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O Espírito de 45, de Ken Loach

O Espírito de 45 chegou a uma sala portuguesa. Só uma, tarde, mas chegou. O filme de Ken Loach vai no Cinema Ideal, em Lisboa.
"O Espírito de 45" é um filme sobre a urgência do socialismo
"O Espírito de 45" é um filme sobre a urgência do socialismo

É bom vê-lo, porque se aprende sobre a Inglaterra do antes e do pós guerra, a mais antiga classe operária do mundo penando em bairros de miséria nas cidades da maior potência imperial da época. Ken Loach parte deste sofrimento social e da celebração da vitória contra o nazismo para chegar depressa à contradição do dia seguinte.

O país está perante as tarefas da reconstrução e da reconversão da economia de guerra. Mobilizada nesse esforço, a maioria social vê no momento a oportunidade para uma nova distribuição da riqueza, em salários diretos e em proteção social. Essa consciência é ilustrada por uma das pérolas de arquivo que abundam neste filme, a sonora vaia popular contra um Winston Churchill atónito, num comício eleitoral em 1945. Finda a guerra, o chefe histórico é vexado em plena rua por outro conflito, o das classes, num país desigual e exaurido, em busca de um novo tempo.

O trabalho é um direito e o seu produto é de quem trabalha; estes objetivos implicam uma economia planificada que também impeça o colapso ambiental.

Esta erupção do povo vai consumar-se na primeira vitória eleitoral da história do Partido Trabalhista, organização com fundas raízes no movimento operário britânico (não confundir com o New Labour reinventado por Tony Blair nos anos 90). Iniciam-se enormes transformações em todas as esferas da vida económica, com a nacionalização da energia, das minas, dos correios, dos transportes e da indústria pesada, e com a criação do Serviço Nacional de Saúde. Ao contar a história desses processos, Loach evoca as lutas que lhes abriram caminho e os protagonistas governamentais de uma social-democracia que já não existe há muito tempo. E faz jus à sua obra cinematográfica, aqui num filme político, um ensaio sobre temas que têm estado no centro dos seus filmes: o que a todos serve, deve ser de todos; o trabalho é um direito e o seu produto é de quem trabalha; estes objetivos implicam uma economia planificada que também impeça o colapso ambiental.

O final do filme aborda a precariedade de todas as conquistas. Loach lembra o início do processo de privatização dos setores estratégicos em Inglaterra e do declínio do Estado social pela mão de Margaret Thatcher e da revolução neoliberal que a primeira-ministra lançou com o então presidente norte-americano Ronald Reagan. Essa ofensiva responde à necessidade de repor as taxas de lucros, afetadas pelo início de um longo ciclo depressivo nas economias do capitalismo avançado. Mas esta reversão de bens comuns em mercadorias impõe outra pergunta, à qual o filme chega: basta a propriedade pública dos recursos estratégicos para assegurar prestações sociais de qualidade e um modelo de desenvolvimento socialmente justo?

Ken Loach deixa várias pistas para essa resposta. Sem a experiência da transformação do Estado e da socialização da economia - com a intervenção direta dos trabalhadores, quadros e comunidades utentes -, as empresas públicas mantiveram estruturas de poder social tradicionais da economia capitalista. Com elas, puderam instalar-se as lógicas clientelares e de influência que acabam por desmentir, aos olhos da população, que a propriedade pública é mesmo de todos. Ao mostrar, na atualidade, a precariedade e a subcontratação infiltrando-se em áreas cada vez maiores do próprio Serviços Nacional de Saúde inglês, Ken Loach mostra a que ponto chega a degradação das conquistas do pós-guerra e como a lógica do lucro contém a dinâmica da privatização. Desse ponto de vista, O Espírito de 45 é um filme sobre a urgência do socialismo.

O Espírito de 45, de Ken Loach

em exibição no Cinema Ideal, em Lisboa.

Sessões às 17h45 e 21h15

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Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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