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O jornalismo, a censura e a guerra colonial

O livro intitulado "O Jornalismo Português e a Guerra Colonial" da investigadora Sílvia Torres, foi lançado esta terça-feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa e, segundo a autora, aborda uma área que “não está estudada”.
Sílvia Torres propõe-se estudar a cobertura jornalística da guerra colonial.

Para Sílvia Torres, muitos jornalistas portugueses, através de persistência, "combateram" a censura durante a Guerra Colonial (1961/74), mas alguns acabaram por "ceder" porque "não havia forma de ser contra o regime", afirmou à Lusa.

Em relação à existência de censura na cobertura da Guerra Colonial que se desenrolou em Angola, Guiné e Moçambique, a autora disse não ter “quaisquer dúvidas de que tal aconteceu”, sublinhando que esta vinha não só do lado civil (Pide), como do lado militar.

"Censura havia muita e os jornalistas tinham de saber contorná-la. Alguns sabiam que aquele censor, se calhar, percebia mais sobre determinado assunto e então a notícia não podia ir para lá. Ou que o outro tinha menos competências e não percebia deste assunto e iria deixar passar. Havia táticas para lidar com a censura, mas, de facto, a guerra não foi tão noticiada como deveria ter sido por causa da censura", referiu.

Desta forma, disse, ainda que “alguns tenham desistido, houve muitos jornalistas que não o fizeram e assim conseguiram dar algumas informações, escrevendo nas entrelinhas", afirmou, admitindo que existiam alguns outros "ligados ao regime", embora “desconheça nomes”.

Sílvia Torres disse ainda que, no livro, entre outros capítulos, há um em que são entrevistados 18 jornalistas e militares, reformados ou no ativo, que participaram nos conflitos militares nas ex-colónias.

Medo de perder o emprego ou ser preso

Sílvia Torres disse ainda que “deveria haver jornalistas ligados ao regime de António Oliveira Salazar, mas, se havia, nenhuma das pessoas que entrevistei identificou algum com essa ligação. Mas o que alguns dos entrevistados me disseram foi que não havia forma de ser contra".

"Havia o medo de perder o emprego, de ser preso pela PIDE e acabava-se um pouco por estar a favor do governo. Mas não era por vontade, tinha de ser", sublinhou.

No que diz respeito aos jornalistas que iam para África, Sílvia Torres apurou que “para eles aquela guerra não fazia sentido, nem tão pouco escrever sobre ela. Daí que não haja assim tantas notícias sobre a guerra daquele tempo, havendo, porém, algumas exceções”.

“Não havia nem bom nem mau jornalismo, porque os repórteres de guerra sabiam que a censura iria cortar os textos, razão pela qual "tentavam arranjar estratégias e não desistiam".

Entre os entrevistados para o livro, figuram nomes de jornalistas como Agostinho Azevedo, Armor Pires Mota, Baptista Bastos, Cesário Borga, David Borges, Fernando Dacosta, Fernando Correia, Francisco Pinto Balsemão, Joaquim Letria, José Manuel Barroso ou Maria Helena Saltão, e também de Otelo Saraiva de Carvalho, um dos "militares de Abril".

Militares portugueses na guerra de África.

"Tentei incluir jornalistas da metrópole e das províncias ultramarinas, militares também, da rádio, televisão, imprensa (escrita) e depois também foi uma questão de espaço. Não os podia incluir todos. Mas também não há muitos mais. Sei de alguns nomes, mas enfim, já não há assim tanta gente", esclareceu.

O livro contém igualmente depoimentos escritos de académicos, como Francisco Rui Cádima, Alberto Arons de Carvalho ou José Manuel Tengarrinha, de militares, como Otelo Saraiva de Carvalho, Fontes Ramos e Aniceto Afonso, e de jornalistas como Avelino Rodrigues, Joaquim Furtado ou Rodrigues Vaz.

Para esta investigadora, o livro - editado pela Guerra e Paz - é apenas um início. “Olho para o livro e sei que falta aqui muita coisa", disse, tendo ainda acrescentado ter consciência que “os testemunhos poderiam ser muito mais alongados e que outros jornalistas e militares poderiam ser entrevistados”.

Por essa razão, Sílvia Torres considera que este trabalho “é um começo, porque esta área não está estudada".

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