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Nicarágua: Carlos F. Chamorro retorna ao seu país

Carlos F. Chamorro voltou à Nicarágua para tentar praticar novamente o jornalismo independente no seu país. Quando ali entrou, afirmou que a política de repressão do presidente Ortega basicamente falhou. Por Matthias Schindler
Carlos Fernando Chamorro, diretor da revista digital independente Confidencial, teve que fugir da Nicarágua no início de 2019 por temer pela sua liberdade e vida por causa de ameaças maciças do regime Ortega
Carlos Fernando Chamorro, diretor da revista digital independente Confidencial, teve que fugir da Nicarágua no início de 2019 por temer pela sua liberdade e vida por causa de ameaças maciças do regime Ortega

Em 25 de novembro, Carlos Fernando Chamorro, diretor da revista digital independente Confidencial, voltou à Nicarágua. Ele teve que fugir da Nicarágua no início de 2019 por temer pela sua liberdade e vida por causa de ameaças maciças do regime Ortega. A polícia havia ocupado o escritório editorial da Confidencial, bem como as instalações do canal de televisão 100% Noticias, cujo diretor Miguel Mora havia sido preso. A partir do seu exílio na Costa Rica, C. F. Chamorro, apoiado por um grande número de funcionários que permaneceram no país apesar da repressão, continuou a levantar a sua voz crítica pela Internet. Confidencial, bem como os seus programas Esta Noche e Esta Semana tornaram-se importantes fontes de informação na Nicarágua e também internacionalmente.

C. F. Chamorro voltou à Nicarágua para tentar praticar novamente o jornalismo independente no seu país. Quando ali entrou, afirmou que, embora o estado de emergência de facto na Nicarágua quase não tivesse mudado, a política de repressão do presidente Ortega basicamente falhou, “porque não conseguiu calar as reivindicações, umas feitas pelas mães que exigem justiça pelas vítimas, outras feitas pelos estudantes, presos políticos e suas famílias que exigem liberdade e democracia, e porque, apesar de todos os ataques, os jornalistas independentes têm mantido sempre viva a exigência por una imprensa livre.”

São quatro exigências essenciais que, de acordo com C. F. Chamorro, devem ser realizadas para que a Nicarágua se torne novamente um país livre:

  • as organizações internacionais de direitos humanos devem ser autorizadas a voltar ao país;
  • os grupos para-policiais devem ser desarmados e dissolvidos;
  • as liberdades democráticas devem ser totalmente restauradas, como o governo tinha prometido em março passado;
  • e a situação de estado de sítio de facto deve ser suspensa, para que os cidadãos possam gozar plenamente dos seus direitos democráticos constitucionalmente garantidos.

C. F. Chamorro também exige a devolução completa dos prédios e das instalações dos média Confidencial e 100% Noticias, que ainda estão ocupados pela polícia sem qualquer ordem judicial.

O retorno de Carlos F. Chamorro tem uma importância simbólica para a Nicarágua, que não deve ser subestimada, porque ele é um dos filhos de Pedro Joaquín Chamorro, ex-editor do jornal La Prensa, que foi assassinado em 1978 por seguidores do ditador Somoza, mas cujo assassinato também foi a causa de uma insurreição popular que Somoza não conseguiu sufocar e que acabou por o expulsar do poder. Além disto, a mãe de C. F. Chamorro, Violeta Barrios de Chamorro, foi presidente da Nicarágua entre 1990 e 1996 e ainda é tida por amplos setores da população como a personificação da sinceridade e reconciliação.

Carlos F. Chamorro volta à Nicarágua num período de alta tensão política. Ainda existem mais de 100 presos políticos. Os parentes destes presos entraram em greve de fome na Igreja de San Miguel, em Masaya, sob o lema “Natal sem presos políticos”, para lutar pela sua libertação. Como resultado, a polícia cercou a igreja, não deixou entrar ninguém e interrompeu ao mesmo tempo o fornecimento de eletricidade e água. Quando um grupo de partidários principalmente jovens, queria trazer água aos grevistas, foram presos pela polícia. Além disso, foram acusados, com provas falsificadas, de crimes mais graves, como posse de armas e posse de bombas.

A renúncia de Evo Morales na Bolívia aumentou significativamente o nervosismo do governo Ortega-Murillo da Nicarágua. Atualmente nota-se um grande aumento da presença policial nas ruas. Ortega fala novamente em pegar em armas. Há rumores de que o governo está a preparar privar mais dez organizações da sua personalidade jurídica. Além disso, há vídeos circulando na Internet nos quais homens e mulheres atados são forçados a jurar à polícia que não vão criticar novamente o governo, nem a polícia ou “militantes” de FSLN, para que a polícia os deixe em paz. Houve muitos críticos da situação política na Nicarágua que não consideraram possível que a polícia e os militares usassem as suas armas contra o seu próprio povo, mas tiveram que o experimentar exatamente a partir de abril de 2018. Por isso não se pode excluir que o regime de Ortega, no seu desespero, esteja conscientemente caminhando para uma situação de guerra civil.

Artigo de Matthias Schindler

Termos relacionados Crise na Nicarágua, Internacional
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