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O início das aulas visto por dentro

Apesar de tudo, os professores cá estão para assegurar o ensino presencial. A situação é de risco latente e a qualquer momento podemos ser confrontados com dificuldades, dadas as condições em que as escolas estão a funcionar. Artigo de Jorge Humberto Nogueira
Alunos juntam-se à porta da Escola Secundária José Falcão, no dia do regresso às aulas, com as regras no contexto de pandemia da Covid-19, Coimbra, 17 de setembro de 2020. Paulo Novais/Lusa
Alunos juntam-se à porta da Escola Secundária José Falcão, no dia do regresso às aulas, com as regras no contexto de pandemia da Covid-19, Coimbra, 17 de setembro de 2020. Paulo Novais/Lusa

Neste início de aulas presenciais em tempo de pandemia, ficou patente o profissionalismo da classe docente e dos assistentes operacionais das escolas, desenvolvendo um enorme esforço numa situação de risco, para que os alunos portugueses possam estar na escola, com sucesso e segurança.

Apesar do empenho de alguns, para fazer crer que os professores iam debandar e alegar doenças, a par de ameaças de cortes nos vencimentos e falta de proteção aos docentes e funcionários de risco; cá estamos na linha da frente, a resolver, como sempre.

A situação é de risco latente e a qualquer momento podemos ser confrontados com dificuldades, dadas as condições em que as escolas estão a funcionar. As turmas não foram desdobradas, o distanciamento é inexistente, as salas têm 25 a 30 alunos, ombro a ombro, onde o docente tem de circular e apoiar com proximidade. As crianças não usam máscara no pré-escolar ou no 1º ciclo, nem em Educação Física, ou no refeitório, ou enquanto comem na sala sem sair, depois misturam-se em Moral, nas salas das práticas, ou à espera dos transportes escolares, que já estão a dar problemas, como seria de esperar quando não se planificam as situações. Por fim, há o convívio, a brincadeira, os abraços, as máscaras fora do sítio ou as caseiras que não protegem, os ATL no final do dia, alunos a precisar de apoio físico em permanência e o tanto que ficou por fazer em termos de planificação e de prevenção.

Nem os famosos computadores aparecem e já há alunos em casa por razões de risco para a sua saúde. É tanta a pressão para o tudo ou nada, que se esquecem os alunos vulneráveis em termos sociais e de saúde, demonstrando que nada foi aprendido com o final do ano letivo anterior, o que tornará as soluções mistas ou não presenciais, em mais um pesadelo de desigualdades e abandono de muitos.

Não foi dado espaço às escolas para procurar as suas próprias soluções, nem se pensou num currículo adequado a um ano letivo sem precedentes, para que fosse possível uma melhor margem de afastamento e soluções de prevenção mais eficazes, acautelando igualmente quem fica em casa, mesmo num sistema presencial, aumentando as hipóteses de se conseguir chegar ao fim do ano letivo com um conjunto de aprendizagens nucleares.

Nas escolas vive-se uma situação sem paralelo, a máscara é a única barreira de proteção de facto e nenhum profissional deve descurar esta linha de segurança, porque existe um aglomerado elevado de alunos fechados, a própria função docente é de proximidade e os jovens não estão isolados do contato social fora da escola.

O esforço é também maior, pois os professores veem-se obrigados a falar alto durante horas a fio com máscara, num esforço para se fazerem entender, sem intervalos e em condições de encarceramento de docentes e alunos. Torna-se ainda mais esgotante. Só nas escolas é exigido este tipo de condições, sem se perceber quais os mecanismos legais que possam proteger os professores, para além do famoso atestado médico com o correspondente corte salarial.

Para o Ministério é o tudo ou nada, numa corrida para a frente, com um presencial a todo o custo, sem orientações claras ou atempadas, levando a situações díspares por esse país fora, com reuniões presenciais, receção aos pais, apoios e tutorias presenciais, salas práticas rotativas por todas as turmas, sendo possível tudo e o seu contrário. Não se mede febre ou sequer se fazem testes, adiando assim descobertas desagradáveis latentes. Mesmo com um aluno infetado, as aulas da turma são para continuar. Usa-se a chamada bolha, que facilmente deixa de ser bolha em tantas situações diárias, não estando sequer previsto um acompanhamento técnico aos Planos de Contingência e ao regresso às aulas, deixando cada Agrupamento entregue a si próprio.

Divulga-se a ideia de que nas escolas não há muita transmissão em crianças e jovens, esquecendo-se que a escola só funciona porque há adultos, bastando alguns faltarem para terem de fechar. Nem que fosse por isso, haveria que cuidar melhor da prevenção aos adultos, mas a média de idades é tal que se decidiu assobiar para o lado. Daí também a pertinência de criar bolsas de recursos, cujo contornos se desconhece, para evitar um vazio de substituições sempre morosas e incertas, de professores, que não se sabe se existem e de assistentes operacionais, onde a situação dos últimos anos tem sido tão paupérrima que não dá boas indicações de poder ser agora colmatada em cima do joelho.

Este é o cenário da escola que temos e é assim que os professores portugueses vivem o seu dia a dia. Mesmo com a colaboração de pais, sociedade civil, mesmo com comportamentos e com um esforço conjunto, é óbvio que há um risco eminente, estando criadas todas as condições para as coisas descambarem.

Todos desejamos que não. Por isso cá estamos, como sempre, quando muitos nos acusavam de só ver dificuldades, porque pedíamos medidas eficazes, quando nem dos docentes de risco cuidaram, quando poucos se arriscavam a trabalhar nestas condições; nas escolas portuguesas há profissionais a trabalhar pelo ensino presencial, em situações difíceis e que resolvem no terreno, mais uma vez, os problemas que os responsáveis não souberam acautelar, sacudindo a responsabilidade.

Artigo de Jorge Humberto Nogueira, professor, membro do Bloco de Esquerda.

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