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Notas de Atenas (I)

O dirigente bloquista Jorge Costa está em Atenas, onde tem participado na campanha da Syriza. Nestas "Notas de Atenas" relata ao esquerda.net as suas impressões acerca do momento político grego, em vésperas das eleições que podem trazer mudança à Europa asfixiada pela austeridade e o roubo.
Comício da Syriza em Patras.

Mulheres com crianças, muitos reformados, poucos jovens. A selecção grega acaba de perder com a da República Checa e a noite cai sobre o jardim central de um subúrbio de Atenas - Kamatero. Num comício de bairro, uma carrinha carregada de polícias parece um exagero. O aparato surpreende a própria Rena Dourou, deputada do Syriza cuja presença é a justificação dada pelo comandante. Há uma semana, Rena foi atacada por um nazi do partido Aurora Dourada em directo na televisão. Antes de fugir do estúdio, o gangster ainda bateu numa deputada comunista e, desde então, anda a monte. Mas no jardim de Kamatero, os apoiantes do Syriza e a polícia olham-se com distância. Um estudo de opinião recente indica que, nas eleições do início de Maio, o partido nazi foi o mais votado entre os membros das forças especiais e de choque, muito aumentadas em número pelo Pasok nos últimos anos.

Em Kamatero, na terça-feira à noite, fiz uma curta intervenção. Referi-me à "bola de cristal" grega, onde a devastação causada pelo governo da troika tem antecipado (com um ano de avanço) a realidade de Portugal. E informei sobre o apoio manifestado ao Syriza por muita gente - das artes, das universidades, da luta social - no apelo de solidariedade com o povo grego. Nas eleições do próximo domingo, na possibilidade de um governo de esquerda, joga-se "a esperança da Europa", como diz o pano do Syriza no comício.

Na quarta-feira, participei numa assembleia de rua organizada pelo Syriza em Petralonas, bastião ateniense da resistência contra a ocupação nazi. Em 6 de Maio, o Syriza ultrapassou aqui os 20%. Abrem-se sorrisos de simpatia ao anúncio da intervenção de um militante do Bloco de Esquerda português. Desde as últimas eleições, o Syriza realizou em todo o país cerca de 300 assembleias como esta, microfone aberto, perguntas, respostas e muitas opiniões fortes de gente empobrecida. Tomam a palavra velhos e jovens militantes do grande mosaico anti-capitalista grego, mas também muita gente que pela primeira vez se sente representada à esquerda, pelo único partido que propõe um governo de ruptura com a troika. Depois da minha saudação, a intervenção de abertura coube a Zoi Konstantinopoulou, a candidata que se destacou em 2008 como advogada da família de Alexis, o jovem de 15 anos assassinado por dois polícias no bairro de Exharquia, desencadeando uma onda de revolta durante semanas nas ruas de Atenas. A sentença exemplar aplicada aos autores do crime contrastou com a tradição de impunidade policial.

Depois de Zoi, um vendedor de lotarias inscreve-se para perguntar como vai o Syriza conseguir recuperar o dinheiro da corrupção escondido na Suíça; segue-se uma senhora lembra as vantagens do clima grego para o turismo e as energias renováveis; um desempregado que votou pela primeira vez no Syriza em Maio passado quer saber como se vai resolver o problema da imigração. Esta questão é central no debate eleitoral e corresponde a um verdadeiro problema, desde que a assinatura do tratado de Dublin II transformou a Grécia num autêntico campo de concentração para onde são recambiadas centenas de milhar de pessoas que entraram ilegalmente no território da União através das fronteiras gregas. Ao trauma social que a intervenção da troika causa no país, a União Europeia soma a desgraça humanitária destes imigrantes, fugidos de países em guerra e forçados a viver numa Grécia que não escolheram, mergulhada na crise, punida pela sua situação geográfica de "porta de entrada" e sem qualquer apoio dos restantes países da União Europeia, que recusam receber quem os procura para sobreviver. A centralidade do tema alimenta a demagogia da Nova Democracia e a violência dos gangs nazis, que resultou já em diversas mortes.

Na noite de hoje, quinta-feira, a campanha terá o seu momento alto, com o comício na praça Omonia. Estão previstas apenas as intervenções de Alexis Tsipras e de Sophia Sakorafa, a deputada expulsa do Pasok em 2010 por votar contra o primeiro memorando e entrevistada pelo Esquerda.net há um ano. Estarão também presentes vários representantes da esquerda europeia, entre eles Francisco Louçã. Poderá ser o maior comício eleitoral da história da esquerda grega. A divulgação de sondagens está proibida durante o período oficial de campanha, mas as últimas a serem divulgadas, há uma semana, apontavam para um resultado do Syriza na ordem dos 30%, com possibilidade de vitória. Neste caso, o apelo de Tsipras à esquerda será testado. O Partido Comunista Grego (KKE), abertamente estalinista e ultra-sectário, já respondeu - o partido teoriza a inviabilidade de qualquer forma de governo patriótico e de esquerda sem uma revolução que o anteceda. Faz cartazes com o slogan "Não confiem no Syriza" e, mesmo perante a campanha de terror e chantagem que ameaça com o abismo em caso de vitória do Syriza, a porta-voz do KKE não hesita em afirmar que o governo de esquerda proposto por Tsipras é o projecto predilecto da burguesia industrial, etc... Por outro lado, a Esquerda Democrática, de Fatis Kouvelis, tenta agregar eleitorado de um Pasok em queda livre e aposta na ambiguidade. Se a direita ganhar sem maioria? "A Grécia não pode ficar sem governo". E se o Syriza precisar da Esquerda Democrática para romper com o memorando da troika? O mandato maioritário teria que sujeitar-se à "renegociação faseada da austeridade" defendida por Kouvelis. Em caso de vitória sem uma improvável maioria absoluta, formar uma maioria parlamentar não será coisa simples.

Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade. E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade. Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã. Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia. Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora? Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma: perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante. Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais. Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento. Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada. Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.

Nos próximos dias, haverá mais notas de Atenas neste portal.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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