente o cateter e saí do quarto. Fechei-me no quartinho dos cacifos e fiquei ali, na escuridão, encostada aos casacos nos cabides, a sentir a textura da lã dos cachecóis e dos pêlos sintéticos dos capuchos. As suas palavras não me saíam da cabeça. Não era um pedido vulgar – as mais das vezes, as pessoas gritam por socorro quando querem que lhes salvemos a vida. Isto era diferente.

Não sei quando tomei a decisão. No fundo, acho que já a tomara há muito, desde que me entendo por gente e sou sensível ao que me rodeia. A morte é um acto solitário; talvez seja o único acto verdadeiramente solitário da nossa vida. Quando nascemos estamos em união com o corpo da mãe – e precisamos de o fazer dentro desse continente que é o ventre e o abraço maternos. Na morte estamos sós. Apenas nós e o nosso corpo, que já não nos pode dar nada. E precisamos de dar o passo fatal – aquele que nos levará enfim para fora do corpo.

Quando o decidi fiquei em paz. Preparei tudo como se o houvesse planeado há anos; os mínimos detalhes – como o faria, para não levantar suspeitas, nas horas mortas, quando ninguém estivesse por perto. Os frasquinhos de tampas coloridas, contendo líquidos incolores e pequenos rótulos com fórmulas químicas que conhecia como as letras do meu nome, estavam à minha disposição. Foi fácil preparar a seringa, procurar-lhe a veia, e despejar o conteúdo na corrente sanguínea. Tão fácil que nem acreditei.

Ajoelhei-me ao lado da cama. A noite estava particularmente calma, só eu e outra enfermeira de turno, que fora chamada ao bloco de pediatria para uma emergência. Deixei-me estar, até que a senti ir – uma aragem percorreu o quarto, como asas de borboleta, e o silêncio que se instalou, leve como uma pena, veio morrer, lívido, na sombra ténue do meu corpo. Ergui-me, meio tonta, e espiei-lhe o rosto. Estava serena; os olhos, vítreos, perdidos nas brumas, pareciam finalmente ter chegado ao fundo do lodo e verem para lá da opacidade do nevoeiro.

Contava com toda a impunidade: nestes casos nunca se pedem autópsias, a morte espera--se todos os dias, a qualquer hora, e quando chega, é um alívio. Podia vê-lo nas expressões compungidas dos filhos, sempre à pressa e pela vez derradeira. Tratar das formalidades. Coroas de flores. Lágrimas de crocodilo. A culpa a corroê-los como um cancro, pior do que lume, pior do que tudo o que alguma tinham imaginado. Sofreu?, perguntavam baixinho, envergonhados, como se confessassem um crime. Faziam um olhar esgazeado quando lhes dizia que não. As mãos, nervosas, que hesitavam entre meter nos bolsos e esconder atrás das costas, eternamente em busca de algo. E os olhos a passearem-se do roxo das flores para o azul muito claro das cortinas. Caramba, nem ali, naquele momento, nunca aqueles olhos se detinham no rosto da pessoa que mais amor lhes dera nesta vida.

Nunca gostaram de mim. Podia ver-lhes a ira no fundo dos olhos quando lhes respondia com evasivas às perguntas ansiosas de redenção. Há pessoas que são incapazes de encarar o espelho. Anseiam por uma vida exemplar, sem mácula; teimam em ostentar as asas de anjo como bandeiras de guerra. O pecado mora sempre ao lado, elas são limpas e puras como Deus fez. Provavelmente adivinhavam todos estes pensamentos no desdém com que lhes brindava as visitas apressadas. Vinham picar o ponto, era o que era. Cumprir com o papel de filhos ou noras ou genros. Como quem carimba um recibo e o arquiva, com enfado, na prateleira. Hipócritas de merda. Só queria que tivessem visto o ódio com que me olharam durante o discurso de arrependimento. Que raiva, meu Deus! Finalmente podem mostrar as garras e os dentes de predador. Encontraram um bode expiatório perfeito: eu, a assassina, e eles, os pobres coitados, os orfãozinhos. Cambada de covardes! Onde estavam quando precisávamos deles? É muito mais fácil deixar morrer um doente no hospital, com a desculpa de que lá lhe dão tudo o que precisa. Fugir, virar as costas, fechar os olhos e os ouvidos, recolher os braços e paralisar o coração. Tão fácil cuspir a culpa em alguém e ficarmos imolados, sem dor nem cheiro, assépticos, desinfectados, puros e inocentes.

Lírio da morte. Foi assim que me baptizaram. Actos de uma frieza e premeditação incontor-náveis. Vieram psiquiatras entrevistar-me e psicólogos fazer-me testes atrás de testes. Fragilidade da estrutura do ego, enquistamento psicótico, personalidade limite. Depressão narcísica; produção delirante; ideias de grandeza e omnipotência, cujo conteúdo se expressa na passagem ao acto – neste caso, identificação a Deus, cujo poder de determinar a morte é alucinado. Ouvi todas estas pérolas de cabeça erguida, os olhos entretidos com os arabescos do tecto, para não ter de sustentar o olhar de ninguém. Estou ciente dos meus actos; não temo confessar os meus crimes. Se é verdade que Deus existe e está lá em cima a olhar por nós, Ele sabe que estou inocente. E não, não pretendo ser Deus. Sou apenas uma simples mortal, que sabe que está condenada – todos o estamos, desde que nascemos. Que até ao último suspiro a vida nos pertença e que, em chegando o fim, este seja nosso, também. Ninguém tem o direito de escolher por nós a forma de morrer. A morte é um momento íntimo e privado, tal como o nascimento e o amor; a única dádiva que pode apaziguar um corpo moribundo. O verdadeiro crime é negar-lha.

Publicado em fevereiro na revista Esquerda.

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