O amor é inextricável, por Miguel Portas

Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.

26 de abril 2012 - 18:33
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E-mailei eu: «Joana, salva-me, aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sei que diga.» Tinha feito asneira e estava desesperado. E-mailou ela: «Miguel já tens idade para saber que o amor não tem qualquer sentido». Ela tinha razão, mas não era esta a ajuda de que eu precisava. Muito menos de um passeio a livros antigos. Amor em forma de doutrina e revisão de matéria dada não casam comigo. As variantes literárias também não, acabo sempre na pieguice. Sobrava-me um recurso e foi por esse que segui. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e finalmente voltei a dar razão à Joana – o amor é inextricável.

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Para a Ana e a Maria, o amor é destino.

Se você for do signo do Leão, na semana entre 26 de Março e 1 de Abril, aproveite: «A época é muito positiva e prática no que se refere a amor e sexo. O romantismo de uma ceia a dois ser-lhe-á insuficiente». O voo tem um único senão: «será preferível com um conhecimento já existente pois a altura não favorece novos relacionamentos».

E o amor é um acaso.

«Podemos estar a viver uma vida calma e monótona, mas no momento seguinte encontramo-nos a trocar olhares com alguém que nos faz sentir atrevidos». Tais instantes «apanham-nos desprevenidos e podem mudar o curso das nossas vidas». Aliás, «a atracção sexual é frequentemente semelhante a loucura». Porquê? Porque «duas pessoas racionais que mal se conhecem são capazes de se comprometerem para o próximo meio século». É verdade, ele há gente para tudo.

O amor é estúpido.

Edna O'Brien, escritora de desconcertante lucidez reconhece: «Tenho tendência para me sentir atraída por homens altos, magros e bonitos que são, todos, uns sacanas dissimulados.» Fica sem se perceber se é porque os opostos se atraem, ou pelo contrário.

E o amor é uma doença.

«Os apaixonados têm a sensação de se conhecerem há muitos anos.» E «é comum pensar-se que o amor jamais terá fim». De facto, não é normal. E deve ser por isso que, «devido à sua intensidade, o nosso organismo só suporta viver em estado de paixão durante três meses».

Até agora relatei amores porreiros.

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Acontece que o amor é muito complicado.

Quem o jura é João Portugal, o Ricky Maertens do meu bairro. O rapaz tem muita dialéctica. Diz que «a felicidade depende do amor» e que é «extremamente feliz». Ama que se farta e é aqui que as coisas se complicam. Para uma relação demorar muito tempo, «tem que existir amor». Mas ele, apesar de feliz, acha que «o desgaste surge quando as pessoas estão todos os dias uma com a outra» e por isso prefere «uma boa fórmula para manter uma relação»: não ver a miúda três ou quatro dias por semana. Assim rende mais, mas vêem como é difícil?

E o amor é muito simples.

Sem ironia, os consultórios das duas revistas são bons. Fogem ao moralismo, aumentam a auto-estima das leitoras e ajudam-nas a pensar que são mais livres do que na realidade são. O G.L. acha que o amor é uma algibeira. Está desiludido porque «as mulheres só se aproximam por causa do dinheiro que tenho». O consultório aconselha-o a não praticar «extravagancias monetárias» e que informe as candidatas de que «nunca se casaria sem total separação de bens». A M.S., por seu lado, tem 18 anos e descobriu que uma relação nunca é a dois. Há quase sempre a família de permeio e o Espírito Santo por cima. Ela adora um rapaz de «classe social baixa» que a família, boa pois claro, detesta. O consultório não vai de meias medidas: «opte pelo que a faz mais feliz mesmo que isso implique deixar entes queridos de fora».

O amor é uma surpresa.

«Um dia a minha mulher contratou os serviços de um prostituto e fiquei surpreendido e ao mesmo tempo excitado. Agora ela quer repetir. Que devo fazer?» O consultório é lapidar: «Não existe razão alguma para o leitor aceitar um relacionamento que lhe desagrade. Fale com a sua mulher. Mas não fique apenas numa posição crítica. Mostre também as suas fantasias, procure surpreendê-la.» Tarantantan...

E o amor é um desatino.

O D.M. encontrou a sua esposa «na cama com a melhor amiga. Mais tarde, confessou estar apaixonada por ela. A verdade é que não a consigo esquecer».

Ela conseguiu e lá terá as suas razões. Por isso, o consultório diz que «é preciso respeitar, embora o leitor deva avaliar se é uma experiência passageira» E remata: «implorando e humilhando-se ninguém consegue conquistar o amor do parceiro».

Mas há mais, muito mais. Porque o amor pode ser terrível.

«Namorei mas não resultou porque lhe batia muito e era muito ciumento. Só sinto desejo sexual por prostitutas», confessa B.S.. Diagnóstico do consultório: «O leitor tem sérias dúvidas acerca das suas possibilidades. Foram elas que estragaram o seu namoro. Batia e tinha ciúmes porque não era capaz de acreditar no amor da sua namorada.» Está na altura de «pedir ajuda a um técnico especializado». Antes que alguém o ponha atrás das grades, digo eu.

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Embora dirigidas a raparigas, a Ana e a Maria também destacam, com fotogramas, humilhações inversas. Em O Cravo e a Rosa, uma tal de «Dinorá provoca Cornélio que dorme no tapete... e consegue que este volte a beijar-lhe os pés... ficando satisfeita por ter conseguido domá-lo». Esta criatura promete bem mais que a Alma dos Laços de Família e anuncia a vingança das mulheres no limiar do novo milénio.

Também fiquei a saber que o amor é pudor e discrição.

«Cameron Diaz não aparecerá nua. Leto, o novo namorado da actriz, vetou a sua participação no filme Stuck Nowhere, pela existência de uma cena de nu onde apareceria ao lado do ex-namorado, Matt Dyllon. Cá na minha, a coisa ainda acaba em divórcio. Foi o que aconteceu com Dennis Quaid, que exige da ex-companheira «a custódia do filho e a módica quantia de seis milhões de dólares».

E o amor é exibição.

Na rubrica de mensagens, à «deusa do amor» deu-lhe para a literatura: «Sabes que te levo comigo e que, para onde vás, eu irei, como um anjo que me guarda e com as suas asas me aquece, como um ser apaixonado que nem de noite te esquece.» Esta é forte. Estão a ver porque rasgo tudo o que deliro escrever? Já o príncipe Carlos não tem estes problemas, até podia ser analfabeto. «Ele tudo fez para preencher com amor o vazio deixado por Diana. Tem efectuado operações de charme junto dos súbditos – ao que um rei se obriga, coitado! –, está mais humano e ri em público. Com tudo isto, conquistou bons níveis de popularidade, de tal forma que ate' o cada vez mais assumido romance com Camilla Parker-Bowles deixou de ser olhado com desconfiança pelo povo.» Mais ou menos o mesmo se passa com Martha da Noruega e Victória da Suécia: «Simpáticas e cultas, ambas fazem parte do restrito grupo das solteiras mais desejadas da Europa. Por razões óbvias.»

Esta é um pouco estranha. Porque o amor não é só dinheiro, garante uma «viúva rica» que o quer partilhar com alguém. E há outra, nos classificados, de 53 anos, disposta a receber «cavalheiro que realize pequenos e grandes trabalhos domésticos. Fornece cama e outros acessórios de lingerie». Será que o desespero do desamor só toca os simples?

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Fim de viagem.

Devo dizer-vos que a Ana e a Maria, embora tributárias do amor romântico, são expressões populares de uma mudança positiva em matéria de comportamentos. Elas andam a par das telenovelas. E mil pontos acima do Big Brother. Aí, o mais recente amor é o do Gaspar pela Big. Um é cão, outro cadela e se os animais votassem quem ganhava era ela.

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