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O hijab no Irão: de símbolo de protesto a símbolo da opressão

Os protestos contra o uso obrigatório do hijab têm um objetivo claro e, se bem sucedido, será uma vitória para a sociedade civil iraniana. Artigo de Moujan Mirdamani. 
Como o Irão usa a lei de uso obrigatório do hijab para controlar os cidadãos - e por que estes estão a protestar
A "rapariga da rua Enghelab" filmada a segurar o seu hijab em protesto em dezembro de 2017. Fotografia via Youtube.

Nas primeiras semanas de 2018 surgiram no Irão protestos contra a lei de uso obrigatório do hijab - lei que obriga todas as mulheres a usarem-no em público. As mulheres, agindo individualmente, têm subido a caixas em espaços públicos, retirando os lenços e segurando-os como se fossem bandeiras. Alguns homens também participaram nos protestos.  

Até ao momento, o Governo reagiu com a detenção de 29 pessoas ligadas à campanha contra o hijab.

Mas um relatório lançado recentemente pelo Governo iraniano demonstra que 49% da população está contra a lei de uso obrigatório do hijab, embora haja a probabilidade de o número real ser superior. 

O hijab ocupa um lugar importante na dinâmica de poderes entre a sociedade e o atual regime no poder no país. Durante a revolução de 1978-79, liderada pelo Ayatollah Khomeini, o hijab tornou-se num símbolo de resistência e protesto contra a monarquia de Mohammad Reza Shah. O regime Pahlavi do Shah e do seu predecessor tinha tentado modernizar o país, mas as suas políticas colidiram com os valores religiosos de grande parte da população. 

O uso do hijab em público tornou-se num símbolo de protesto e solidariedade contra a monarquia, independente de quão religiosa fosse a mulher que o usasse. Mas o uso do véu não era uma obrigatoriedade para as manifestantes, nem esse era uma exigência da revolução. 

Poucos anos após a revolução, a guerra entre o Irão e o Iraque foi usada como desculpa para reprimir as forças da oposição e introduzir legislação mais rígida. As mulheres passaram a ser obrigadas a usar o hijab em 1985, com a introdução de uma lei que obrigava todas as mulheres no Irão, independentemente das suas crenças religiosas, a vestir-se de acordo com os ensinamentos islâmicos. O hijab tornou-se numa ferramenta do governo para a implementação de uma rígida ideologia religiosa.

Um símbolo de opressão

A nova lei marcou uma governação ideológica que ainda se mantém em vigor. A lei de uso obrigatório do hijab foi usada para banir as mulheres de alguns espaços públicos, como alguns estádios desportivos, ou para acrescentar restrições à sua educação e práticas profissionais. Também tem sido usada como forma de exclusão de qualquer pessoa que não concorde com o regime, catalogadas como “usando mal” o hijab. A não adesão ao seu uso continua a ser encarada como um símbolo de oposição ao governo. 

A lei é também usada como justificação para o cada vez maior envolvimento do regime na vida privada dos cidadãos. Desde cedo que as meninas são forçadas a cobrir os cabelos na escola e em locais públicos. Adolescentes e jovens são parados regularmente pela “polícia da moralidade”, cuja principal responsabilidade é policiar a aparência das pessoas e a adesão ao uso do hijab

Para as mulheres isso passa pela forma como usam os lenços e pelo comprimento das suas roupas. Os homens estão proibidos de usar calções, de ter cortes de cabelo que possam ser vistos como ocidentais e de usar camisolas com padrões ou escritos “ocidentais”. Nos últimos anos, tornou-se prática comum da polícia a invasão de festas privadas, detendo raparigas e rapazes por não aderirem à lei do hijab. A punição varia entre multas e dois meses na prisão. 

Vir a público

Estas violações das vidas privadas dos cidadãos vêm contribuir para a falta de felicidade, satisfação e esperança na sociedade iraniana. Isto é algo que o Governo reconhece como sendo uma das muitas crises sociais com as quais o país se depara.  

Os protestos contra o hijab surgiram no seguimento de manifestações em mais de 80 cidades iranianas no final de 2017. Muitas das análises sociais destes protestos recentes, em grande parte motivados por dificuldades económicas, apontam para um forte sentimento de desesperança. 

A lei do uso obrigatório do hijab contribui para este sentimento, empurrando a oposição ao regime para a esfera privada das vidas das pessoas. É esta oposição oculta que alimenta as demonstrações públicas dispersas, mas fortes, de conflito no Irão contra as forças opressoras do regime.

À medida que se aproxima o aniversário da revolução de 1979, a 11 de fevereiro, algumas mulheres têm a coragem de trazer de volta estes protestos para o espaço público. Ao protestar contra o uso obrigatório do hijab, as iranianas estão a manifestar-se contra a própria ideologia do regime.

O hijab tornou-se novamente num símbolo, desta vez da ideologia e poder de um regime sob o povo. Ao protestarem contra esta noção, as iranianas estão a traçar uma fronteira para o Governo: as pessoas têm direito aos seus corpos e à sua aparência e esta não é uma matéria na qual o Governo se deve intrometer.

Aquilo que a sociedade iraniana mais precisa é esperança - não só como força motriz para uma participação ativa dos cidadãos, mas também como força unificadora que una diferentes fações da sociedade. O protesto contra o hijab é simbólico. Mas é também um protesto com uma exigência clara e com potencial para unir os iranianos, independentemente do seu género e crenças religiosas. Pode ser aquilo de que a sociedade iraniana necessita para restaurar a esperança no futuro e, mais importante, para uma mudança.

 

Tradução: Érica Almeida Postiço. Artigo publicado no site The Conversation

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