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O assassino e os seus cúmplices

Há um assassino global. Chamamos-lhe Covid-19 ou Corona. É invisível, imprevisível e ataca a qualquer hora, em qualquer lugar. Mas estamos todas e todos a tentar lutar contra ele? Texto de Paulo Pina da Silva
Novo Banco - Foto de Paulete Matos

Todas e todos? Ou terá este assassino cúmplices?

Vou contar-vos uma história.

Quando fundei e fui sócio de uma imobiliária com a minha prima entre 2016 a 2019 comecei por ter lucros. Entretanto, em 2018, a minha prima e sócia adoeceu gravemente com cancro da mama, pelo que não só tivemos que parar a atividade como socorrer-nos de apoio financeiro para cuidados de saúde. Como a segurança social não apoiou de imediato, usámos um seguro privado que tínhamos feito em nome da empresa, que mesmo assim obrigou a 30.000€ de pagamento em franquia e tratamentos não incluídos. Embora não tenha apoiado a saúde da minha prima, nem lhe tenha alocado qualquer subsídio de doença, a segurança social impôs pagamentos e multas. Rapidamente teve acesso à conta bancária da empresa, ressarciu-se das dívidas e congelou a conta. Finalmente a dívida remanescente foi transmitida para mim em nome pessoal, que a estou a pagar em prestações com juro de mora.

Por outro lado, neste momento (Março/Abril de 2020), e nesta situação de crise vi-me obrigado a fazer despesas extra por motivos profissionais, as quais fiz sem recurso a crédito; mas tendo tido esta experiência resolvi pedir um aumento do plafond do cartão crédito. O meu banco não me aumentou o plafond (de 400€ para 700€ num produto que se anuncia como de 750€ de plafond), e em alternativa ofereceu-me um crédito pessoal de 2000€ com cerca de 10% de juro. Note-se que o meu banco é o NOVO BANCO - conhecemos a história.

 

Pensei no que aconteceu e estudei as medidas que estão a ser tomadas. Na verdade, existe uma instituição Europeia que poucos Portugueses conhecem – a EBA – European Banking Authority, Autoridade Bancária Europeia em bom Português, que no dia 2 de Abril publicou recomendações em que os Bancos deverão fazer uma moratória sobre o crédito à habitação e de consumo. Por outro lado, segundo os mais recentes dados do Banco de Portugal, o aumento de uso de cartões de crédito em Fevereiro de 2020 é de 12,2%, comparado com 2019.

 

Quer isto dizer em termos leigos que os Bancos não só não podem cobrar prestações sobre empréstimos durante a crise, como têm que suportar um uso maior do crédito pessoal através de cartões. Estas medidas foram adotadas pela maioria dos Bancos Portugueses, visto que se não seguirem recomendações da EBA haverá consequências políticas para esses bancos.

 

Daí que o meu Banco não queira dar-me mais crédito. Daí que não tenha podido comprar um computador e telemóvel novo, que precisava desesperadamente para trabalhar em casa, com recurso a crédito prestacional, e tenha dado mais de 1200 euros de uma só vez para fazer esta compra, quando antes ter-me-iam implorado para fazer a prestações com juros de usurário.

 

Por outro lado, vi o Rui Rio defender que os gerentes de empresas também têm direito a subsídios em tempo de crise. E vejo o PSD a rejeitar medidas do Bloco que vão no sentido de nos poupar de nova austeridade. Acho irónico que eu nunca tenha tido subsídio enquanto gerente da minha empresa, quando a minha única sócia esteve entre a vida e a morte. Já para não falar dela! Serão critérios diferentes?

 

Há um assassino invisível. Mas, os cúmplices, a haver, serão os suspeitos muito visíveis do costume.

Texto de Paulo Pina da Silva

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