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O dia 25 não foi o dia mais feliz da minha vida

[O meu pai], referindo-se à PIDE, ao governo e aos fascistas, clamava alto para os vizinhos e a quem passava: “Eles têm que ser julgados num tribunal plenário. Não pode haver perdão para o que fizeram!” Talvez sejam estas as imagens do dia 25 de Abril que retenho com maior precisão. A felicidade só me chegou na madrugada do dia 27. Por Helena Pato.
Helena Pato em frente à prisão de Caxias a aguardar a libertação dos presos políticos, entre os quais José Manuel Tengarrinha, com quem era casada à época.
Helena Pato em frente à prisão de Caxias a aguardar a libertação dos presos políticos, entre os quais José Tengarrinha, com quem era casada à época.

No dia 18 Abril, ao alvorecer, tal como era prática deles, tocaram-nos à porta – e, exactamente à mesma hora, à porta de mais uma dúzia de antifascistas, em Lisboa. O Zé só teve tempo de correr para o quarto das crianças e de esconder a agenda no porta-bebés da Rosa. Quase em simultâneo, o telefone começou a tocar ininterruptamente: eram jornalistas e familiares dos amigos que também haviam sido presos, querendo avisar-nos da vaga de prisões. A notícia estava a chegar aos jornais. Nem tivemos tempo de atender.

Para nós era tarde: tinham entrado pela casa dentro três agentes da PIDE/DGS e um inspector. Este, logo à entrada, informou o JT de que ia ser «detido para averiguações» – a fórmula do costume. Mandaram-no arranjar-se com brevidade e, enquanto um deles se colou à porta entreaberta da casa de banho, os outros dois passaram a pente fino os quartos, a sala, a cozinha, tudo. Procuravam algo que o incriminasse. Em vão, que a operação de limpeza, feita na véspera, não deixara rasto das actividades que desenvolvíamos. «Para fazer uma busca a sério aqui nem uma semana» – dizia, desalentado, o agente Coelho. Tinha razão o funcionário da DGS: não tanto pelos livros das nossas estantes, mais pelos montes de papéis, jornais, documentos, que atafulhavam a sala de trabalho do historiador. O telefone não se calava. Nem eu nem o Zé tivemos dúvidas do que estaria a acontecer pela cidade. «Ninguém responda! Bem sabemos que há muita gente a querer falar consigo» – avisou um deles, um tal Bronze, enquanto folheava manuscritos, numa leitura minuciosa dos trabalhos de investigação, que ia acompanhando de insólitos comentários. Oh que tristeza! Burros, ignorantes e perigosos! Sacanas! – eram palavras que me iam ocorrendo. Finda a busca esmiuçada, começaram a atirar para o chão os livros que retiravam das estantes, na sala: umas dezenas, seleccionados para apreensão. Em grande parte, com base em critérios que evidenciavam a profunda ignorância daquela gente “básica” da PIDE/DGS. Pouco tempo depois, alguns, dispersos, atapetavam a sala, outros acumulavam-se em pilhas. Enquanto a devassa decorria, os nossos filhos pareciam viver já no futuro. Ela, com um ano e meio, dormia serena sobre a agenda que continha marcações cifradas de datas de reuniões ilegais ou clandestinas. Ele, com três anos, ao passar na sala interrogava, inocente: «Mãe, estes amigos estão a ler os nossos livros?» No dia seguinte fiz 35 anos e reuni a família em casa, num jantar, a fazer de conta que a vida prosseguia igual. As crianças batiam palmas, contentes, soprando as velas do bolo de aniversário, e eu só ansiava pelo dia 25 de Abril… – Assim mesmo! Contava as horas que faltavam para chegar esse dia, porque tinha-me sido marcada a primeira visita com o meu marido para uma semana depois, exactamente nessa histórica quinta-feira da Revolução.

No dia 24 deitei-me ansiosa por que chegasse a manhã. Às 11 horas iria a Caxias, vê-lo e levar-lhe comida e roupas. Seriam 4 da madrugada quando o telefone tocou na sala e, em sobressalto, fui atender. Do outro lado, uma voz grave:

- Venho informá-la de que estão em curso movimentações militares para derrubar o regime… Estamos numa revolução e uma das primeiras coisas que vamos fazer é libertar o seu marido e todos os presos políticos.

«Só me faltava este!» – pensei e, sem dizer uma palavra, desliguei o telefone.

Provocadores! – resmunguei, enquanto regressava à cama. Pelas 6 horas acordaram-me outra vez, mas agora era alguém que eu conhecia a dar-me a notícia. O jornalista António Santos falava e, ao fundo, ouvia-se o barulho da rotativa do jornal. E, por estranho que pareça, não posso dizer que esse tenha sido o dia mais feliz da minha vida…

Dois dias inteiros entre o pânico e a euforia

O estertor do regime iria revelar-se particularmente difícil para os presos políticos, sobretudo para aqueles, homens e mulheres, que se encontravam em Caxias e em Peniche. Começaram por desconhecer a natureza das movimentações de que se davam conta, admitindo tratar-se de um golpe da extrema-direita. Depois, a espera. Foram horas e horas de angústia, que nós, cá fora, partilhámos com eles, somente porque lha adivinhámos, minuto a minuto. No exterior do forte, as famílias iam tendo a informação de que estavam a decorrer cuidadas negociações para a libertação e conheciam o risco de os pides e os guardas prisionais, antes de se entregarem, poderem abrir fogo contra os presos. Pouco terá ficado registado, gravado, filmado, impresso, acerca do desfiar das longas e dramáticas horas vividas por quem aguardava, sobretudo na proximidade da prisão. Na memória do grupo aí presente estarão esculpidos, de certeza, pedaços tenebrosos do início da revolução. Da minha nunca se apagaram…

Vi o telejornal do dia 25 em casa de um querido amigo que eu conhecera na Seara Nova e que era, então, da CDE, o Alberto Pedroso. Entre o pânico e a alegria.

Hoje, passados todos estes anos, não me lembro de coisas que eu juraria, nesse dia, que iriam ficar até ao meu fim. Vividos em estados emocionais exacerbadíssimos e numa explosão de afectos, aqueles acontecimentos pareciam estar a ser inscritos a letra de ouro na minha memória. É pois surpreendente que não tenha a menor ideia do noticiário dessa noite na RTP, nem de grande parte do que fiz durante o dia. Só retalhos dispersos: uma reunião de familiares de presos políticos, em Benfica, em casa do jornalista (preso) Fernando Correia; uma ida com a Aida Magro ao Rádio Clube Português, na Sampaio Pina, a convite do General Costa Neves [então, major Costa Neves, que liderou o grupo que ocupou o Rádio Clube Português e que pediu que nos dirigíssemos aos portugueses, em representação das famílias, apelando à serenidade e confiança no MFA]. Mas, nunca esqueci o meu Pai, ao meio-dia, no passeio em frente da nossa casa do Bairro da Encarnação, vestido de uma maneira impensável – nem na noite do forte sismo de 69! Fui lá, de manhã cedo, deixar os meus filhos e ele, na rua, em pijama e com um ar calmo, cansado de décadas sem liberdade – referindo-se à PIDE, ao governo e aos fascistas – clamava alto para os vizinhos e a quem passava: «Eles têm que ser julgados num tribunal plenário. Não pode haver perdão para o que fizeram!» Talvez sejam estas as imagens do dia 25 de Abril que retenho com maior precisão.

A felicidade só me chegou na madrugada do dia 27.

Excerto do livro A noite Mais Longa de Todas as Noites. Helena Pato, Ed. Colibri, 3ª edição, 2020.


Os presos políticos de Caxias, entre os quais José Tengarrinha, à época casado com Helena Pato, só foram libertados na madrugada do dia 27. O relato desse dia pode ser lido aqui:

 

 

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