Numa sessão pública de campanha na Marinha Grande, onde Ilda Coelho lidera a candidatura do Bloco e Esquerda à Câmara Municipal, Catarina Martins defendeu o combate à precariedade como forma de recuperação dos serviços públicos e, Fernando Rosas falou sobre a importância de manter a trajetória de recuperação contra as imposições da União Europeia.
Uma democracia verdadeira é a participativa
"Connosco eleitos, não ficaremos fechados nos gabinetes. Faremos reuniões descentralizadas e um dia por semana estaremos nos lugares para ouvir as pessoas. Não queremos provedores, queremos democracia direta", começou por dizer Ilda Carmo.
Connosco, os ajustes diretos terão regras apertadas" e serão sujeitos a "uma comissão de ética". Além disso, diz, "iremos reforçar a revisão do PDM e afetar mais solos para a indústria" agilizando a burocracia municipal. Mas deixa o aviso: "não se iludam, [apenas para] empresas com direitos. Não empresas que recorram ao trabalho precário e ao outsourcing".
"Queremos uma Câmara ao serviço da população" e "creches sociais ao serviço das trabalhadoras do concelho". E relembrou a necessidade de recuperar as escolas do concelho, a começar pela escola da Moita cuja recuperação "tem sido sucessivamente adiada". As creches "têm sido uma promessa sucessivamente adiada" que "nem mesmo em tempo de eleições se dignam a concretizar". E no Centro de Saúde, "as obras são adiadas ou não saem do papel".
"O Bloco, diz Ilda Coelho, "tudo fará para a manutenção dos centros de saúde no concelho e tudo faremos para a abertura de um centro de cuidados continuados na Marinha Grande", garantiu.
Compromisso autárquico: precariedade zero
"Fico absolutamente chocada com o silêncio das autarquias durante anos e anos enquanto as suas populações viam ser degradados os serviços que lhes dão apoio", condenou Catarina Martins. "Esse silêncio foi um silêncio cúmplice da destruição dos serviços públicos e é também para mudar este estado de coisas que o BE se apresenta às eleições autárquicas", concretizou.
"Quando investimos nos serviços públicos, não estamos a responder apenas a uma parte da população. Não estamos a responder apenas aos trabalhadores do público ou do privado. Não estamos a responder às gerações mais jovens ou às gerações mais velhas", continuou Catarina Martins. Quando investimos nos serviços públicos e temos capacidade na educação, na saúde, na resposta social, no ambiente e na cultura estamos a responder por toda a população. Estamos a responder pelas condições concretas de vida de cada um e de cada uma", reforçou.
Para a coordenadora do Bloco, as eleições autárquicas de 1 de outubro têm de ser "uma afirmação da exigência do poder local". E definiu o primeiro compromisso do Bloco: "As autarquias podem e devem ter um papel essencial cada vez que lançam um concurso para fazerem uma contratualização pública e essa exigência que podem fazer é a da garantia de trabalho justo a todas as empresas contratadas pelas autarquias".
"Exigir que os direitos dos trabalhadores sejam cumpridos em cada empresa em que há direito público porque contratualiza com uma autarquia", concretizou. Para Catarina Martins, o combate à precariedade não é diferente do longo caminho que foi feito para erradicar o trabalho infantil em Portugal, uma vez que também era aceite socialmente e hoje está extinto.
"Para servirmos bem as populações precisamos de cuidar quem cuida de nós. Não teremos nunca serviços públicos eficazes se tivermos trabalhadores na mais absoluta precariedade", concluiu.
A política contra a União Europeia deu resultados positivos
"É sempre bom quando fazemos eleições que parece que não têm nada a ver com a política, relembrar que as obras materiais tem a ver com o passado político", relembrou Fernando Rosas. Para o historiador e ex-deputado do Bloco de Esquerda, as eleições autárquicas "têm a ver com a história política e social do país".
Numa terra como a Marinha Grande, invocar o 18 de janeiro de 1934 é sempre oportuno", disse. Nessa data, relembrou, tinham passado "vinte e poucos anos da revolução russa de 1917", uma data que este ano fará 100 anos e que, à altura, "abriu a esperança emancipatória para as classes trabalhadoras em todo o mundo". Uma revolução que "a direita política e social pode hoje demonizar, secalhar prefere hoje desmemorizá-la, fingir que não aconteceu".
Por isso, argumenta, "é bom nos comícios do Bloco de Esquerda relembrar que há 100 anos os trabalhadores de São Petersburgo, de Moscovo, os camponeses e soldados se levantaram em armas e fizeram aquela coisa absolutamente extraordinária de dizer que podiam voltar o mundo às avessas, que podiam ser donos do seu destino, e que podiam criar uma sociedade de esperança alternativa à exploração e ao capitalismo", continuou. Por isso, diz, "não nos venham dizer que 100 anos depois essa mensagem não continua atual".
E comentou a alegria "pacóvia e humilhante" que se observou após a Standard & Poors melhorar a avaliação de Portugal face à dívida. "As direitas vieram a terreno dizer que a recuperação económica é possível porque nós fizemos a política de austeridade e isto é um resultado da política de austeridade". E relembrou que "o que a direita fez no poder foi a destruição do emprego; a baixa dos salários; o corte das pensões; foi um ataque sem precedentes na história política e social do país contra os direitos do trabalho, contra o bem estar da população", disse. Por isso, esta teoria da direita "não é apenas uma mentira grosseira".
"Se foi possível uma ténue recuperação económica e social do país, foi exatamente porque a esquerda forçou o Partido Socialista a adotar uma política diametralmente diferente da política anterior". Foi possível "andar algum caminho na restituição do rendimento, na dignificação do trabalho", e é necessário relembrar isto "todos os dias, porque o pior que podia acontecer ao país é essa gente tornar a governar o nosso país". Mas também "é preciso tornar clara a ideia de que a recuperação económica ténue que temos não se deve a sermos disciplinados relativamente às imposições da União Europeia". Pelo contrário, diz, deve-se "a uma política que desobedece aos critérios da União Europeia", uma política que "redignifica os direitos do trabalho" e que está diametralmente "contra o consenso europeu. Esta é a política da Esquerda Europeia", disse.
Por isso, "quando ouvimos dizer que há um ministro das Finanças português que vai para o Eurogrupo, ou seja, um ministro português que se vai transformar num ministro alemão, esta coisa deve-nos provocar atenção, vigilância, observação, porque não é esse o caminho que se está a tentar seguir" em Portugal.
Se o Bloco contribuiu para a defesa dos direitos do trabalho a nível nacional, essa vontade "reflete-se a nível autárquico. A defesa de quem trabalha é o elemento essencial de todas as candidaturas autárquicas do Bloco", concluiu.