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O “batom vermelho foi e é um símbolo de luta pela igualdade”

Num comício que contou com uma mensagem de apoio de Chico Buarque e Carol Proner, Marisa Matias esteve acompanhada por Pilar del Rio, Lúcia Moniz e Pedro Filipe Soares. E relembrou as vítimas de violência doméstica e as lutas de gerações de mulheres pela igualdade.
“Engana-se quem acha que o “batom vermelho” é um pequeno insulto ou futilidade. Foi e é um símbolo de luta."
“Engana-se quem acha que o “batom vermelho” é um pequeno insulto ou futilidade. Foi e é um símbolo de luta." Foto de esquerda.net.

Com o público a assistir online, o comício "virtual" desta segunda-feira ocupou o Cinema São Jorge, em Lisboa, e contou com a música de Primeira Dama e as intervenções de Lúcia Moniz, Pedro Filipe Soares, Pilar del Rio e Marisa Matias. Chico Buarque marcou uma surpresa com um vídeo de apoio a Marisa, juntando-se à campanha #VermelhoEmBelém”. 

O líder parlamentar do Bloco de Esquerda aplaudiu a mobilização do voto antecipado que levou centenas de milhares de portugueses, “muitos deles jovens”, às urnas neste passado domingo.

“Vi alguns dos jovens que saíram à rua na Greve Climática Estudantil e estavam à espera para votar. Disseram-me que seria em ti, Marisa, porque sabem que és tu quem levará a Belém a luta deles, a urgência da resposta às alterações climáticas. Porque sabem que o futuro deles está em risco, que o nosso planeta é bem mais importante do que o lucro de alguns, é em ti que depositam as esperanças. Sei que não lhes falharás”.

Comentou também o debate nas rádios entre os candidatos presidenciais, onde o candidato da extrema-direita “fez o debate como faz a política: fugiu ao contraditório e às suas responsabilidades”. E deixou uma avaliação sobre a prestação de Marcelo Rebelo de Sousa. “Depois de tudo o que assistimos no último mês, continua a insistir que daria posse a um Governo com a participação da extrema direita, desde que houvesse um acordo com papel timbrado, aceitando para o país o que já aceitou para os Açores”.

“Para o candidato Marcelo Rebelo de Sousa parece que não há limites no que aceita fazer para que a direita chegue ao poder, seja em 2023, seja antes”, remata.

Pilar del Rio relembrou “a história deste voto” em Marisa Matias, um voto que “merece um lugar no meu coração, um coração seco de votos até muito tarde” diz, relembrando a luta para derrubar o regime franquista. Nas primeiras eleições democráticas em Espanha “votei pelo passado heroico. Pelo Partido Comunista. Alegre e contente. Consciente de uma sensação estranha. Não havia mulheres candidatas ao governo de Espanha”, relembra.

“Por isso é tão satisfatório poder proclamar aqui o nome de Marisa Matias, e saborear que há mulheres que se atrevem, e vamos votar para a máxima magistratura do Estado se feminize”, afirma em apoio a #VermelhoEmBelém.

Embalada pelo discurso de Pilar del Rio, a candidata presidencial começou por relembrar “aquelas que não estão, e tratá-las também pelo nome. Esta noite lembro a Celeste Paiva, a Maria Isabel Martins, a Maria Lúcia Machado, a Maria Isabel Fonseca, a Carla Barbosa, a Iris Abas, a Maria Costa, a Beatriz Lebre, a Francelina Santos, a Eduarda Graça, a Valentina Fonseca, a Paula Cunha, a Maria de Lurdes Gomes, a Arminda Monteiro, a Manuela Viana, a Rosa Novais, a Marta Figueiredo, a Isabel Velez, a Ana Maria Melo, a Paula Alves, a Ana Mafalda Teles, a Cláudia Gomes, a Deolinda Lopes, a Eugénia Jasmina, a Maria da Graça Ferreira, a Tereza Paulo, a Sílvia Damião”.

Marisa Matias: "As mulheres não são coisas de brincar"

“Lembro cada uma das mulheres assassinadas em 2020, vítima de violência doméstica. Mulheres que são assassinadas todos os anos em Portugal. Lembro os seus filhos e as filhas; 21 crianças ficaram orfãs, só no ano passado, porque a sua mãe foi assassinada”, explica. 

Para Marisa Matias, "o crime contra as mulheres é o maior problema de segurança interna em Portugal. A cada semana uma mulher é assassinada ou vítima de tentativa de homicídio. Todos os dias uma mulher é violada. E isto são dados oficiais" e apenas "a ponta do iceberg da violência quotidiana contra as mulheres". E é por isso, "para quem ainda não percebeu, que quando um homem insulta uma mulher chamando-lhe “coisa de brincar” por usar batom vermelho tem a resposta que merece. As mulheres não são coisas de brincar. As mulheres são gente a lutar" e que "já começaram a derrotar quem as quer humilhar”, prosseguiu.

“Com medo deste vermelho que caminha para Belém, esse homem que insulta mulheres até faltou hoje ao debate. Porque aprendeu nestes dias que a solidariedade vence o medo e, sim, estamos a vencê-lo”, continuou Marisa.

“Quero ser uma Presidente que conhece e não esquece o nome de cada mulher. Que intervirá sempre", prometeu a candidata, exigindo "a palavra justa que não cala a injustiça" quando uma mulher é assassinada. "E quando essa palavra se ouvir, então sim, saberemos que finalmente temos vermelho em Belém”, afirmou Marisa Matias.

“Engana-se quem acha que o “batom vermelho” é um pequeno insulto ou futilidade. Foi e é um símbolo de luta. Uma luta contra todas as humilhações. Contra o medo. Igualdade e liberdade por inteiro. Respeito”, acrescentou.

No seu discurso, Marisa lembrou também “a gente de trabalho, incansável, na linha da frente, que é também a gente de trabalho, sempre esquecida, de baixos salários”. "Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume" diz Marisa, citando Maria Velho da Costa.   "Mas em 2021 elas cá estão, também. Enfermeiras, caixas de supermercado, trabalhadoras da limpeza, auxiliares dos lares, cuidadoras informais. Que continuam a ganhar menos, tantas vezes condenadas ao salário mínimo, exército de precárias que enfrentam a crise sem nenhuma proteção. Não são coisas de brincar. São gente a lutar. Batom vermelho ou da cor que lhes aprouver. São mulheres a respeitar”.

Afirmando-se "grata" a essas mulheres "que abriram avenidas que me permitem estar aqui hoje", Marisa lembrou que "nada está garantido", apesar dos avanços dos últimos 20 anos, com a violência doméstica a tornar-se crime público ou a despenalização do interrupção voluntária de gravidez ou a lei das quotas na representação política.

“Cada mulher, cada homem comprometido com a igualdade, no momento do voto sabe que não faltarei à exigência que conta, concluiu Marisa. 

 

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