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O gabinete dos comparsas de Trump parece forte, mas tem medo

Este é o pano de fundo da ascensão de Trump ao poder: os nossos movimentos começaram a ganhar. Não digo que foram suficientemente fortes, pois não chegaram a isso. Não digo que estávamos suficientemente unidos, pois não estávamos. Porém, algo estava a mudar. Por Naomi Klein
“Resiste”, apelo escrito numa bandeira colocada por ativistas da Greenpeace num guindaste de construção perto da Casa Branca, Washington em 25 de janeiro de 2017 – Foto da Greenpeace
“Resiste”, apelo escrito numa bandeira colocada por ativistas da Greenpeace num guindaste de construção perto da Casa Branca, Washington em 25 de janeiro de 2017 – Foto da Greenpeace

Recuemos o olhar e façamos um reconhecimento do que se passa agora mesmo em Washington. Aqueles que já possuem uma porção absolutamente obscena da riqueza do planeta, e cuja parte cresce cada vez mais a cada ano que passa – o último relatório a esse respeito afirma que oito homens possuem a mesma quantidade de riqueza que a metade do mundo –, está determinada a acumular ainda mais. As figuras centrais do recém nomeado gabinete de Donald Trump não são apenas megarricos, são indivíduos que fizeram a sua fortuna sabendo que prejudicavam as pessoas mais vulneráveis do planeta, e que causavam dano ao próprio planeta. Parece ser uma espécie de requisito para o cargo.

Temos aqui o banqueiro trapaceiro Steve Mnuchin, escolhido por Trump para ser o Secretário do Tesouro, e cuja “máquina de execuções hipotecárias” expulsou dezenas de milhares de pessoas dos seus lares.

Da indústria de despejos à indústria de comida porcaria, de onde saiu o designado por Trump para ser o Secretário do Trabalho, Andrew Puzder. Como diretor executivo da CKE Restaurantes, dona de marcas como a Hardee’s, um império de comida rápida, não lhe bastava pagar aos seus trabalhadores salários miseráveis, que não davam para viver. Várias ações judiciais acusam a sua empresa de roubar salários dos trabalhadores, não pagando as horas extras e outros benefícios.

Passando da comida porcaria à ciência porcaria, chegamos ao escolhido por Trump para ser o Secretário de Estado: Rex Tillerson. Primeiro como executivo, e depois como diretor executivo da Exxon, fez com que a sua empresa financiasse e divulgasse relatórios científicos que são lixo, com os quais pressionou ferozmente nos bastidores contra as ações internacionais mais significativas contra o caos climático do planeta. Devido a essas escolhas, o mundo perdeu dezenas de anos, quando deveríamos estar a livrar-nos da nossa dependência insana dos combustíveis fósseis, e isso fez com que se acelerasse a crise do clima. Graças a estas nomeações, um número incontável de pessoas está a perder as suas casas, por causa de tempestades, da elevação dos níveis marítimos, das ondas de calor ou pelas secas. Em última instância, serão milhões os que verão desaparecer a sua terra natal sob as ondas. Como de costume, as pessoas que sofrem as primeiras e piores consequências são os mais pobres, sobretudo de pele negra e morena.

Casas roubadas. Salários roubados. Culturas e países roubados. Tudo imoral. Tudo extremamente rentável.

A reação popular estava a aumentar, e é precisamente por essa razão que esta quadrilha de diretores executivos andava preocupada com a possibilidade da festa estar quase a acabar. Tinham medo

Contudo, a reação popular estava a aumentar, e é precisamente por essa razão que esta quadrilha de diretores executivos andava preocupada com a possibilidade da festa estar quase a acabar. Tinham medo. Banqueiros como Mnuchin lembram-se do desastre financeiro de 2008 e do debate aberto então sobre a nacionalização dos bancos. Eles foram testemunhas da ascensão do Movimento Occupy, e depois da ressonância alcançada pelo discurso de Bernie Sanders contra os bancos, durante a sua campanha nas primárias.

Os chefes do setor de serviços, como Andrew Puzder, estão aterrorizados pelo crescente poder da “luta pelos 15 dólares”, a principal campanha pelo aumento do salário mínimo, que vem conseguindo vitórias em cidades e Estados de todo o país. E se Bernie tivesse vencido aquela acirrada eleição primária democrata, essa campanha podia bem ter tido um apoiante na Casa Branca. Imaginemos como isso seria assustador para um sector que depende da exploração laboral para manter os preços baixos e os lucros altos.

Ninguém tem mais razões que Tillerson para temer os movimentos sociais em ascensão. Devido ao crescente poder do movimento climático global, a Exxon está sob ataque em todas as frentes

E ninguém tem mais razões que Tillerson para temer os movimentos sociais em ascensão. Devido ao crescente poder do movimento climático global, a Exxon está sob ataque em todas as frentes. Muitos dos oleodutos que transportam o seu petróleo estão a ser bloqueados, não só nos Estados Unidos mas em todo o mundo. As campanhas de desinvestimento alastram como o fogo, o que provoca incerteza nos mercados. No último ano, os diversos enganos da Exxon acabaram sendo investigados pela SEC (a Comissão de Investigação de Bolsas de Valores dos Estados Unidos) e por vários promotores estaduais. A ameaça que a Exxon teme, de que o mundo comece a atuar mais fortemente contra a crise climática, é existencial. As metas de temperatura do Acordo de Paris sobre o clima são totalmente incompatíveis com a atividade de queima de carbono que empresas como a Exxon têm nas suas reservas, fonte de sua valorização mercantil. Essa é a razão pela qual os próprios acionistas da petrolífera têm feito perguntas cada vez mais incómodas sobre se estavam a ficar com um monte de ativos sem valor nas mãos.

Este é o pano de fundo da ascensão de Trump ao poder: os nossos movimentos começaram a ganhar. Não digo que foram suficientemente fortes, pois não chegaram a isso. Não digo que estávamos suficientemente unidos, pois não estávamos. Porém, algo estava a mudar. E em vez de se arriscar a que houvesse um avanço maior, a quadrilha de viciados em combustíveis fósseis, vendedores de comida de plástico e credores predatórios preferiu juntar-se para tomar o poder e proteger a sua mal adquirida riqueza.

Sejamos claros: isto não é uma transição de poder pacífica. Trata-se de uma absorção empresarial. Os interesses que eles vêm exigindo há anos dos dois partidos mais importantes, e que agora, cansados do jogo político, decidiram defender eles mesmos. Aparentemente, todo aquele apaparicar dos políticos, os subornos legalizados, tornaram-se um insulto ao direito divino que eles sentem que possuem.

Tiram de cena os intermediários e fazem o que todo o manda-chuva quer quando quer que algo seja feito exatamente como ele quer: faz ele mesmo

Assim, tiram de cena os intermediários e fazem o que todo o manda-chuva quer quando quer que algo seja feito exatamente como ele quer: faz ele mesmo. A Exxon para Secretário de Estado, a Hardee’s para Secretário do Trabalho, a General Dynamics para Secretário de Defesa. E os tipos da Goldman Sachs para tudo o que sobrar. Depois de décadas de privatizar o Estado aos pouquinhos, resolveram tomar o governo de uma vez. É a fronteira final do neoliberalismo. Por isso Trump e os seus nomeados riem das inúteis objeções dos que acusam esses personagens de possuir conflitos de interesse.

O que podemos fazer? Em primeiro lugar, recordar sempre as debilidades desse grupo, mesmo quando eles exerçam um poder puro e duro

Diante disso, o que podemos fazer? Em primeiro lugar, recordar sempre as debilidades desse grupo, mesmo quando eles exerçam um poder puro e duro. A razão pela qual caíram as suas máscaras e estamos a testemunhar um governo de caráter empresarial, não se deve a que essas empresas se sentiram mais poderosas que antes; pelo contrário, é porque entraram em pânico.

Além disso, a maioria dos norte-americanos não votou em Trump. Cerca de 40% não participou na eleição, ficou em casa, e entre os que votaram a clara maioria o fez a favor de Hillary Clinton. Ele ganhou graças a um sistema muito viciado. E mesmo nesse sistema ele não ganhou, foi Clinton que perdeu, junto com o establishment do Partido Democrata. Trump não ganhou com grande entusiasmo e por larga margem. Ganhou porque Hillary perdeu votos e teve falta de entusiasmo. A direção do Partido Democrata pensou que não era importante fazer campanha sobre melhoras tangíveis na vida das pessoas. Não tinham praticamente nada que a oferecer às pessoas cujas vidas foram devastadas pelos ataques do neoliberalismo. Acreditavam que podiam cavalgar sobre o medo a um governo de Trump, e isso não funcionou.

Naomi Klein - Foto wikimedia

Naomi Klein - Foto wikimedia

A boa notícia é a seguinte: tudo isto torna Donald Trump incrivelmente vulnerável. Este é o tipo que chegou ao poder contando as mentiras mais absurdas e descaradas, apresentando-se como um defensor do trabalhador que finalmente enfrentaria o poder e a influência dos grandes negócios em Washington. Uma parte da sua base eleitoral já mostra arrependimento, e esse grupo tende a crescer.

Mais alguma coisa a nosso favor? Esta administração vai colocar todas as cartas na mesa de uma vez. Há relatos que falam numa projeção de orçamento que causará choque e terror, baseado num corte de 10 biliões de dólares em dez anos, cortando tudo desde os programas contra a violência de género aos incentivos às artes, das pesquisas sobre energias renováveis às unidades de proteção policial de comunidades. Claro que eles pensam que essa estratégia de blitzkrieg vai destruir-nos completamente. Mas podem ser surpreendidos. Esta pode ser a oportunidade de nos unirmos por uma causa em comum. Se servir como indicador, a dimensão das manifestações de mulheres mostra que começamos bem.

Construir alianças sólidas num momento de “política de capelinhas” é um trabalho difícil. É preciso enfrentar histórias dolorosas antes de conseguir progressos. A cultura de financiamento das fundações e as disputas de ego dentro do ativismo tendem a lançar tanto pessoas como movimentos uns contra os outros, o que desencoraja a colaboração. Porém, as dificuldades não podem dar lugar ao desespero. Citando um ditado popular da esquerda francesa: “a hora pede otimismo, deixemos o pessimismo para tempos melhores”.

Pessoalmente, não consigo ter muito otimismo. Mas neste momento em que tudo está em jogo, podemos e devemos encontrar a nossa mais firme determinação.

Artigo de Naomi Klein publicado originalmente em The Nation. Tradução de Victor Farinelli para Carta Maior.

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