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O direito internacional não é para israelitas

O Governo israelita já começou a trabalhar para o pós-guerra formando uma comissão interministerial, dirigida pelo Exército, para fazer frente a possíveis acusações de crimes de guerra nos fóruns de justiça internacionais. Artigo de Eugenio Garcia Gascón.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu discursando na Assembleia Geral das Nações Unidas.

O Governo israelita já começou a trabalhar para o pós-guerra formando uma comissão interministerial, dirigida pelo Exército, para fazer frente a possíveis acusações de crimes de guerra nos fóruns de justiça internacionais.

O anúncio chegou umas horas antes de a aviação israelita ter morto, esta manhã, dez membros da família Al Gul na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, causando ferimentos a outros 20 membros da mesma família. Dezenas de famílias palestinianas viveram situações semelhantes durante os últimos dias. Algumas foram apagadas completamente da face da terra durante os bombardeios indiscriminados de Benjamin Netanyahu em Gaza.

O Exército tinha ordenado aos residentes de Rafah que se fechassem nas suas casas e que não saíssem à rua, mas depois bombardeou à discrição com a aviação e a artilharia essas mesmas casas. Muitas famílias de Rafah foram refugiar-se a numa escola da UNRWA, a agência da ONU para os refugiados. Achavam que a escola era um lugar mais seguro que as suas casas, mas hoje os israelitas bombardearam-na causando outros dez mortos, todos civis.

Mas o Governo israelita pode estar tranquilo, da mesma maneira que pode estar tranquilo o piloto do F-16 norte-americano que disparou a sua bomba americana sobre a casa da família Al Gul e depois regressou à sua base como tinha previsto. As possíveis denúncias que se façam após a guerra cairão em saco roto, como caíram as de guerras anteriores contra os palestinianos, ou a terrível destruição civil que causaram as bombas israelitas na guerra do Líbano de 2006, sem contar com os aproximadamente 1.300 libaneses mortos, na sua imensa maioria civis.

O sistema democrático, com o seu vistoso jogo democrático incluído, tem estas coisas. Os grandes paladinos da democracia na Europa, como os dirigentes da Alemanha (Angela Merkel) do Reino Unido (David Cameron) e de França (François Hollande) à cabeça, não mexerão um dedo para perseguir as tropelias que se cometeram em Gaza durante os últimos 27 dias.

Netanyahu sabe muito bem como lidar com as chamadas "democracias ocidentais", pois é um deles. Em dias como estes Netanyahu enche a boca com a palavra "democracia" e adverte os ocidentais que Israel está a lutar por eles, dando a entender que se cai Israel depois cairão os países ocidentais, o que causa pavor a muitos. Assim o fez no seu discurso televisivo da noite de sábado, em que falou em hebreu mas, sobretudo, em inglês.

O discurso israelita de defesa da "democracia ocidental" substituiu nestes dias o tradicional do "Estado judeu e democrático", que logo que acabe a guerra recuperará  o seu lugar privilegiado.

Os líderes israelitas pensam, e alguns como o ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman dizem-no com clareza , que quando o judaísmo e a democracia entram em contradição, deve prevalecer o judaísmo sobre a democracia. Como se a religião fosse comparável com a democracia. Talvez seja isso o que agora está a ocorrer em Gaza. Isto é, que o que se está a passar tem muito pouco que ver com a democracia. Lieberman é laico, supostamente, mas sabe que a religião é a base sobre a qual se ergue o Estado judeu, de maneira que é natural que coloque o judaísmo à frente da democracia.

O outro pilar do Estado judeu é, evidentemente, o nacionalismo, um nacionalismo exacerbado que vive da mão da religião, como se a religião e o nacionalismo fossem compatíveis com a democracia. Os meninos israelitas mamam judaísmo e nacionalismo no jardim-de-infância, e depois durante toda a vida.

O Direito internacional criou-se para tipos como os sérvios ou os africanos, que pagam na prisão os seus crimes de guerra, mas não para os israelitas, que não param de receber ajuda militar, política e económica do ocidente por parte desses países que estão convencidos, desde este ponto de vista que alimenta Israel, que Israel é o posto avançado que defende o sistema imperante.

Pouco importa que o sistema seja manifestamente injusto. O importante é meter medo às pessoas, manter a luta contra ventos e marés e encher a boca com a palavra "democracia", ainda que o que se suceda tenha muito pouco que ver com democracia.

Agora, é difícil achar que os pilotos que disparam diariamente essas bombas contra civis desarmados estejam realmente defendendo a democracia. Mas do que podemos estar seguros é de que nenhum deles será levado a tribunal internacional.

Quando terminar esta guerra, o discurso oficial voltará a ser o do "Estado judeu e democrático", as águas voltarão a acalmar, e o qualificativo "judeu" prevalecerá de uma maneira aberta sobre o qualificativo "democrático", como acontecesse agora de forma velada.

A cada um em sua casa e Deus na de todos, mas ninguém no banco dos réus. E santas páscoas. Até ao próximo massacre.

Artigo publicado em Publico.es

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