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O Brasil caminha para uma ditadura?

Cabe à esquerda brasileira, além de alertar os riscos à sociedade, aquecer as ruas do país para a construção de um movimento que derrote Bolsonaro e as suas ambições autoritárias. Por Guilherme Boulos.
Foto de Carolina Antunes/PR.

O velho guerreiro Leonel Brizola costumava dizer: “Se algo tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?”. A sabedoria de um homem que enfrentou golpes, organizou a Campanha da Legalidade para assegurar a posse de João Goulart e que chegou a armar o povo para a resistência democrática certamente hoje, se aqui estivesse, alertar-nos-ia.

Bolsonaro construiu a sua carreira como defensor da ditadura, assim também fez a sua campanha presidencial e, desde 1 de janeiro, assim governa. Como presidente, chamou o torturador Brilhante Ustra de herói nacional e convidou a sua viúva para um almoço no palácio; ofendeu a memória de Fernando Santa Cruz, assassinado pela ditadura; defendeu a prisão de um jornalista que o contrariava, sem contar as ameaças diárias à imprensa e aos opositores. Os seus filhos ainda foram mais além: um deles disse que a mudança que querem para o país não seria possível pela via democrática e outro evocou a necessidade de um novo AI-5.

Poderia ser apenas fanfarronice, a criação de cortinas de fumo para desviar a atenção do desastre do seu governo e das mais que suspeitas relações com os milicianos e assassinos de Marielle Franco. Mas não. Basta olhar com alguma atenção as opções políticas de Bolsonaro. Desde a posse, o seu objetivo não é governar. A todo o momento constrói conflito com as instituições, inclusive com o seu próprio partido, não construiu qualquer base parlamentar e não parece sequer preocupado em ter maioria na sociedade. Atua para fidelizar e radicalizar o seu núcleo duro. Governa com a estratégia da guerra permanente. Cercou-se de militares à sua volta, recheou a sua agenda pública de formaturas de cadetes, para-quedistas e outros pretextos para contacto direto com a tropa, enfim, visivelmente tenciona a institucionalidade sugerindo saídas autoritárias. Tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré…

É evidente que entre intenção e gesto há longos passos. Hoje Bolsonaro não teria força e nem pretexto para uma rutura institucional, fosse ela com o tradicional encerramento de instituições ou pelo caminho mais esguio – e provável – da tutela. Mas quer. E tenta. Não há como não ver suas atitudes e dos seus filhos dentro de uma estratégia de “aproximações sucessivas”, tal como declarado no ano passado pelo General Hamilton Mourão. Ou seja, ao trazer assuntos antes impensáveis ao debate, tornam-nos possíveis e testam as reações da sociedade. Exaltar torturadores e imaginar um novo AI-5 eram coisas impensáveis no Brasil há bem pouco tempo. Hoje estampam as capas de jornais. Com isso, o absurdo vai-se naturalizando e as reações vão sendo medidas e neutralizadas. As aproximações sucessivas estão em curso.

Como apontou Polônio, sobre Hamlet, há método na loucura. Os desatinos de Bolsonaro, orientado desde a campanha eleitoral por um círculo próximo de generais da reserva, de gurus da guerra virtual e consortes, visam metas autoritárias. Nunca é demais recordar a sua herança política na pior ala do Exército brasileiro, autoritária na política e entreguista[1] até a medula. Bolsonaro se inspira em Sylvio Frota, general que se opôs à transição democrática, acusou Geisel de leniente com os comunistas e tentou armar um golpe dentro do golpe. A carta-manifesto de Frota, publicada após a sua demissão em 1977, poderia ter sido escrita por qualquer bolsonarista letrado. Aliás, não por acaso, o seu ajudante de ordens era um certo capitão chamado Augusto Heleno. O tempo passa e as pessoas permanecem as mesmas.

Diante dos factos, seria um erro subestimar os riscos. O mesmo erro que o PCB de Luis Carlos Prestes cometeu na véspera do golpe de 1964. Poucos dias antes do fatídico 1 de abril, Prestes fez um discurso acalmando a militância e acusando de alarmistas os que falavam de uma intervenção militar. O golpe encontrou a esquerda desarmada, sem capacidade de resistência. Em momentos decisivos, um erro de análise pode ser fatal, ainda mais quando subestima os adversários.

Não podemos cometer o erro da subestimação e tampouco, é verdade, o da superestimação. Bolsonaro não tem força para uma rutura hoje e talvez não venha a ter, embora se movimente nessa direção. Cabe à esquerda brasileira, além de alertar os riscos à sociedade, aquecer as ruas do país para a construção de um movimento que derrote Bolsonaro e as suas ambições autoritárias. As instituições mostraram nos últimos anos que, se deixadas por conta própria, não representam um contrapeso democrático suficiente. As ruas precisam gritar e pressionar. A capacidade de resistência social é o maior antídoto que temos ao bolsonarismo.

* Guilherme Boulos - É professor, diretor do Instituto Democratize e coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo.

Artigo publicado em IREE - Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa
Adaptação para português de Portugal por Mariana Carneiro.


Footnotes

  1. ^ -Entreguismo - Mentalidade ou prática de entregar os recursos naturais da nação para a exploração por outras nações ou por outras entidades internacionais.

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