Uma carta enviada por Mário Centeno aos restantes ministros das Finanças da zona euro deixa em aberto a possibilidade de recorrer a novos mecanismos na resposta europeia à pandemia. Embora ainda falte uma semana para a próxima reunião do Eurogrupo (7 de Abril), Centeno, presidente do órgão, avisa que os custos desta crise terão de ser partilhados entre todos os países, de forma a manter a coesão da zona euro. Caso não haja uma resposta comum, pode não ser possível evitar a fragmentação.
O Público dá conta de que a conclusão de uma videoconferência realizada na terça-feira entre a Presidente da Comissão Europeia (Ursula von der Leyen), o presidente do Conselho Europeu (Charles Michel), a presidente do BCE (Christine Lagarde) e o presidente do Eurogrupo (Mário Centeno) foi a de que “chegou a altura de pensar fora da caixa”. O cenário inédito que a UE atravessa e o desafio de relançar a atividade económica depois de contido o coronavírus motiva a preocupação dos líderes europeus em chegar a acordo sobre o caminho a seguir.
O problema é que este acordo tem sido difícil de alcançar. Há menos de uma semana, a reunião do Conselho, que juntou os líderes de governo dos 27 países da UE, acabou por espelhar as divisões entre os países do Norte e os do Sul. Na zona euro, as divergências são as mesmas: na última reunião do Eurogrupo, os países nem foram capazes de produzir um comunicado final conjunto, não tendo avançado nenhuma nova medida de combate à crise.
Se, por um lado, países como a Alemanha e a Holanda apenas aceitam o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), um fundo que disponibiliza empréstimos num valor até 2% do PIB de cada país (sujeitos a condicionalidade), por outro, boa parte dos restantes considera esta opção insuficiente. Nestes países, a memória da austeridade imposta como condição dos empréstimos da troika na última crise continua viva, pelo que defendem a emissão de títulos de dívida conjunta (coronabonds) para financiar a despesa relacionada com a pandemia, algo que os países do Norte têm sempre rejeitado.
Por outro lado, o Financial Times noticia que a Comissão Europeia quer avançar com um sistema europeu de garantia de subsídio de desemprego na ordem dos 80 a 100 mil milhões de euros. A ideia é ajudar os países afetados, permitindo financiar a despesa com programas de apoio a quem perde o emprego devido à crise. A UE endividar-se-ia usando como garantia fundos não alocados no orçamento comunitário e depois distribuiria os fundos através de empréstimos aos países. Esta era uma ideia que já constava do programa de trabalhos da Comissão e que parece ter avançado devido à crise que se atravessa. No entanto, há quem olhe para esta medida com desconfiança, dado que se traduz em mais dívida para os países afetados.
Parece que vão ajudar os Estados-membros a apoiar os desempregados, certo? Mas não. É só mais dívida. Mais vale ir ao BCE com juros baixos e sem condições punitivas...https://t.co/RYMGgIvZxa
— José Gusmão (@joseggusmao) April 1, 2020
O que parece certo é que, na corrida contra o tempo para combater a crise, os líderes europeus procuram chegar finalmente a consenso para uma resposta coordenada.