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O conselho de estado e o conselho ao estado

O conselho de estado pretende reunir especialistas, os especialistas no assunto Portugal. Será isso que se verifica? Ou os verdadeiros especialistas em Portugal não estariam do lado de lá do extenso cordão policial que separava quem aconselha Portugal, daqueles que vivem Portugal? Por Tiago Pinheiro

Pretende o conselho de estado reunir os especialistas de maior mérito e renome; pretende-se no fundo escutar as vozes mais competentes, para que a sua opinião defina o caminho mais acertado a percorrer.

Faz sentido! Para ouvir a melhor música procuraremos os melhores executantes e compositores, para apreciar obras de arte circundar-nos-emos dos mais talentosos artistas. Para reparar o nosso veículo procuraremos os mais competentes mecânicos, para cuidar de nós desejaremos os melhores profissionais de saúde. No fundo procuramos a opinião mais diferenciada, mais fundamentada, mais conhecedora do aspeto em foco.

O conselho de estado pretende então reunir especialistas, os especialistas no assunto Portugal. Será, no entanto, isso que se verifica? Ou os verdadeiros especialistas em Portugal não estariam do lado de lá do extenso cordão policial que separava quem aconselha Portugal, daqueles que vivem Portugal?

Os especialistas no desemprego que assola o país não se sentaram nas vistosas galerias do Palácio presidencial, os especialistas na contabilização ao pormenor de cêntimos antes de entrar numa superfície comercial não chegaram a subir as imponentes escadarias, os especialistas na dificuldade em providenciar as condições mais dignas aos seus filhos não foram recebidos com os mais elaborados e formais protocolos.

Aconselhamo-nos com aqueles que têm ditado os destinos da nossa jovem democracia pós 25 de Abril, os especialistas que nos têm trazido, com as suas competências, o estado atual do nosso país.

Voltaríamos a um mecânico que falhou na reparação do veículo? Escutaríamos um músico que sabemos, apesar do seu esforço, primar pela desafinação? Investiríamos num banco que à partida informasse desbaratar o nosso capital sem qualquer retorno?

Os especialistas que ouvimos não são então os melhores, mas não deixam de ser aqueles que vamos escolhendo escutar. Escutamos todos os Presidentes da República anteriores, escutamos o presidente de um canal televisivo, escutamos antigos governantes medíocres com espaço de comentador semanal, escutamos líderes de apenas 2 partidos como se fossem os únicos existentes. Escutamos o presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, cuja importância parece ser maior do que qualquer outro governador municipal, escutamos escritores/filósofos que nem em Portugal residem.

Não escutamos quem todos os dias procura emprego; não escutamos quem todos os dias trabalha mais, ganhando menos, suportando taxa após taxa; não escutamos quem trabalha e investe na sua formação apesar de todos os obstáculos com se depara; não escutamos quem vive na incerteza de manter semanalmente o seu local de trabalho. Ignoramos os gritos silenciosos de quem quer providenciar melhor educação aos seus filhos, de quem quer usufruir de uma saúde mais digna, de quem abdica da sua medicação habitual para sustentar agregados familiares alargados e carenciados.

Estes são os especialistas de Portugal, aqueles que não aspiram a ser Primeiros-ministros sem nunca ter tido emprego, aqueles cujo mérito, coragem e perseverança são recompensados com salários injustos, com injustiça social, com falta de oportunidades.

Optamos, no entanto, por ouvir não os especialistas, não os peritos, mas antes aqueles que se julgam especiais; aqueles que apreciam em demasia ouvirem a sua voz. Percorremos o caminho de entrega aos outros da nossa voz, da expressão da nossa vontade, esquecendo que para eles, Portugal é um sítio diferente, é uma planície pincelada em tons de dourado, quando para nós, é uma montanha polvilhada de dificuldades e desafios.

Portugal é o país da demissão da responsabilidade, do desdenhar da situação atual, sem ambicionar comprar uma solução melhor. Portugal é o deserto árido, governado por quem se rodeia somente de oásis, que decidem de garganta fresca e brisa refrescante, sobre a vida de quem desespera por uma gota de água ou 1 breve instante fora do calor abrasador.

Portugal é o humilde cumpridor, que esquece o valor da sua voz, que esquece que os especialistas em Portugal são a maioria e que a sua voz tem de ser ouvida por aqueles que os governam.

Um conselho ao estado: a TSU, a remodelação dos escalões de IRS, a necessidade de um empréstimo, as razões do endividamento são assuntos de discussão a levar perante os especialistas; são assuntos para levar a todos os que vivem o Portugal do dia-a-dia, a todos os que veem o desespero em filas em Centros de Emprego que não param de aumentar, que veem a angústia em todos os que se sustêm largos minutos à portas das superfícies comerciais, relendo o extrato bancário, contando os cêntimos, vezes sem conta, que veem crianças perderem direito às únicas refeições do seu dia, que veem famílias perder casas, que veem sonhos esgotar-se em olhares de desespero.

O conselho de estado anda na rua finalmente, que não se deixe enganar por medidas injustas que caem, para que outras se levantam. A revolta terá lugar não quando cair uma forma de roubo, substituída por outra mais subtil, mas sim quando não tiver lugar roubo nenhum à carteira e dignidade dos portugueses.

Contributo de Tiago Pinheiro

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