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“Não se trata mais de ganhar eleições, mas construir uma nova história a partir de baixo”

Alberto Acosta, economista e ex-Presidente da Assembleia Constituinte do Equador é crítico dos modelos de desenvolvimento promovidos pelas esquerdas que governaram a América Latina. Pensa que não fizeram as transformações estruturais necessárias. Entrevista de Gabriel Brito para o Correio da Cidadania.
Alberto Acosta fotografado pelo Correio da Cidadania. Janeiro de 2020.
Alberto Acosta fotografado pelo Correio da Cidadania. Janeiro de 2020.

Com re­voltas po­pu­lares em vários países e ten­sões beli­cistas no Médio Oriente vive-se uma crise ge­ne­ra­li­zada que torna tudo im­pre­vi­sível, ex­pressa a exaustão de um modo de vida e “pre­fi­gura uma mu­dança ci­vi­li­za­tória”, como afirma Alberto Acosta, eco­no­mista e ex-pre­si­dente da As­sem­bleia Cons­ti­tuinte do Equador.

Crí­tico dos mais con­tun­dentes das es­querdas que go­ver­naram países la­tinos, em es­pe­cial pelo seu mé­todo de de­sen­vol­vi­mento económico, Acosta ex­plica por onde se deu a brecha do re­torno das direitas: “os pro­gres­sismos não deram pas­sagem às trans­for­ma­ções es­tru­tu­rais que per­mi­ti­riam – ao menos co­meçar a – cons­truir bases económicas, so­ciais e po­lí­ticas mais só­lidas para a su­pe­ração da de­pen­dência ex­tra­ti­vista e suas se­quelas. Tam­pouco se afe­taram as es­tru­turas pró­prias de acu­mu­lação de ca­pital, exa­cer­bada pelos ex­tra­ti­vismos des­ca­rados: mi­neiro, pe­tro­leiro, agro-in­dus­trial... Além disso, com suas po­lí­ticas de dis­ci­pli­na­mento so­cial e de cri­mi­na­li­zação dos de­fen­sores da na­tu­reza, de­bi­li­taram as bases da or­ga­ni­zação so­cial, afe­tando aqueles grupos que ou­trora en­fren­taram o ne­o­li­be­ra­lismo”.

Um dos prin­ci­pais cons­tru­tores do mo­vi­mento Ali­ança País que elevou Ra­fael Correa à pre­si­dência do Equador e pre­si­dente da As­sem­bleia que ou­torgou a este país uma nova Cons­ti­tuição, Al­berto Acosta viveu por dentro o pro­cesso de bu­ro­cra­ti­zação e afas­ta­mento dos mo­vi­mentos po­pu­lares das es­querdas hegemónicas no con­ti­nente. En­tu­si­asma-se, mas não se ilude, com os re­centes le­vantes po­pu­lares, que a seu ver re­forçam que toda uma so­ci­a­bi­li­dade e um mo­delo económico se es­go­taram no tempo.

“Este é o maior po­ten­cial: a sur­presa como uma fer­ra­menta in­dis­pen­sável para con­se­guir avançar, o que será du­ra­douro sempre que a so­ci­e­dade em mo­vi­mento man­tiver ele­vada a cri­a­ti­vi­dade e, cer­ta­mente, que exista cla­reza nos ob­je­tivos es­tra­té­gicos a serem al­can­çados, o que, in­sis­timos, não podem ser sim­ples re­e­dição atu­a­li­zada de ve­lhas pro­postas, e menos ainda a re­pe­tição can­sada das mesmas tá­ticas. Apesar de saudar os men­ci­o­nados le­vantes, em ne­nhum caso emergem dali me­ca­ni­ca­mente saídas de­mo­crá­ticas claras”.

Autor do livro O Bem Viver: uma opor­tu­ni­dade para ima­ginar ou­tros mundos e Pós-ex­tra­ti­vismo e de­cres­ci­mento, Acosta alerta para o es­pectro da mi­li­ta­ri­zação em todo o con­ti­nente e for­nece al­guns ele­mentos que en­xerga como fun­da­men­tais à cons­trução de um novo mo­mento po­lí­tico po­si­tivo para as massas.

“De­fi­ni­ti­va­mente, o que está claro é que a pre­missa des­co­lo­ni­za­dora e des­pa­tri­ar­ca­li­za­dora, ele­mentos fun­da­men­tais na su­pe­ração da ex­plo­ração do ser hu­mano e da na­tu­reza por parte do ca­pital, de­manda re­fundar os Es­tado-na­ções co­lo­niais, oli­gár­quicos, ca­pi­ta­listas para que estas trans­for­ma­ções não fi­quem sim­ples­mente nos dis­cursos. Não se trata de sim­ples­mente ga­nhar elei­ções para acessar o poder, mas cons­truir um poder desde baixo, desde a es­querda e sempre com a Pa­cha­mama (mãe terra) para im­pul­si­onar um pro­cesso de ra­di­ca­li­zação per­ma­nente da de­mo­cracia”.

A en­tre­vista com­pleta pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: O cha­mado fim de ciclo dos go­vernos pro­gres­sistas foi su­ce­dido pelo re­torno das di­reitas, em al­guns casos, como no Brasil, as mais re­a­ci­o­ná­rias e vi­ru­lentas desde o fim da di­ta­dura mi­litar. O que ex­plica essa di­nâ­mica em sua visão e o que po­demos co­locar como ex­pec­ta­tiva geral para 2020?

Al­berto Acosta: Para en­tender o que acon­tece nestes mo­mentos na Amé­rica La­tina, so­bre­tudo em países onde a di­reita subs­ti­tuiu – em al­guns casos de ma­neira in­cri­vel­mente ace­le­rada – go­vernos pro­gres­sistas, como nos casos de Brasil e Bo­lívia, ca­be­riam per­guntas com­ple­men­tares: por que se der­ru­baram tão ra­pi­da­mente estes pro­cessos? Como se ex­plica a as­censão de uma ul­tra-­di­reita que já deixou de dis­si­mular ou es­conder, com predicas ho­mo­fó­bicas e ra­cistas, suas pro­postas au­to­ri­tá­rias, con­ser­va­doras e também ne­o­li­be­rais?

Para além das in­dis­cu­tí­veis ações de­ses­ta­bi­li­za­doras do Im­pério, as quais se soma a in­fluência da “in­ter­na­ci­onal cristo-ne­o­fas­cista”, nas pa­la­vras do teó­logo es­pa­nhol Juan José Ta­mayo, algo não fun­ci­onou na Amé­rica La­tina pro­gres­sista nos anos an­te­ri­ores. Falou-se muito de re­vo­lução e so­ci­a­lismo, in­clu­sive de de­mo­cracia. Sem a pre­tensão de es­gotar o tema, é evi­dente que os go­vernos pro­gres­sistas não con­se­guiram de­mo­cra­tizar suas so­ci­e­dades, em al­guns casos até pul­ve­ri­zaram a institu­ci­o­na­li­dade po­lí­tica a que pro­pu­seram mudar através de pro­cessos cons­ti­tuintes, como na Ve­ne­zuela e no Equador.

A cor­rupção es­teve pre­sente de ma­neira des­la­vada em toda a re­gião, in­clu­sive em tais go­vernos. E o de­sejo de se sus­tentar no poder con­tri­buiu com a con­fi­gu­ração de re­gimes cau­di­lhescos e au­to­ri­tá­rios, que em al­guns casos para se manter ter­mi­naram pac­tu­ando com forças con­ser­va­doras e da di­reita cor­rupta, como su­cedeu no Brasil nas ali­anças do PT com o PMDB.

Mas há mais coisas de fundo. Os go­vernos pro­gres­sistas não ten­taram su­perar as tra­di­ci­o­nais es­tru­turas de suas eco­no­mias pri­mário-ex­por­ta­doras, pelo con­trário, apro­fun­daram-nas: os ex­tra­ti­vismos foram a fonte de renda para sus­tentar es­quemas ne­o­de­sen­vol­vi­men­tistas e am­pliar as po­lí­ticas so­ciais, dentro de um marco de cres­cente con­su­mismo fi­nan­ciado, en­quanto durou o ciclo de preços altos das ma­té­rias primas.

Em suma, o fi­nan­ci­a­mento de tais eco­no­mias re­pousou mais e mais nas ex­por­ta­ções pri­má­rias e na cap­tação de in­ves­ti­mento es­tran­geiro, acei­tando-se uma in­serção su­bor­di­nada no co­mércio global e, de pas­sagem e na prá­tica, uma ação li­mi­tada do Es­tado; a am­pli­ação dos ex­tra­ti­vismos veio de mão dada com claras ten­dên­cias de­sin­dus­tri­a­li­zantes e um au­mento da fra­gi­li­dade fi­nan­ceira. E como bem sa­bemos con­so­li­daram um Es­tado não só ren­tista, mas prá­ticas em­pre­sa­riais ren­tistas, es­quemas que vêm acom­pa­nhados de re­la­ções so­ciais cli­en­te­listas e go­vernos au­to­ri­tá­rios. O re­sumo é: mais ex­tra­ti­vismo, menos de­mo­cracia, in­de­pen­den­te­mente de se tratar de go­vernos ne­o­li­be­rais puros ou pro­gres­sistas.

Para com­pletar este ce­nário, com os go­vernos pro­gres­sistas não se afetou a ló­gica de acu­mu­lação de ca­pital: apesar de ter re­du­zido a po­breza en­quanto houve re­cursos para sus­tentar as po­lí­ticas so­ciais e o con­su­mismo, a con­cen­tração da ri­queza al­cançou ní­veis cada vez mai­ores (ten­dên­cias que se re­gis­traram também em países de go­vernos ne­o­li­be­rais).

Como ano­tamos com Edu­ardo Gudynas – ao buscar as causas para en­tender a der­rota do PT no Brasil e as se­quelas do triunfo de Bol­so­naro para a re­gião – tudo isso ex­plica porque o ne­o­-de­sen­vol­vi­men­tismo – en­quanto durou o largo ciclo dos altos preços das ma­té­rias primas – foi apoiado tanto por se­tores po­pu­lares como por parte da elite em­pre­sa­rial: “Lula da Silva era aplau­dido, por ra­zões di­fe­rentes, tanto em bairros po­bres como no Fórum Económico de Davos”.

Na prá­tica fun­ci­onou um dos dis­po­si­tivos que o ca­pi­ta­lismo possui para cons­truir he­ge­monia através da ca­pa­ci­dade – em es­pe­cial du­rante o auge do ciclo ca­pi­ta­lista – de re­duzir a de­si­gual­dade entre tra­ba­lha­dores sem tocar na de­si­gual­dade entre estes e as classes do­mi­nantes; tal ca­pa­ci­dade se re­co­nhece como – no dizer do grande eco­no­mista pe­ruano Jürgen Schudt – a hi­pó­tese do “fo­cinho de la­garto”: um fo­cinho com­posto por uma man­dí­bula su­pe­rior que re­flete a alta de­si­gual­dade da ri­queza, a qual possui uma ri­gidez (quase es­tru­tural) e só se move ante mu­danças igual­mente es­tru­tu­rais nas re­la­ções de pro­pri­e­dade desta ri­queza; e uma man­dí­bula in­fe­rior que re­colhe a cam­bi­ante de­si­gual­dade da renda, a qual di­minui graças à lar­gura das etapas de auge (o “la­garto ca­pi­ta­lista” afrouxa suas presas quando tem muito pra comer) e au­menta pela es­cassez nas etapas de crise (o “la­garto” aperta suas presas); tudo no meio de um ciclo ca­pi­ta­lista que se torna mais vo­látil e ins­tável em so­ci­e­dades ex­tra­ti­vistas como as la­tino-ame­ri­canas.

Em pa­ra­lelo, o de­sen­vol­vi­men­tismo pro­gres­sista, fir­mado em pro­fundas raízes co­lo­niais e em bases ex­tra­ti­vistas cada vez mai­ores, foi sus­ten­tado com cres­centes e duros con­troles sobre a mo­bi­li­zação ci­dadã, com a cri­mi­na­li­zação de quem se opunha à am­pli­ação dos ex­tra­ti­vismos, assim como na fle­xi­bi­li­zação das normas am­bi­en­tais e la­bo­rais para atrair in­ves­ti­mentos. Isso en­fra­queceu a base da­quelas forças so­ciais com ca­pa­ci­dade trans­for­ma­dora. Tudo isso foi abrindo o ter­reno para o sur­gi­mento da atual res­tau­ração con­ser­va­dora, que na re­a­li­dade co­meçou du­rante os pró­prios go­vernos pro­gres­sistas – basta re­cordar como o cor­reísmo se opôs à in­tro­dução da pos­si­bi­li­dade legal do aborto por es­tupro no Equador.

Acei­temos, por­tanto: os pro­gres­sismos, que sur­giram de ma­trizes de es­querda, no final das contas sim­ples­mente ad­mi­nis­traram go­vernos que na es­sência pro­cu­ravam mo­der­nizar o ca­pi­ta­lismo.

Cor­reio da Ci­da­dania: No en­tanto, onde a di­reita re­tomou o poder cen­tral as ten­sões so­ciais e le­vantes po­pu­lares au­men­taram. O que ex­plica esta di­nâ­mica em sua opi­nião e qual ex­pe­ta­tiva po­demos ter em re­lação a 2020?

Al­berto Acosta: Com a che­gada da crise económica de­sa­tada pela queda dos preços das ma­té­rias primas no mer­cado mun­dial, as con­di­ções so­ciais se de­te­ri­o­raram e com isso foi junto a es­ta­bi­li­dade po­lí­tica: en­quanto o con­su­mismo es­teve bas­tante trans­bor­dante tal es­ta­bi­li­dade apa­recia como se­gura e os pro­gres­sismos go­zavam de boa saúde. A es­ta­bi­li­dade po­lí­tica foi afe­tada por esta mu­dança no ciclo económico.

Um caso digno de men­ci­onar é o ar­gen­tino: neste país um go­verno pro­gres­sista foi subs­ti­tuído por um ne­o­li­beral, o de Macri, que ao fra­cassar re­don­da­mente per­mitiu o re­torno do pro­gres­sismo, con­tra­di­zendo aqueles que acre­di­tavam que a fase de tal es­pectro tinha ter­mi­nado. Por outra pers­petiva, é in­te­res­sante anotar que no Equador, onde a troca de go­verno se deu por dentro do mesmo par­tido pro­gres­sista, ao con­cluir uma fase de exa­cer­bado au­to­ri­ta­rismo – ao passar do go­verno de Correa ao de Lenin Mo­reno – muitas or­ga­ni­za­ções so­ciais antes du­ra­mente re­pri­midas con­se­guiram re­compor suas forças.

E, cer­ta­mente, con­cluída a bo­nança pro­gres­sista o ne­o­li­be­ra­lismo en­con­trou o ter­reno pro­pício para seu res­sur­gi­mento com cres­cente força; ainda que também ca­beria des­tacar que em certos casos, como no mesmo Equador, a porta ficou en­tre­a­berta para este re­torno, na me­dida em que o cor­reísmo in­cen­tivou pri­va­ti­za­ções dos grandes portos ou a en­trega de campos pe­tro­leiros a em­presas trans­na­ci­o­nais, abriu de par em par a porta para a me­ga­-mi­ne­ração, rein­tro­duziu ele­mentos de fle­xi­bi­li­zação tra­ba­lhista, firmou um TLC com a União Eu­ro­peia... Enfim, o país viveu uma es­pécie de “ne­o­li­be­ra­lismo transgénico”: um Es­tado forte serviu para in­tro­duzir al­gumas das mais an­si­adas metas ne­o­li­be­rais.

Em ou­tras pa­la­vras, com os pro­gres­sismos não se deu pas­sagem às trans­for­ma­ções es­tru­tu­rais que per­mi­tiram – ao menos co­meçar a – cons­truir bases económicas, so­ciais e po­lí­ticas mais só­lidas para a su­pe­ração da de­pen­dência ex­tra­ti­vista e suas se­quelas. Tam­pouco se afe­taram as es­tru­turas pró­prias de acu­mu­lação de ca­pital, exa­cer­bada pelos ex­tra­ti­vismos des­ca­rados: mi­neiro, pe­tro­leiro, agro-in­dus­trial... Além disso, os pro­gres­sismos, com suas po­lí­ticas de dis­ci­pli­na­mento so­cial e de cri­mi­na­li­zação dos de­fen­sores da na­tu­reza, de­bi­li­taram as bases da or­ga­ni­zação so­cial, afe­tando aqueles grupos que ou­trora en­fren­taram o ne­o­li­be­ra­lismo.

Neste ce­nário, apro­vei­tando-se do en­fra­que­ci­mento do pro­gres­sismo e di­ante da de­te­ri­o­ração das forças so­ciais com ca­pa­ci­dade trans­for­ma­dora, as di­reitas re­tornam di­re­ta­mente ao poder e a partir dali em­pre­endem po­lí­ticas económicas que na es­sência buscam au­mentar ainda mais as con­di­ções de acu­mu­lação de ca­pital, trans­fe­rindo o custo do ajuste aos se­tores po­pu­lares e à na­tu­reza, como acon­tece uma e outra vez em nossa his­tória. Quer dizer, fecha-se no­va­mente o “fo­cinho do la­garto”.

Neste ponto, emergem muitas das lutas po­pu­lares re­centes, exa­cer­badas também pela in­viável pro­messa de pro­gressos e de­sen­vol­vi­mento pró­pria da Mo­der­ni­dade. Assim, tais ações, com múl­ti­plas ex­pres­sões sim­bó­licas, com con­teúdo di­verso e par­ti­cular em cada país, ca­rac­te­ri­zaram o tur­bu­lento ano de 2019 e mar­carão o de 2020, no qual a re­pressão em suas múl­ti­plas formas es­tará em mãos da di­reita e a sur­presa – como ve­remos mais adi­ante – a cargo das massas.

Este será um ano no qual, acima de tudo, de­ve­remos ter a ca­pa­ci­dade para di­fe­ren­ciar o que re­al­mente pro­põem os pro­gres­sismos do que apre­sentam as es­querdas. Para en­frentar o ne­o­li­be­ra­lismo e so­bre­tudo as forças da ul­tra­di­reita podem se cons­truir ali­anças am­plas, as quais, mesmo assim, não devem con­fundir a es­querda na con­quista de seu ob­je­tivo pós-ca­pi­ta­lista.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como en­xergou as re­voltas de massa na Colômbia, Equador e Chile e o que elas têm de sig­ni­fi­cado mais pro­fundo?

Al­berto Acosta: São pro­cessos ani­ma­dores. São de­fi­ni­ti­va­mente alen­ta­dores. Apesar de certos traços co­muns, são pro­cessos únicos e de al­guma ma­neira ir­re­pe­tí­veis. Tais le­vantes são de­mons­tra­ções da ca­pa­ci­dade de so­ci­e­dades em mo­vi­mento, com po­ten­ciais enormes e in­clu­sive im­pre­vi­sí­veis. De fato, esses le­vantes não emergem de planos pré-con­ce­bidos e menos ainda se ins­piram na ló­gica re­pe­ti­tiva de fun­ci­o­na­mento de muitas or­ga­ni­za­ções so­ciais e po­lí­ticas tra­di­ci­o­nais. Esses le­vantes sur­pre­en­dentes e ino­va­dores mos­tram que pode se dar um novo im­pulso a muitas ações de luta que de tanta re­pe­tição can­sa­tiva su­pe­raram o âm­bito da cons­tância para se trans­for­marem apenas em uma sonsa e até en­te­di­ante obs­ti­nação.

Uma ca­rac­te­rís­tica destes le­vantes é a sur­presa, não tanto pelo as­sombro que pro­vo­caram, até para quem pro­cura ler com atenção a evo­lução po­lí­tica e so­cial, mas por terem ba­lan­çado di­versos go­vernos... Este é o maior po­ten­cial: a sur­presa como uma fer­ra­menta in­dis­pen­sável para con­se­guir avançar, o que será du­ra­douro sempre que a so­ci­e­dade em mo­vi­mento man­tiver ele­vada a cri­a­ti­vi­dade e, cer­ta­mente, que exista cla­reza nos ob­je­tivos es­tra­té­gicos a serem al­can­çados, o que, in­sis­timos, não podem ser sim­ples re­e­dição atu­a­li­zada de ve­lhas pro­postas, e menos ainda a re­pe­tição can­sada das mesmas tá­ticas.

Nestes países, aos quais po­demos somar o Haiti, estão pre­sentes há muito tempo vá­rias si­tu­a­ções ex­plo­sivas, mas que não pa­re­ciam ser tão po­tentes para que pu­dés­semos an­te­cipar uma ex­plosão da mag­ni­tude como a que se viveu nesses úl­timos mo­mentos. Em cada caso há di­versos de­to­nantes, como foi a questão da eli­mi­nação de sub­sí­dios aos com­bus­tí­veis no Equador ou o in­cre­mento da ta­rifa do metrô em San­tiago, que acen­deram a fa­gulha para des­nudar re­a­li­dades muito com­plexas.

No caso co­lom­biano e chi­leno o caldo de cul­tura do pro­testo é a dura vi­vência ne­o­li­beral, sem dú­vida al­guma. Em ou­tros casos, como o equa­to­riano, a re­ceita não se nutre ex­clu­si­va­mente de in­gre­di­entes ne­o­li­be­rais, mas também uma per­versa mescla de ne­o­li­be­ra­lismo com ele­mentos pró­prios do pro­gres­sismo, que no caso bo­li­viano cons­truiu o ce­nário para o golpe de Es­tado de­vido ao des­res­peito do go­verno de Evo Mo­rales a suas pró­prias cons­tru­ções ins­ti­tu­ci­o­nais.

Cor­reio da Ci­da­dania: Há algum ele­mento que possa ex­plicar esses le­vantes na Amé­rica La­tina re­la­ci­o­nado a ou­tros pro­cessos pelo pla­neta?

Al­berto Acosta: Esse é um ponto chave. O mundo, e não só a Amé­rica La­tina, está sendo sa­cu­dido por re­voltas que su­peram os ce­ná­rios pre­vi­sí­veis e não podem ser lidas com as fer­ra­mentas tra­di­ci­o­nais. Urge, assim, abordar se­me­lhante evo­lução sem cair nas aná­lises sim­plistas ou ge­ne­ra­li­za­ções que apa­guem es­pe­ci­fi­ci­dades, nem es­perar para dispor de todos os ele­mentos que per­mitam com­pre­ender a ple­ni­tude de tais pro­cessos. É o mo­mento de in­ter­pretar o que acon­tece para ao mesmo tempo tirar con­clu­sões e li­ções que nos per­mitam atuar di­ante de de­sa­fios al­ta­mente com­plexos.

Tal abor­dagem deve ser feita a partir de um olhar la­tino-ame­ri­cano, tra­tando de iden­ti­ficar os mí­nimos de­no­mi­na­dores co­muns destes pro­cessos. Essa é a ta­refa ur­gente para cons­truir al­ter­na­tivas de es­querda e en­frentar as di­reitas.

São múl­ti­plos focos de in­dig­nação e frus­tração ao redor de um mundo que vive uma crise mul­ti­fa­ce­tada: eco­ló­gica, so­cial, económica, po­lí­tica... Uma crise que sob todas as luzes su­pera as co­nhe­cidas crises cí­clicas pró­prias ao ca­pi­ta­lismo e pre­fi­gura mu­danças ci­vi­li­za­tó­rias. As causas podem ser di­versas em cada caso, mas al­gumas re­a­ções e muitos dos en­fren­ta­mentos com a ordem es­ta­be­le­cida mos­tram al­guns traços si­mi­lares.

A ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade po­lí­tica está em crise. A de­mo­cracia, por mais elei­ções que re­a­lize, apa­rece co­lo­cada em modo avião, isto é, de­sa­ti­vada na prá­tica. Os par­tidos po­lí­ticos se en­trin­chei­raram na de­fesa de seus in­te­resses, tal como fazem os grandes meios de co­mu­ni­cação, que se re­cusam a en­tender o que sig­ni­ficam so­ci­e­dades em mo­vi­mento e a origem pro­funda dos le­vantes em marcha. A cor­rupção corre solta.

As pro­messas de bem estar da Mo­der­ni­dade se afogam em uma re­a­li­dade cada vez mais de­su­ma­ni­zada e de­pre­da­dora. As elites go­ver­nantes – po­lí­ticas e em­pre­sa­riais – res­pondem com cres­cente vi­o­lência e apro­fundam os con­flitos com seu van­da­lismo ne­o­li­beral. E neste ce­nário a frus­tração, em es­pe­cial na ju­ven­tude, em suas múl­ti­plas fa­cetas ali­menta as ações de re­sis­tência e pro­testo.

Cor­reio da Ci­da­dania: Por que essas re­voltas são di­fusas e en­volvem se­tores di­versos da so­ci­e­dade, re­le­gando ao se­gundo plano par­tidos, sin­di­catos e mo­vi­mentos so­ciais his­to­ri­ca­mente mais he­gemô­nicos?

Al­berto Acosta: Estes pro­cessos no­vi­da­deiros se re­gis­tram em muitos pontos de toda a Nossa Amé­rica. De­fi­ni­ti­va­mente, a frus­tração po­pular criada e acu­mu­lada pela ci­vi­li­zação da de­si­gual­dade e os es­tragos que esta vai dei­xando na pe­ri­feria do mundo ge­raram as con­di­ções para uma ex­plosão so­cial que faz tremer o ce­nário po­lí­tico. “Se­me­lhante mo­bi­li­zação po­pular – como es­crevi em um ar­tigo para in­tro­duzir a lei­tura da re­a­li­dade equa­to­riana, com John Cajas-Gui­jarro – equi­vale a um ter­re­moto que move e ques­tiona as bases de nossas so­ci­e­dades ine­qui­ta­tivas e in­justas, e até ques­tiona as ve­lhas formas e os ve­lhos con­ceitos usados para en­tender os se­tores po­pu­lares e seu so­fri­mento”.

Aqui – como já ficou as­si­na­lado – os re­du­ci­o­nismos são inad­mis­sí­veis, pois obs­cu­recem o pa­no­rama e im­pedem a cons­trução de es­tra­té­gias que po­ten­ci­a­lizem esta onda de lutas de re­sis­tência e re-exis­tência. A lista de pro­blemas e frus­tra­ções acu­mu­ladas é grande e não se reduz a uma ou outra me­dida económica ou po­lí­tica em par­ti­cular, que como já dito podem ser os de­to­nantes de uma ex­plosão so­cial, não sua úl­tima causa.

Assim, sem sig­ni­ficar a única ou maior ex­pli­cação, a de­te­ri­o­ração económica está na raiz de muitos destes pro­cessos. Ao de­sem­prego e a mi­séria que nascem desta piora se somam po­lí­ticas econô­micas que au­mentam a ex­plo­ração do tra­balho e da na­tu­reza. Mas o fundo do pro­blema tem muito mais arestas. O peso das es­tru­turas clas­sistas, pa­tri­ar­cais, xe­nó­fobas, ra­cistas etc. per­siste e até aflora com re­do­brada força, em opo­sição aos múl­ti­plos pro­testos li­ber­tá­rios, sejam fe­mi­nistas, in­dí­genas, eco­lo­gistas, cam­po­neses, tra­ba­lhistas...

Por sua vez, as vi­o­lên­cias ex­tra­ti­vistas pró­prias são um in­ter­mi­nável pro­cesso de con­quista e co­lo­ni­zação, que ex­plicam tanto os au­to­ri­ta­rismos – pro­gres­sistas ou ne­o­li­be­rais – como a cor­rupção, e dão pas­sagem a cres­centes re­sis­tên­cias ter­ri­to­riais. Lutas que co­meçam a inundar também os âm­bitos ur­banos: a re­cente re­volta de Men­doza, Ar­gen­tina, contra a me­ga­-mi­ne­ração é um dos exem­plos mais re­centes. De­fi­ni­ti­va­mente, a po­breza, a ini­qui­dade, a des­truição de co­mu­ni­dades e da na­tu­reza vão de mão dada com as frus­tra­ções de am­plos grupos – em es­pe­cial jo­vens – mo­bi­li­zados sem nada a perder, pois até o fu­turo lhes rou­baram.

Com­pre­ender tal com­ple­xi­dade não é fácil. Apesar de saudar os men­ci­o­nados le­vantes, em ne­nhum caso emergem dali me­ca­ni­ca­mente saídas de­mo­crá­ticas claras; por exemplo, o de­man­dado pro­cesso cons­ti­tuinte chi­leno é ainda uma opor­tu­ni­dade re­cheada de ame­aças con­quanto es­teja con­tro­lado pelas mesmas elites go­ver­nantes. O mais evi­dente é que a vi­o­lência es­tatal cresce ace­le­ra­da­mente e in­clu­sive as som­bras da mi­li­ta­ri­zação da po­lí­tica as­somam como cons­tante em vá­rios rin­cões da Nossa Amé­rica, de Brasil a Equador, de Ve­ne­zuela a Bo­lívia, do Chile a Colômbia.

Dentro desta com­ple­xi­dade nota-se o es­go­ta­mento de uma mo­da­li­dade de acu­mu­lação e de seus sis­temas po­lí­ticos – pro­gres­sistas ou ne­o­li­be­rais – sus­ten­tados em pro­fundas es­tru­turas in­justas, co­lo­niais e for­çadas a ní­veis ex­plo­sivos pelas de­mandas in­sa­ciá­veis do ca­pi­ta­lismo global. Como bem ob­serva Raul Zi­bechi: “as re­voltas de ou­tubro na Amé­rica La­tina têm causas co­muns, mas se ex­pressam de formas di­fe­rentes. Res­pondem aos pro­blemas so­ciais e econô­micos que geram o ex­tra­ti­vismo ou a acu­mu­lação por des­pojo, a soma de mo­no­cul­tivos, mi­ne­ração a céu aberto, me­ga-­o­bras de in­fra­es­tru­tura e es­pe­cu­lação imo­bi­liária ur­bana”.

Estes são pro­blemas nas­cidos das con­tra­di­ções do ca­pi­ta­lismo pe­ri­fé­rico, sob as quais os países la­tino-ame­ri­canos são cons­tan­te­mente em­pur­rados a per­pe­tuar seu ca­ráter de eco­no­mias pri­mário-ex­por­ta­doras, sempre vul­ne­rá­veis e de­pen­dentes, os quais têm o au­to­ri­ta­rismo, tanto quanto a vi­o­lência e a cor­rupção, como con­di­ções ne­ces­sá­rias para sua cris­ta­li­zação. Pa­ra­le­la­mente, per­siste a per­versa ló­gica de que os lu­cros se pri­va­tizam e os pre­juízos se so­ci­a­lizam, sempre com a cum­pli­ci­dade entre Es­tado e grandes grupos de poder económico e po­lí­tico. En­quanto isso, se dilui no ima­gi­nário de am­plos seg­mentos da po­pu­lação a pos­si­bi­li­dade de cris­ta­lizar pa­drões con­su­mistas pró­prios de um “modo im­pe­rial de vida”, só pos­sível de al­cançar com a su­pe­r-ex­plo­ração da mão de obra e da na­tu­reza, o que na ver­dade é algo ir­re­pe­tível de modo geral.

Di­ante de ta­manha in­jus­tiça e in­do­lência do poder, quando as es­tru­turas po­lí­ticas se tor­naram cultoras do poder pelo poder, o que sobra ao povo além da re­sis­tência e do pro­testo?

Cor­reio da Ci­da­dania: Con­corda com a noção de perda de pro­ta­go­nismo mun­dial da Amé­rica La­tina di­ante do atual re­or­de­na­mento económico pelo qual passa o pla­neta? A que es­tamos re­le­gados?

Al­berto Acosta: Acei­temos: a Amé­rica La­tina nunca teve uma real li­de­rança mun­dial no que se refere a uma re­or­ga­ni­zação da eco­nomia mun­dial. Esta re­gião foi con­de­nada desde as mais re­motas horas do ca­pi­ta­lismo – há mais de 500 anos – como abas­te­ce­dora sub­missa de ma­té­rias primas. A re­a­li­dade não mudou nada. Pelo con­trário, com re­gimes ne­o­li­be­rais e pro­gres­sistas, como já dito, a ló­gica dos ex­tra­ti­vismos e do de­sen­vol­vi­men­tismo do­minou o ima­gi­nário po­lí­tico da re­gião em dé­cadas re­centes. As con­quistas e a co­lo­ni­zação são cons­tantes em Nossa Amé­rica.

Neste ponto é la­men­tável ver a in­ca­pa­ci­dade de­mons­trada pelos go­vernos pro­gres­sistas para dar pas­sagem a uma só­lida evo­lução in­te­gra­ci­o­nista. Isso teria per­mi­tido po­si­ci­onar a re­gião como um bloco po­de­roso no con­texto mun­dial. Os so­noros dis­cursos não su­pe­raram as ações de sub­missão ne­o­li­beral. A IIRSA (Ini­ci­a­tiva para a In­te­gração Re­gi­onal Sul-Ame­ri­cana) ne­o­li­beral se trans­formou em CO­SI­PLAN (Con­selho Sul-Ame­ri­cano de In­fra­es­tru­tura e Pla­ne­ja­mento), na es­sência também ne­o­li­beral ao as­se­gurar a vin­cu­lação de di­versos re­cursos da re­gião com as de­mandas dos ca­pi­tais trans­na­ci­o­nais e dos mer­cados me­tro­po­li­tanos.

O Brasil, por exemplo, du­rante o longo pe­ríodo de go­verno do PT, longe de ser um motor de um pro­cesso de in­te­gração re­gi­onal apro­fundou suas prá­ticas su­b-im­pe­ri­a­listas no con­ti­nente, en­quanto dentro de casa am­pliou os ex­tra­ti­vismos, ge­rando um pro­cesso de clara de­sin­dus­tri­a­li­zação. Tudo isso apro­fundou as con­di­ções tra­di­ci­o­nais da de­pen­dência do mer­cado mun­dial.

Cor­reio da Ci­da­dania: Quais se­riam as al­ter­na­tivas ao quadro po­lí­tico e económico pre­do­mi­nante? Quais as ja­nelas que pa­recem se ofe­recer para a aber­tura de um novo pe­ríodo his­tó­rico que vá na di­reção con­trária das im­po­si­ções deste mo­delo de ca­pi­ta­lismo e por que elas são ne­ces­sá­rias?

Al­berto Acosta: En­quanto os di­fe­rentes grupos de poder, apa­ren­te­mente, se pre­param para impor o ca­pi­ta­lismo total re­cor­rendo a di­versas formas de au­to­ri­ta­rismo, in­clu­sive de corte fas­cista, as lutas po­pu­lares ne­ces­sitam se or­ga­nizar e ver a si mesmas como lutas de di­men­sões múl­ti­plas. Deve-se as­sumir si­mul­ta­ne­a­mente uma di­mensão clas­sista e am­bi­ental (tra­balho e na­tu­reza contra o ca­pital), uma di­mensão de­co­lo­nial (como a his­tó­rica rei­vin­di­cação in­dí­gena), uma di­mensão fe­mi­nista e an­ti­pa­tri­arcal, uma di­mensão oposta à xe­no­fobia e ao ra­cismo... De­fi­ni­ti­va­mente, uma luta múl­tipla que deve buscar um amanhã mais justo para todos e todas. Uma luta que, a partir da re­be­lião, seja se­mente de um novo fu­turo.

Dentro deste novo fu­turo um ele­mento chave é a ur­gência de cons­truir e pla­ni­ficar uma nova eco­nomia, a ser­viço da vida hu­mana – in­di­ví­duos e co­mu­ni­dades – e sempre em es­treita har­monia com a na­tu­reza: a jus­tiça so­cial deve vir sempre acom­pa­nhada de jus­tiça eco­ló­gica, e vice-versa. Cons­truir essa nova eco­nomia é cru­cial, pois a eco­nomia do­mi­nante na ci­vi­li­zação atual as­fixia o mundo hu­mano e na­tural, en­quanto acu­mula ca­pital e poder em be­ne­fício de re­du­zidos seg­mentos da po­pu­lação. E en­quanto isso aos des­pos­suídos pelo sis­tema não há outro re­médio para evitar morrer no es­que­ci­mento senão lutar para des­mo­ronar uma eco­nomia que sempre busca sair de sua crise sa­cri­fi­cando vidas – e até a na­tu­reza – a fim de sus­tentar o poder de umas quantas elites.

De­fi­ni­ti­va­mente, o que está claro é que a pre­missa des­co­lo­ni­za­dora e des­pa­tri­ar­ca­li­za­dora, ele­mentos fun­da­men­tais na su­pe­ração da ex­plo­ração do ser hu­mano e da na­tu­reza por parte do ca­pital, de­manda re­fundar os Es­tado-na­ções co­lo­niais, oli­gár­quicos, ca­pi­ta­listas para que estas trans­for­ma­ções não fi­quem sim­ples­mente nos dis­cursos. Não se trata de sim­ples­mente ga­nhar elei­ções para acessar o poder, mas cons­truir um poder desde baixo, desde a es­querda e sempre com a Pa­cha­mama (mãe terra) para im­pul­si­onar um pro­cesso de ra­di­ca­li­zação per­ma­nente da de­mo­cracia.

Em con­sequência, urge cons­truir sobre a ca­mi­nhada uma nova his­tória, a qual ne­ces­sita de uma nova de­mo­cracia, pen­sada e sen­tida desde os aportes cul­tu­rais das di­versas co­mu­ni­dades, em par­ti­cular desde os povos mar­gi­na­li­zados, como são os ori­gi­ná­rios; isto é, uma de­mo­cracia in­clu­siva, harmónica e res­pei­tosa da di­ver­si­dade.

Tudo isso como parte de pro­postas de trans­for­ma­ções pro­fundas, ci­vi­li­za­tó­rias, em que a ên­fase deve estar em as­se­gurar si­mul­ta­ne­a­mente a plu­ra­li­dade e ra­di­ca­li­dade. Uma ta­refa que não será pos­sível da noite para o dia, mas através de su­ces­sivas apro­xi­ma­ções que en­frentem todas aquelas má­quinas de morte que ame­açam a so­bre­vi­vência hu­mana e a vida no pla­neta. Re­que­remos ações que teçam as lutas de re­sis­tência com as ações de re-exis­tência em ní­veis local, na­ci­onal, re­gi­onal e in­ter­na­ci­onal... Para en­frentar as “in­ter­na­ci­o­nais da morte” serão ne­ces­sá­rias “in­ter­na­ci­o­nais da vida”, de uma vida digna para todos os seres hu­manos e não hu­manas.

Este es­forço deve li­berar as forças so­ciais hoje presas em di­versas ins­ti­tu­ci­o­na­li­dades do poder es­tatal, po­ten­ci­a­li­zando suas ca­pa­ci­dades de au­tos­su­fi­ci­ência, au­to­gestão e au­to­go­verno. Tudo isso de­manda não só in­te­li­gência na crí­tica, não só pro­fun­di­dade nas al­ter­na­tivas, mas so­bre­tudo a ação cri­a­tiva das forças po­lí­ticas que vi­a­bi­lizem esses pro­cessos eman­ci­pa­tó­rios.

 

Entrevista feita por Gabriel Brito para o Correio da Cidadania.

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