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O homem por detrás da Tatuagem do Dragão

Não é possível falsear o socialismo iluminado e a paixão política de Stieg Larsson. Estes são os pensamentos que concluem um artigo num dos jornais liberais da Suécia, que discute a publicação de um quarto livro da série Millennium de Larsson. Ex-editor do “Internationalen”, Hakan Blomqvist, escreve sobre o seu colega Stieg Larsson.
Stieg Larsson, autor da trilogia millenium. Foto de Stieg Larsson Foundation

Stieg não escreveu o livro, claro – a sua vida foi abreviada por um ataque cardíaco em 2004. Em sua substituição, um novo autor escreveu o volume adicional, para grande consternação da companheira dos últimos trinta anos de vida de Stieg, Eva Gabrielsson, dos seus amigos pessoais e de outros que acusam o projeto de grotesco, imoral e de puro e simples roubo grave.

Norsteds, a casa editora, argumenta que não é incomum que um novo escritor continue o trabalho numa série popular de novelas –livros Millennium vendeu 80 mil cópias, a maior tiragem de qualquer autor sueco.  Em conjunto com os filmes, a indústria Millennium arrecadou, mais ou menos, 500 milhões de dólares, com cerca de 60 milhões destinados ao pai e ao irmão de Stieg.

Mas Stieg não foi apenas um autor de novelas policiais populares. Foi um ativista socialista e durante a sua curta vida combateu o racismo, a discriminação sexual e a injustiça social. “A comercialização do trabalho de Stieg vai contra tudo o que ele defendeu”, diz Gabrielsson que, devido à obsoleta lei de heranças sueca, não herdou o que fosse, apesar de ser a companheira de toda uma vida de Stieg.

Sobre David Lagerkrantz, o autor encarregado de escrever o quarto livro Millennium, Gabrielsson sublinha: “Que pode um escritor, vindo da elite cultural, saber sobre o mundo de Stieg Larsson, o qual foi um ativista desde a sua adolescência?” Goran Greider, reconhecido poeta sueco e editor de um diário trabalhista, exclamou: “O socialista Stieg Larsson foi apagado!”

Conheci Stieg Larsson como jornalista político e camarada de partido durante a minha condição de editor do semanário trotskista sueco “Internationalen” (The International). Desde o final dos anos 70, Stieg escreveu regularmente para o jornal, por mais de uma década, mesmo quando se envolveu em projetos diferentes. O seu conhecimento político e a sua paixão pela justiça merecem ser relembrados.

Uma vida de ativismo

Antes de se mudar para Estocolmo no final dos anos 70, Stieg viveu na cidade universitária e operária do norte da Suécia, Umea, onde integrado no meio da juventude radical de Umea se comprometeu no movimento contra a guerra do Vietname. Aí contactou com a organização de esquerda anti-estalinista “Kommunistiska Arbetarforbundet”, KAF (Liga dos Trabalhadores Comunistas) – mais tarde, em 1982, chamada “Socialistiska Partiet” - a secção sueca da Quarta Internacional Socialista, fundada por Trotsky em 1938.

A pequena organização internacional de Trotsky vivera uma renovação durante as revoltas de jovens em 1968 e um grupo afiliado foi também criado na Suécia.

Em Umea, os trotskistas – que davam ênfase ao internacionalismo, ao anti-racismo, à emancipação feminina e ao poder democrático operário contra o capitalismo e contra a ditadura estalinista – tornaram-se uma alternativa democrática ao velho Partido Comunista estalinista, tradicionalmente dominante na ala esquerda dos sindicatos trabalhistas das regiões do norte da Suécia. Stieg tornou-se membro politicamente ativo no regimento de infantaria local enquanto fazia o serviço militar, distribuindo regularmente o jornal KAF para os soldados, “Rod Soldat” (Soldado Vermelho).

Como muitos outros jovens membros do KAF, Stieg muda-se para a indústria quando termina o serviço militar, conseguindo emprego num moinho de papel. Tendo poupado algum dinheiro viajou para a Etiópia e Eritreia em 1977, em representação da Quarta Internacional, para apoiar a Frente de Libertação do Povo da Eritreia. A principal função de Stieg era entregar donativos oriundos da Suécia, mas ele treinou também as mulheres guerrilheiras no manuseamento de morteiros, uma capacidade que tinha aprendido durante o serviço militar.

De volta à Suécia, ele e a sua companheira Eva Gabrielsson mudaram-se para Estocolmo onde trabalhou por breve tempo como carteiro. Eventualmente, com início em 1979, começou a trabalhar como designer gráfico de notícias na agência sueca “Tidningarnas Telemgrambyra” (TT), onde se manteve durante vinte anos. O lugar em TT adaptava-se ao desejo de Stieg de escrever artigos no seu tempo livre para o “Internationalen”, o que, como muitos outros membros e ativistas, ele fez por convicção e solidariedade, gratuitamente.

Durante os anos 80, Stieg escreveu muitos artigos para o “Internationalen” abarcando variadíssimos tópicos. O seu primeiro trabalho mais longo foi uma interpretação marxista de Júlio Verne, que reflete o interesse de Stieg na ficção científica. Apesar de ter escrito alguns artigos de conteúdo cultural e conteúdo científico os seus principais temas foram o imperialismo, as políticas de direita e o terrorismo.

Os títulos dos seus artigos incluíam: “Reagan em conspiração nazi”, “O homem por detrás do terrorismo internacional da direita”, “Neo-nazis recrutam assassinos na Europa para a Nicarágua”, etc. Os artigos exaustivamente pesquisados de Stieg seguiam as redes da extrema direita dentro e fora da Suécia, velhos e novos nazis e as suas ligações com a política institucionalizada.

Stieg interessou-se também pela revolução na ilha de Granada, na América Central (Caraíbas), que se seguiu à vitória Sandinista na Nicarágua em 1979. Ele e Eva viajaram para Granada em 1981 para aprender mais sobre a revolução, ficando impressionados pelo projeto socialista de Maurice Bishop e pelo Movimento Nova Jóia (New Jewel Movement). Stieg e Eva viam o projeto de Bishop como um exemplo democrático de mudança revolucionária enraizado no profundo apoio e empenho popular – longe das ditaduras estalinistas do Leste europeu. “Internationalen” foi realmente o único jornal sueco que publicou artigos encomendados sobre “A revolução desconhecida de Granada”.

Após regressarem à Suécia, Stieg e Eva envolveram-se na organização de um comité de apoio a Granada e deram palestras sobre as suas experiências, por todo o país. O golpe de Estado de 1983 por uma fação estalinista dentro do regime radical de Granada – o qual derrubou e assassinou Bishop – foi um enorme choque para Stieg e Eva.

Quando o golpe foi imediatamente seguido por uma intervenção militar americana que fez desaparecer o esforço socialista, Stieg e Eva mantiveram-se em permanente contato telefónico com os ativistas da solidariedade granadina, os quais narraram os dramáticos eventos. Os artigos de Stieg no “Internationalen” tornaram-se assim uma documentação única sobre a ascensão e queda da revolução, muitas vezes ignorada, de Granada.

Por volta dos anos 80, como em muitos países, a radicalização da esquerda dos anos 70 foi desfeita na Suécia. Na sequência das vitórias de Tatcher e Reagan e da sua ofensiva neoliberal, ressurgiu a extrema direita – na Suécia, “skinheads” racistas, neo-nazis, e música do “poder branco” tornaram-se uma caraterística comum nos meios jovens.

Em conjunto com outros ativistas anti-racistas o Partido Socialista (SP) iniciou o grupo de campanha “Stoppa Rasismen” (Stop Racismo) em 1984 e Stieg empenhou-se na publicação do boletim do grupo, com o mesmo nome. Por essa data, Stieg já tinha contactado com os editores da revista antifascista britânica “Searchlight” e já tinha acordado escrever sobre acontecimentos na Suécia. O compromisso com “Searchlight” foi replicado em artigos para o “Internationalen” sobre o antifascismo na Grã-Bretanha, tanto histórico como contemporâneo.

Passando dos anos 80 para os anos 90, a situação política mundial mudou radicalmente. Com a “queda do muro” e a dissolução da União Soviética, o comunismo estalinista parecia desvanecer, deixando o campo ideológico europeu aberto tanto ao capitalismo liberal como a uma nova direita popular. Em 1991, a Suécia elegeu um governo conservador (pela primeira vez desde 1928) e o partido radical de extrema-direita e anti-imigração Ny Demokrati (Nova Democracia) conseguiu lugares no parlamento pela primeira vez.

Este avanço conservador deu lugar a uma década turbulenta na Suécia, não só em termos de desregulação da economia sueca e do desmantelamento parcial do Estado social, como também com o aumento da atividade da direita e de neo-nazis, a qual se tornou cada vez mais violenta. Imigrantes eram assassinados enquanto jornalistas e ativistas de esquerda eram aterrorizados; em 1999 um jornalista e o seu filho ficaram feridos quando o seu carro explodiu com uma bomba e um sindicalista radical de Estocolmo foi morto a tiro por nazis em sua casa.

Um empenho anti-racista e antifascista tornou-se a principal prioridade de Stieg durante este período. Em parceria com outro jornalista, Stieg escreveu um livro em 1991 sobre o extremismo da direita e percorreu o país dando palestras sobre a ameaça. Em 1995 fundou “Expo”, uma versão sueca de “Searchlight”. A revista investigou e delineou as redes de nazis e “poder branco” e enfrentou o ódio furioso de extremistas de direita. As livrarias que vendiam a revista acabavam com as montras partidas, a sua gráfica foi ameaçada e os jornalistas que escreviam para “Expo” foram incluídos em listas de morte nazis.

Para Stieg e Eva estes foram anos de extrema atividade e exaustão. A par das constantes ameaças à segurança, tudo na revista era feito em tempo livre e gratuitamente. Mas o trabalho árduo obteve resultados. A revista tornou-se notória e respeitada e quando foi abertamente ameaçada por nazis, os dois principais jornais diários não matinais, sensacionalistas, publicaram-na como suplemento.

Stieg deixa o seu lugar em TT em 1999 para trabalhar a tempo inteiro como escritor e orador sobre racismo e extremismo de direita. No curto tempo antes da sua antecipada morte, Stieg conseguiu estabelecer uma base económica mais estável para a revista e alargou a sua influência pacifista incluindo anti-racistas e anti-fascistas de variados quadrantes políticos, incluindo socialistas,  liberais e qualquer um que se opusesse à crescente vaga de extremismo da direita.

Stieg nunca se demitiu formalmente da sua militância no Partido Socialista, mas a secção norte da área de Estocolmo, da qual era membro, foi dissolvida no início dos anos 90, praticamente na mesma época em que Stieg e Eva se mudaram dos subúrbios. Tal como toda a esquerda radical, a militância e influência do Partido Socialista diminuiu entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90, pois muitos militantes desistiram ou, tal com Stieg, envolveram-se noutras atividades onde sentiram que poderiam fazer a diferença.

O último artigo de Stieg para o “Internationalen” em 1988 – com o título “Glasnost nas ruas de Moscovo. Como um vento quente” - expressava a esperança trotskista por um socialismo democrático na União Soviética.

O Partido Socialista e os seus predecessores tinham apoiado sempre os movimentos democráticos radicais no Bloco de Leste, desde a Primavera de Praga em 1968, aos sindicatos soviéticos clandestinos e o Solidariedade (Solidarnosc) na Polónia.

Essa esperança extinguiu-se em 1990 e, como resultado, a defesa do Estado social e a luta contra o racismo e o extremismo da direita passou a dominar a agenda da esquerda na Suécia e na Europa de forma mais abrangente. A nova vaga feminista estava também ligada a esta orientação, que expressava não só as limitações da velha esquerda como também a crescente resistência feminina contra os ideais e práticas da direita que se destacava.

A conjugação de anti-racismo, feminismo e luta pela justiça social não era inédito para Stieg. As suas políticas estavam enraizadas nestes ideais, tanto na sua vida pessoal como nas suas experiências políticas de toda uma vida. O seu descontentamento pela opressão sobre as mulheres e o seu ativo compromisso pelos direitos das mesmas está expresso em muitos dos seus artigos, em particular os que foram escritos sobre Granada. No entanto, o feminismo de Stieg encontra-se também nas suas políticas do dia a dia, como nas discussões internas partidárias onde defendia um serviço militar universal para as mulheres – uma posição minoritária nem sempre aceite pelos anti-militaristas dentro da organização.

As Políticas da Literatura

Os livros Millennium de Stieg foram um hobby, um passatempo – uma forma de descontração depois de dias e de semanas de excesso de trabalho. Mas, os mesmos são fortemente influenciados pela sua vida política - a visita a Granada no “A Rapariga Que Brincava Com O Fogo”, redes residuais nazis em “A Rapariga Da Tatuagem Do Dragão”, a galeria de personagens, o terror da extrema direita, a contra-inteligência paralela e ilegal sueca e a revista indiscreta e ameaçada sempre debaixo de pressão, tudo é retirado das experiências e paixões de Stieg. O “socialismo iluminado e a paixão política” da série Millennium, como nota o revisor sueco, nada mais é do que a vida de Stieg Larsson canalizada em forma literária para os seus livros.

É claro que Stieg nunca viu os seus livros transformarem-se na indústria Millennium, com as suas centenas de milhões de lucro – ele morreu por um ataque cardíaco induzido por excesso de trabalho em novembro de 2004. Nos anos seguintes, o trabalho de Stieg foi sequestrado pelas mesmas máquinas do lucro contra as quais sempre lutou, a herança e os direitos intelectuais da série foram arrancados das mãos da companheira, no amor e no ativismo de toda a vida, de Stieg.

Quando o há muito esquecido testamento de Stieg foi recentemente encontrado, onde ele lega os seus pequenos recursos financeiros ao  seu partido, nenhum dos seus antigos camaradas aplaudiu com olhos gananciosos. O testamento fora escrito décadas antes quando ele viajara à Eritreia e nunca foi testemunhado. Não foi o medo de um processo judicial preparado que dissuadiu o partido de prosseguir a sua exigência.

Pelo contrário, numa demonstração política largamente difundida, os antigos camaradas  de Stieg em Umea, invocaram interesse público do testamento para exigir uma mudança na obsoleta legislação da Suécia e para que a companhia editora e ainda os familiares de Stieg deixassem que a sua herdeira por direito, Eva Gabrielsson, tomasse a responsabilidade pelo trabalho de Stieg.

Talvez a visibilidade pública dada a esta ação tenha contribuído para a longa batalha de Eva para convencer os familiares de Stieg para assegurarem a continuidade de “Expo” - o projeto de toda a vida de Stieg – com os benefícios da série de livros. “Expo” recebeu até hoje apenas 2,5 milhões de dólares através dos familiares de Stieg, mas prometem agora os mesmos, que os benefícios resultantes do quarto livro serão para a fundação da revista. O que aconteceu aos restantes milhões arrecadados do esforço de um exausto e apaixonado ativista é outra história – uma trama da vida real e amplo material para um quarto livro muito mais interessante.


Tradução de Maria Celeste Santos para esquerda.net

Artigo publicado em Jacobin.

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