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Número de pessoas com dependência de raspadinhas não pára de aumentar

Portugueses gastam em média 160 euros/ano em raspadinhas. Em Espanha gastam 14 euros. São cada vez mais as pessoas a procurar ajuda profissional para lidar com o vício do jogo e peritos defendem uma maior regulação das vendas. Governo espanhol anunciou restrições à publicidade do jogo online.
Número de pessoas com dependência de raspadinhas não pára de aumentar
Foto de WikiCommons/Joehawkins.

160 euros anuais. É este o valor médio gasto pelos portugueses em raspadinhas. Como termo de comparação, os espanhóis gastam 14 euros neste tipo de jogos. Em 2018 a venda de raspadinhas atingiu os 1 594 milhões de euros, cerca de quatro milhões por dia. Os dados são dos psiquiatras Daniela Vilaverde e Pedro Morgado, responsáveis por um estudo sobre o aumento deste fenómeno.

Os investigadores consideram que estamos perante “uma ameaça negligenciada” com “potencial de encorajar o jogo excessivo”, uma vez que a sua compra provoca um retorno imediato. Além disso, "não requerem conhecimentos específicos do jogo, são baratas e altamente acessíveis", fáceis de aceder em qualquer papelaria ou tabacaria, lê-se no artigo publicado na The Lancet Psychiatry.

Em declarações à TSF, os investigadores alertam que "lidar com a epidemia das raspadinhas em Portugal é urgente e necessário", propondo a regulação da venda. São cada vez mais as pessoas a procurar ajuda profissional para lidar com o vício de jogo, mais concretamente aquele associado às raspadinhas.

Pedro Morgado considera que os números observados “são brutais”. O valor tão elevado “significa que o número de pessoas com problemas de jogo patológico, adição ou vício do jogo, associado a ‘raspadinhas' é potencialmente maior”, sustentou ao jornal Público. O vício de jogo é caracterizado por um comportamento persistente no qual não se consegue parar de jogar, mesmo com perdas recorrentes. O jogador tem uma visão distorcida da sua probabilidade de vencer, acreditando que esta “é muito superior à real”

Parte do valor despendido neste tipo de jogos gera um retorno para os cofres do Estado, o que poderá explicar, consideram os psiquiatras, a ausência de políticas efetivas para lidar com esta adição.

“Um dos problemas com que nos deparamos no consultório é que, ao contrário do que acontece nos jogos de casino, em que a própria pessoa pode, no contexto do tratamento, requerer uma inibição de entrada no casino, nas ‘raspadinhas isso não é possível”, explica Pedro Morgado. Uma das propostas que o estudo apresenta para lidar com o fenómeno passa pela criação de um registo obrigatório acessível nas papelarias e tabacarias que vendem este tipo de jogos. “Isso permitiria, com recurso ao cartão de cidadão, que o doente pedisse essa auto-exclusão”, explica o psiquiatra.

Espanha apresenta medidas sobre publicidade às apostas online, ativistas dizem que ficam aquém do prometido

O estudo foi publicado no mesmo dia em que se sabe que o governo espanhol anunciou um decreto de lei, a entrar em vigor antes do verão, que impede que os serviços de apostas, em espaços físicos ou online, façam publicidade com mensagens que associem o jogo ao êxito. Entre outras mudanças, passará a ser proibido contratar famosos para publicitar estes serviços. Os anúncios televisivos e na rádio passam também a ter restrições horárias: só podem passar entre a uma e as cinco da manhã. A única exeção são os intervalos de jogos desportivos transmitidos depois das vinte. A medida vem precisamente combater a adição aos jogos de apostas e procura proteger os grupos mais desfavorecidos, tendencialmente mais vulneráveis a este tipo de jogos.

Mas as medidas do governo PSOE/Unidas Podemos não foram bem acolhidas por ativistas como os da Coordenadora contra as Casas de Apostas de Madrid, que convocou de imediato uma concentração de protesto.

“As medidas são completamente insuficientes, não trata o problema com a gravidade que merece, como uma questão de saúde pública”, afirmou Cristina Barrial, porta-voz desta Coordenadora, ao site El Salto Diário. A ativista diz que as medidas agora anunciadas ficam muito aquém do que estava escrito no programa de governo. “Esperávamos uma regulação em matéria de publicidade que equiparasse as apostas ao tabaco e ao álcool”, lamentou.

O facto de a interdição da publicidade nos estádios se limitar aos placards e não acabar com as marcas de casas de apostas nas camisolas dos jogadores também desagrada a esta Coordenadora. A medida mais positiva, reconheceu Cristina Barrial, é a proibição da participação de figuras públicas nos anúncios às casas de apostas.

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